O maior acerto de Quem Ama Cuida não está apenas no texto, mas na forma como Amora Mautner faz a novela parecer viva

À frente da direção artística de Quem Ama Cuida, Amora Mautner imprime à novela uma característica cada vez mais rara na televisão: a sensação de vida. Com cenas orgânicas, personagens que parecem existir para além dos diálogos e uma equipe afinada sob a direção geral de Caetano Caruso, a diretora transforma detalhes em verdade dramática e faz da novela uma das produções mais cuidadosas dos últimos tempos. Foto: Lucas Ramos/Brazil News

Muito se fala sobre os textos de Walcyr Carrasco e Claudia Souto em Quem Ama Cuida. E com razão. A dupla construiu uma novela que não tem pressa de existir. Os personagens possuem tempo para amadurecer, errar, criar vínculos e revelar suas contradições. Mas existe um elemento igualmente importante para que tudo isso funcione: a direção.

Mais especificamente, a direção artística de Amora Mautner.

O que diferencia Quem Ama Cuida de tantas outras novelas atualmente não está apenas nas grandes viradas, nos assassinatos ou nos conflitos familiares. Está nos detalhes. Está na forma como os personagens ocupam os espaços. Está na sensação constante de que a vida continua acontecendo mesmo quando o diálogo é o centro da cena.

Amora entende algo fundamental sobre dramaturgia: pessoas não existem apenas para dizer texto. Ela não só entende e domina, como transmite isso para toda sua equipe.

No capítulo de sábado (6 de junho), por exemplo, enquanto Bruna (Nanda Marques) e Ademir (Dan Stulbach) conversavam no escritório, um advogado interrompe a cena, entra na sala, entrega documentos e sai. O diálogo continua. A narrativa segue. Mas algo muda. O ambiente ganha vida.

Na sexta-feira (5 de junho) aconteceu algo parecido. Durante o interrogatório conduzido por Ademir sobre a morte de Arthur Brandão (Antônio Fagundes), ninguém ficou parado esperando a vez de falar. Enquanto perguntas eram feitas, Pilar (Isabel Teixeira), Ulisses (Alexandre Borges) e Silvana (Belize Pombal) serviam champanhe, pegavam garrafas, entregavam taças e se movimentavam pelo ambiente. Parece um detalhe pequeno. Não é.

São esses elementos que criam a impressão de realidade.

A autora Licia Manzo, donas de sucessos como ‘A Vida da Gente’ e ‘Sete Vidas’ já falou em entrevistas sobre a importância de “sujar a cena”. A autora comentou sobre o assunto durante participação no programa ‘Ofício Em Cena’ e comentou como faz isso nos seus roteiros. Lícia, na ocasião, explicou a ideia de que a vida não acontece de forma organizada. Existe alguém interrompendo uma conversa, um objeto que cai, um barulho ao fundo, uma distração inesperada. Ela foi certeira e faz certo em colocar isso no seu texto. Amora bebe desta mesma fonte.

A televisão muitas vezes esquece isso e transforma personagens em transmissores de informação. Em Quem Ama Cuida, acontece o contrário. Os personagens vivem enquanto falam e essa naturalidade não surge por acaso.

Existe um trabalho coletivo muito afinado envolvendo Amora Mautner, o diretor geral Caetano Caruso e os diretores Nathalia Ribas, Alexandre Macedo, Augusto Lana, Fábio Rodrigo e Rodrigo Olliveira. O mais impressionante é que a equipe parece compartilhar a mesma visão de novela.

Uma visão que respeita o silêncio, a pausa, a interrupção e os pequenos acontecimentos cotidianos. O público provavelmente não percebe conscientemente quando uma cena é construída dessa forma, mas com certeza sente, porque os ambientes parecem habitados. Porque os personagens parecem ter uma vida antes e depois da cena começar. Porque ninguém está ali apenas esperando a próxima fala chegar.

Por isso o maior acerto de Quem Ama Cuida não está apenas no excelente texto de Carrasco e Souto. Está na maneira como Amora Mautner e sua equipe transformam essas palavras em pessoas.

E poucas novelas recentes conseguiram parecer tão vivas quanto esta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *