Guerreiros do Sol chega ao fim de sua exibição na televisão aberta deixando sensação de que a teledramaturgia brasileira ainda sabe ser imensa quando texto, direção, elenco e estética trabalham na mesma direção. Não é apenas uma boa novela. É mais do que isso. É uma produção que entende o tamanho da história que decidiu contar.
George Moura e Sergio Goldenberg partem do imaginário do cangaço, de releitura livre de figuras como Lampião e Maria Bonita, mas não ficam presos à referência histórica. Os autrores criaram universo próprio e esse é um ponto essencial. Guerreiros do Sol não parece obra tentando reproduzir o passado, mas produção que tenta compreender uma ideia de Brasil: violenta, mítica, apaixonada, contraditória e profundamente humana.
O texto é um dos grandes acertos. Polido, sim, mas nunca frio. As falas têm peso, têm intenção e cabem na boca dos intérpretes. Não soam como frases bonitas escritas para serem destacadas, mas como palavras que pertencem àquele mundo.
Rosa e Josué, vividos por Isadora Cruz e Thomás Aquino, sustentam a espinha dorsal da trama com a força que protagonistas precisam ter. Rosa é dessas personagens que marcam presença e Isadora a construiu com personalidade ímpar. Forte, apaixonada, corajosa, ferida, à frente do próprio tempo. Ela ama Josué, mas nunca existe apenas em função dele. Escolhe, enfrenta, perde, sangra e continua.
Josué também carrega essa dimensão trágica. É líder, é mito, é homem atravessado pelo amor e pela violência. Thomás dá a ele presença, densidade e humanidade. O casal funciona porque não diminui a novela ao redor. Pelo contrário. Abre espaço para que outros personagens cresçam.
Valiana, de Nathalia Dill, Dona Generosa, de Marcélia Cartaxo, Coronel Elói, de José de Abreu, e Petúnia, de Larissa Góes, são exemplos de personagens que poderiam apenas orbitar a história principal. Não orbitam. Marcam. Têm função, memória, presença. Isso revela um roteiro que não trata coadjuvantes como enfeite.
Nos vilões, a novela alcança outro patamar. Arduíno é criação difícil de esquecer. Irandhir Santos constrói um homem corroído por inveja, ressentimento, ambição e tirania. A cena em que ele mata o próprio irmão e decapita Josué é uma das mais brutais da televisão brasileira recente. Revolta. Dá asco. Fica.
Mas não é violência pela violência e isso é importante destacar. Aquele gesto resume toda a degradação moral que a novela vinha construindo. Arduíno não enlouquece de repente. Ele vai sendo consumido. E Irandhir defende esse abismo sem transformar o personagem em caricatura. Esse é o horror verdadeiro. Ele continua humano o suficiente para assustar ainda mais.
Ainda falando dos vilões, Daniel de Oliveira também engrandece a trama como Idálio, em participação que reforça a força do elenco e a capacidade da novela de criar figuras sombrias sem esvaziá-las.

E há a representatividade. Aqui, Guerreiros do Sol fez algo importante. Construiu dois casais LGBTQIA+ completamente diferentes, com densidades próprias e trajetórias que não se anulam.
Jânia e Otília, vividas por Alinne Moraes e Alice Carvalho, receberam algo que poucos ou quase nenhum casal LGBTQIA+ tiveram nas novelas brasileiras: uma história completa. O amor nasce da convivência. Cresce na cumplicidade. Atravessa conflito, separação, reencontro, amadurecimento. Existe tempo, narrativa e direito ao afeto, ao medo, a saudade e, claro, a paixão.
Isso importa. Porque representatividade não está apenas no beijo, na declaração ou na cena de impacto. Está no direito de existir plenamente dentro da história. Jânia e Otília não foram tratadas como recorte. Foram tratadas como casal de novela. Com tudo que isso significa.
Alinne e Alice constroem essa relação com química rara. Não há disputa de cena. Há troca. Cada uma tem vida própria na trama, mas juntas ganham novas camadas. E ver esse cuidado aplicado a duas mulheres que se amam, dentro de um sertão que tantas vezes foi retratado pela televisão de forma estereotipada, é uma mudança importante.
Zé do Bode e Cheiroso caminham por outro lugar. O amor deles dói porque não teve tempo. Porque foi interrompido. Porque carregou medo, silêncio e uma coragem que chegou tarde demais. A despedida, com Zé dizendo que queria ter amado Cheiroso do jeito que queria, corta porque fala de uma vida inteira reprimida. A tragédia não está apenas na morte. Está no amor que não pôde ser vivido.
Kelner Macêdo e Rodrigo García entregam uma sequência devastadora. E o diretor Rogério Gomes entende que delicadeza machuca mais do que excesso. A câmera se aproxima sem explorar a dor como espetáculo. Apenas observa. E isso basta.
Falando em Rogério Gomes: a direção é um caso à parte. Papinha transforma Guerreiros do Sol em obra visualmente arrebatadora. A fotografia impressiona. O figurino respira aquele universo. Os cenários, os objetos de cena, os enquadramentos, a textura das imagens, tudo é pensado para que nada esteja fora do lugar ou que exista simplesmente para preencher quadro.
Há momentos de câmera na mão que dão urgência, instabilidade, nervo. Há planos estáticos que sustentam silêncio, tragédia e contemplação. Há movimentos calculados que nunca parecem decorativos. A direção entende quando a cena precisa correr e quando precisa parar. Quando precisa ferir e quando precisa respirar.
Esse é o casamento raro: texto, direção e interpretação falando a mesma língua. Guerreiros do Sol entende a brutalidade do sertão, mas também sua beleza. Entende a violência do cangaço, mas também sua dimensão mítica. Entende que uma produção assim não poderia ser apenas realista, nem apenas estilizada. Precisava encontrar um meio do caminho. Encontrou.
Por isso a novela termina sua exibição na TV aberta como uma das grandes produções recentes da dramaturgia brasileira. Não apenas pela história que contou, mas pela forma como contou: com coragem, capricho, elenco entregue, direção consciente, texto que respeita o público e personagens que parecem maiores do que a própria tela.
Guerreiros do Sol é obra de arte em estado bruto e polido ao mesmo tempo. Bruto pela força de suas dores. Polido pelo cuidado da construção. Por mais produções assim. Por mais autores inspirados. Por mais direções corajosas. Por mais intérpretes entregues à arte.
Porque, quando a televisão brasileira decide fazer grande, ela ainda sabe ser imensa.
