Quando se fala em processo de criação de qualquer obra audiovisual, muitos podem pensar que as primeiras ideias nascem como provocação. É verdade. No caso do curta ‘Ananke’, protagonizado por João Medeiros, no processo de execução foi relevado mais sobre o presente do que qualquer tentativa direta de retrato. A produção fala de um futuro distópico onde o sexo é proibido. A população tem apenas até a meia noite para o “último ato”.
A premissa poderia facilmente escorregar para o exagero ou para o escândalo. Mas, na conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, João Medeiros aponta para outro caminho: o da ambiguidade, da construção em camadas e da observação do comportamento humano quando colocado diante da perda.

“O primeiro passo foi a imersão nesse universo distópico, entender a estética e partir para a experimentação”, conta o ator: “Jorge é um jovem como qualquer outro que quer aproveitar a juventude e se vê diante de algo catastrófico. O sexo move o mundo, isso é inegável, e aí a humanidade se transforma. O desejo, medo e reflexão estão interligados, mas a obra é cheia de ambiguidades. É feita para que grande parte da interpretação seja de quem está assistindo”.
Essa abertura para múltiplas leituras atravessa todo o projeto. Mesmo assumindo tom de comédia, o filme se ancora em ideia profundamente opressiva e é nesse contraste que encontra força: “Acredito que o humor é carregado de reflexão, pois ele expõe. Além de deixar o público mais atento, o que a comicidade gera muitas vezes é a identificação”, afirma João, que segue dizendo: “O poder dessa ferramenta para crítica social é inimaginável. O grande Charlie Chaplin havia percebido isso no século passado”.
Se a comédia abre caminho, a distopia amplia o campo. João reconhece que o filme não entrega respostas fáceis e talvez nem queira: “Acho que o filme diz tanto que eu mesmo fico me perguntando sobre os temas mais pulsantes”, admite.
“A obra se tornou algo maior do que eu imaginava. A distopia nos apresenta espaço que seria distante, porém é mais real do que imaginamos. Fica o alerta para o uso da tecnologia, a falta de fiscalização das medidas governamentais e também um conselho para que aproveitemos mais a vida”.
O corpo como linguagem e território de tensão

No centro disso está o corpo, não como exposição, mas como linguagem. Um território de memória, tensão e silêncio: “O corpo é memória; vimos suor, desejo e tensão sem serem propriamente ditos em cena”, explica. “O ‘pulo do gato’ foi investigar como são os corpos de hoje, em específico os jovens, e ao mesmo tempo ver como o Jorge se sentia em meio às relações que presencia. Para mim, o foco do ator está exatamente na relação, seja com pessoas, objetos ou ambiente”.
Esse olhar se conecta diretamente com o próprio método de trabalho do ator, que oscila entre o reconhecimento e a rompimento: “Ao construir um personagem sempre tento buscar pontos em comum e opostos a mim. Posso fazer algo muito próximo de quem eu sou ou criar do zero. Foi um trabalho de encontrar equilíbrio, até porque o personagem tem sua história individual, mas também representa outras”.
Um dia em 20 minutos: o desafio do tempo comprimido

A urgência narrativa, essas últimas horas que os personagens têm para fazer sexo pela última vez, também atravessou o processo de gravação. Em um curta, o tempo é comprimido, mas precisa ser sentido: “Partimos da ideia de gravar o transcorrer dessa trajetória durante a narrativa em torno de 20 minutos. Para solucionar isso, apostamos no ritmo da história, construindo momentos frenéticos e intensos que fazem o espectador acreditar no dia como um todo. Deu super certo”, avalia: “É um universo que pode se expandir”.
Nos bastidores, o caos da ficção encontrou eco na realidade e acabou traduzindo o espírito coletivo do projeto: “O momento perfeito foi a cena da repórter Érica Mattos. Quando montávamos o setup, começou a cair um dilúvio impressionante”, relembra: O ator conta que eles precisaram mudar tudo às pressas e, no final, fizeram em um único take, em plano sequência: “A atriz Marcela Maria brilhou. Quando ouvimos o ‘corta’, todo mundo se abraçou. É uma cena fundamental para o filme”.
Essa construção passa também pela troca entre diferentes trajetórias dentro do elenco: “Quanto mais diversidade, em todos os sentidos, melhor. Cada ator oferece um pouco da sua bagagem e todos se complementam. Por isso temos personagens tão marcantes e cenas construídas de maneira orgânica”.
O filme permite muito mais que uma reflexão

No fundo, o filme não se fixa em um único eixo. Ele tensiona ideias e deixa que elas coexistam: “Reflete mais sobre o comportamento humano. A repressão é como um gatilho, enquanto a liberdade é um pouco ilusória. O mais interessante é ver como as pessoas reagem ao perder o controle. Acho que é pensar em como só valorizamos quando perdemos”.
Para João, o desafio não estava em escolher entre linguagem, tema ou proposta, mas em atravessar tudo isso ao mesmo tempo: “O filme me permitiu experimentar e investigar bastante cenicamente. Ouvi uma vez que o ator não deve estar pronto, e sim de prontidão. Isso ficou na minha cabeça. É estar presente”, diz. E complementa: “Ao envolver comédia e ficção científica, o que eu exigi de mim foi entrega em todos os takes. E claro, sempre se divertindo no ofício”.
No fim, o que permanece não é uma resposta, mas um deslocamento: “A ideia é que marque as pessoas, que fique algo na mente delas. Que comecem a pensar mais sobre sua vida, relações, voto, governo…”, afirma. “Bertolt Brecht acreditava que a arte deveria despertar opinião. O filme tenta isso com desfamiliarização e estranhamento, sem abandonar o entretenimento”.
E é justamente aí que o curta encontra sua força: não em dizer, mas em provocar.
