Três Graças está chegando ao fim e o Pittaplay abre espaço para ouvir quem está por trás da engrenagem que sustenta a novela: seus autores. A proposta é clara: entender, em profundidade, o processo criativo, as escolhas narrativas e os caminhos que fizeram a história se conectar com o público. A série de entrevistas começa com Virgílio Silva, que falou ao Cena Aberta sobre a construção da trama, o trabalho coletivo com os parceiros de escrita e os desafios de equilibrar tradição e contemporaneidade em um folhetim que assumiu sua essência sem abrir mão de evoluir.
O folhetim não acabou, ele se adaptou
Antes de qualquer inovação, Três Graças parte de reconhecimento quase silencioso: o público nunca abandonou o melodrama. Ele apenas deixou de aceitar fórmulas vazias.
Virgílio Silva, um dos autores da novela, não trata a boa recepção da trama como surpresa. Para ele, o sucesso passa por entendimento direto da linguagem: “O público ainda responde muito bem à essência do folhetim clássico. O melodrama não está ultrapassado. Ao contrário, está muito vivo e, de certa forma, ‘camaleônico’, porque é capaz de se renovar sem perder sua espinha dorsal, que são os conflitos morais claros, personagens movidos por paixões intensas e uma narrativa que mexe com as emoções de quem acompanha”.
A novela não tenta se afastar do que é. Não nega o DNA do folhetim. Assume seus códigos: redenção, queda, segredos, embates morais e os reposiciona com um acabamento mais contemporâneo. Diálogos mais ágeis, personagens com maior densidade psicológica e temas atuais atravessando estruturas clássicas.
O resultado não é ruptura. É atualização consciente.
Uma novela escrita como se fosse uma redação

A coerência de Três Graças nasce de um método. Virgílio, ao lado de Aguinaldo Silva e Zé Dassilva, construiu a novela a partir de lógica que vem de outro lugar: o jornalismo.
Não há divisão de núcleos. Não há território criativo isolado: “Criamos uma espécie de ‘linha editorial’ para escrever a história. Nós criamos juntos todas as tramas de todos os personagens”, conta o autor.
Essa escolha muda tudo. Quando os autores dominam todos os personagens, a novela deixa de ser fragmentada. Os núcleos conversam entre si porque foram pensados como parte de um mesmo organismo. E isso tem consequência direta: nenhum personagem é abandonado: “Numa novela, os criadores não soltam a mão de nenhuma de suas criaturas”.
Bagdá: o conflito que não cabe em rótulos

Se há um personagem que traduz a proposta moral da novela, é Bagdá (Xamã). Mas não pela violência. Pela contradição. Virgílio recusa a ideia de personagens essencialmente bons ou maus. O ponto de partida é outro: o ser humano como território de disputa.
“O bem e o mal estão em cada um de nós”, diz o roteirista e Bagdá não nasce vilão. Ele se constrói a partir de circunstâncias e, principalmente, da herança violenta do pai. Esse passado não justifica suas escolhas, mas explica sua trajetória.
O que torna o personagem potente é justamente o atrito interno: a brutalidade que convive com um desejo, ainda que sufocado, de afeto e redenção: “A brutalidade não exclui a humanidade. Muitas vezes nasce dela. Não estou aqui defendendo que as circunstâncias devam levar você à prática do mal. A vida nem sempre é justa com as pessoas e nem por isso a maioria delas escolhe fazer coisas ruins. Então, a dualidade de Bagdá foi construída a partir de um conflito íntimo”.
É nesse ponto que Três Graças se ancora no melodrama clássico, não na superfície, mas na complexidade moral.
Joélly: quando crescer deixa de ser escolha

Com Joélly, papel de Alana Cabral, a gravidez na adolescência não é tratada como pauta, mas como experiência emocional. A personagem existe entre dois tempos: o que ela ainda é e o que precisa se tornar.
Virgílio conta que a personagem foi trabalhada a partir do conflito constante entre uma jovem sonhadora e a responsabilidade que não pode ser adiada: “O tema da gravidez na adolescência é extremamente delicado. Ao mesmo tempo em que queríamos abordar essa questão, pensamos em como deveria ser feita essa abordagem”, explica.
A fragilidade não desaparece com a gravidez. Ela convive com o medo, com a insegurança e com decisões que chegam antes da hora: “O amadurecimento não veio de construção natural da vida, mas acontece com falhas, medo e contradições, como na vida real”, explica o autor.
Joélly não simboliza nada. Ela vive e é nesse viver que a novela encontra sua verdade.
Quando o ator muda o rumo da história

Ao longo da novela, alguns personagens deixam de ocupar o lugar de apoio e passam a interferir diretamente no eixo dramático. Lucélia (Daphne Bozaski), Vandilson (Vinicius Teixeira), Kasper (Miguel Falabella) e Helga (Kelzy Ecard) não crescem por acaso.
O autor conta que, claro, existe planejamento, mas também existe resposta ao que acontece em cena. A sinopse já previa um arco para Lucélia. Mas o impacto da atriz em cena ampliou esse caminho: “Quando vimos Daphne Bozaski na primeira cena, ficamos hipnotizados pelo talento dela”.
Com Vandilson e Alemão, o movimento foi diferente. Eles nasceram como extensão de Bagdá, mas ganharam autonomia: “Os atores abraçaram com tanta garra os personagens, que acabaram ganhando vida própria. Vinícius Teixeira e Lucas Righi fizeram estes personagens cresceram. Outro caso é com a Luiza Rosa, que defendeu brilhantemente a sua Kellen”.
E há casos em que o personagem sequer existia. Helga, personagem de Kelzy Ecard, surge fora da sinopse, a partir do impacto da primeira cena da atriz: “Não podíamos desperdiçar um talento daquele. A personagem ganhou importância que vai, inclusive, definir os rumos de algumas tramas”, revela Virgílio.
O capítulo que virou um filme dentro da novela

Entre todos os momentos da novela, um se impõe como ruptura formal: o capítulo inteiro em flashback que revela a tentativa de assassinato de Rogério, personagem de Eduardo Moscóvis. A ideia nasce de forma simples, em conversa com Aguinaldo Silva. Mas o risco era evidente.
Nenhuma novela tinha feito aquilo, daquela forma. Virgílio não apenas sugeriu a estrutura. Ele avançou: “Ousei ir além do pedido e enviei o capítulo pronto com um ‘seja o que Deus quiser!’”, conta com muito bom humor.
A resposta veio em forma de ligação e de validação: “Horas mais tarde o telefone tocou, atendi ansioso e preocupado com o que ele ia achar daquilo tudo. E ele simplesmente me disse: está sensacional! Foi uma emoção indescritível”.
A construção parte de princípio narrativo claro: não é alguém contando o passado. É a memória do personagem conduzindo o espectador: “Construí o capítulo como se fosse um pequeno filme dentro da novela”
A preocupação não era explicar, mas fazer o público experimentar. E o desafio estava justamente aí: equilibrar ritmo, revelação e coerência sem cair no didatismo.
Aguinaldo Silva: influência que continua em movimento
A relação com Aguinaldo Silva não é tratada como marco passado. É presença constante. Virgílio o reconhece como referência desde antes do encontro, especialmente pelo trabalho com o realismo fantástico.
A conexão passa pela literatura. Ele cita o impacto de leituras da infância, como Menino de Asas e a influência de autores como Gabriel García Márquez, para entender esse tipo de narrativa.
Mas Aguinaldo amplia esse repertório: “Aguinaldo Silva sempre foi um ídolo e o texto dele já era referência para mim antes mesmo de conhecê-lo. Com as novelas que tinham o realismo fantástico, então, me identifiquei ainda mais. ‘Roque Santeiro’, que ele desenvolveu de forma genial, foi a primeira”.
Virgílio segue falando sobre Aguinaldo Silva: “Ele vai muito além de realismo mágico. E foi nas aulas que tive com ele que expandi essa compreensão. Ele tem um olhar sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre as coisas, das pequeninas às grandes, que encanta. Cada conversa, por mais trivial que a gente tem com ele, é um aprendizado”.
E talvez a frase que melhor define essa relação seja a mais simples: “Não posso dizer simplesmente como minha relação com Aguinaldo me influenciou, porque o tempo verbal com ele não é passado. Aguinaldo Silva é tempo presente. Sempre!”.
O olhar das redes sem perder a essência
Modernizar o folhetim não é apenas uma questão estética. É também entender o comportamento do público. Virgílio assume que acompanha as redes sociais e que esse olhar influencia a escrita.
Mas existe limite claro: “Trazer esse universo pra dentro do folhetim, mas sem descaracterizá-lo, foi um grande desafio. No fim, acho que conseguimos fazer bem. E isso é, sim, contribuição ao gênero, porque o modernizamos na medida que o mundo evolui, mas sem perder a sua essência”.
O maior desafio e o que fica dessa experiência
Quando questionado sobre o momento mais desafiador da novela, Virgílio não hesita: o capítulo do flashback. E isso diz muito.
Não é apenas pela complexidade técnica, mas pelo risco narrativo. Pela decisão de sair do formato tradicional sem romper com ele. No fim, talvez essa seja a síntese de Três Graças.
Antes de roteirista, Virgílio trabalhou como jornalista de TV. E essa origem continua presente na forma como ele pensa a novela. A lógica é direta: assim como uma reportagem precisa dialogar com o telespectador, a novela precisa emocionar quem assiste: “Assim como uma reportagem deve atender à expectativa do telespectador, a novela deve ser escrita para emocionar quem está do outro lado assistindo”
É um princípio simples. E, justamente por isso, raro de ser sustentado.
Projetos para o futuro existem, ainda o autor, mas seguem em sigilo: “Ainda correm em segredo de justiça”, diz aos risos.
O que não muda é o compromisso. Fazer melhor. Contar histórias que conectem. Entender o público sem subestimá-lo. Se Três Graças deixa alguma marca, é essa: o folhetim não precisa ser reinventado. Precisa ser bem contado.
