Thalita Rebouças domina a escrita e transforma Juntas & Separadas em obra íntima, sensível e potente

Juntas & Separadas marca um posicionamento de que histórias sobre mulheres maduras podem e devem ser contadas com complexidade, humor e verdade. E de que, quando a escrita nasce da vivência, ela não pede atenção, ela só chega, senta e conquista quem tem acesso. Foto: Foto: Laura Campanella

Quando Thalita Rebouças anunciou Juntas & Separadas, a expectativa era clara: viria um texto atravessado por vivência.

Thalita sempre foi uma autora que escreve de dentro. Isso já estava presente em obras como Fala Sério, Mãe! e Tudo por um Pop Star, ainda que voltadas ao público jovem. Aqui, no entanto, há um deslocamento importante: o olhar amadurece junto com a escrita e o texto ganha camadas que só a experiência sustenta.

Em Juntas & Separadas, a dramaturgia não parte da ideia, mas do vivido. A separação, o luto, os recomeços e os encontros femininos que surgem nesse processo não são apenas pano de fundo; são o motor da narrativa. Quando Thalita afirma que coloca um pouco de si em cada personagem, isso se confirma em cena.

O texto acerta especialmente na forma como conduz os conflitos. Não há pressa em emocionar, e justamente por isso a emoção chega com mais força. A cena da morte do pai de Joana (Luciana Paes) evita o excesso e aposta no silêncio. O momento em que Ana Lia (Natália Lage) vê o filho sair de casa carrega um vazio difícil de traduzir. Claudinha (Debora Lamm), ao se envolver com outra mulher, encontra um texto que acolhe sem explicar demais. E o rompimento de Laura (Sheron Menezzes) com Lucas entrega diálogo raro, daqueles que parecem sair da tela e virar repertório pessoal de quem assiste.

Outro mérito está na abordagem de temas ainda pouco tratados com naturalidade na dramaturgia: menopausa, desejo, corpo, maternidade não romantizada. Thalita não transforma esses assuntos em discurso, ela os insere na vida das personagens. E isso faz diferença.

Há, sim, um traço profundamente pessoal na escrita. E isso não é um limite, é o que dá densidade ao texto. Porque, ao organizar a própria experiência em narrativa, Thalita constrói algo que ultrapassa o individual.

Juntas & Separadas marca um posicionamento de que histórias sobre mulheres maduras podem e devem ser contadas com complexidade, humor e verdade. E de que, quando a escrita nasce da vivência, ela não pede atenção, ela só chega, senta e conquista quem tem acesso.

Foto: Foto: Laura Campanella

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