A Fabulosa Máquina do Tempo fala sobre infância, mas o que realmente está em jogo é a herança invisível que cada geração entrega à seguinte.
O novo documentário de Eliza Capai jamais utiliza essa frase, mas toda a sua construção narrativa parece caminhar em direção a ela. O título promete invenção capaz de atravessar o tempo. Aos poucos, porém, percebemos que essa máquina nunca foi um objeto. Ela é uma metáfora. Uma maneira de compreender como passado, presente e futuro convivem simultaneamente na vida de um grupo de meninas de Guaribas, no sertão do Piauí.
Essa é a grande força do filme. A fabulosa máquina do tempo não leva aquelas meninas ao futuro. Ela impede que o passado continue decidindo por elas.
Desde os primeiros minutos, Capai deixa claro que não pretende realizar documentário observacional convencional. A leitura de um trecho do livro de Gênesis é seguida por uma encenação de Adão e Eva feita pelas próprias meninas. Em seguida, surge pergunta aparentemente simples, mas capaz de sustentar toda a narrativa: e se Eva não tivesse sido criada a partir do homem?
É abertura brilhante porque desloca imediatamente o olhar do espectador. O filme deixa de discutir apenas pobreza, infância ou desigualdade para questionar a origem das estruturas que moldam o lugar da mulher na sociedade. Antes mesmo de conhecermos as protagonistas, somos convidados a pensar sobre as histórias que recebemos como verdade e sobre o quanto elas ainda determinam o presente.
Essa lógica atravessa todo o documentário. Primeiro, voltamos ao princípio da humanidade. Depois, mergulhamos nas histórias das mães e das avós. Por fim, acompanhamos meninas que tentam imaginar quem serão quando crescerem. Não existem três tempos diferentes. Existe um único tempo, em que todas essas gerações dialogam entre si.
É assim que a máquina do tempo funciona.
O maior acerto de Eliza Capai é filmar sem transformar a realidade em espetáculo
Existe delicadeza enorme na direção e Capai compreende que aquele universo não precisa ser revestido por estética grandiosa para emocionar. O documentário é sofisticado em suas escolhas, mas nunca se rende à tentação de transformar a precariedade em imagem bonita. A diretora filma com respeito, sem romantizar a pobreza ou transformar aquelas meninas em personagens exóticos. Tampouco as reduz à condição de vítimas.
Antes de qualquer coisa, permite que continuem sendo crianças e isso faz toda a diferença. Mesmo convivendo diariamente com responsabilidades que não deveriam fazer parte da infância, Ana, Ana Vitória, Joice, Laiane, Larissa, Laura e tantas outras continuam brincando, rindo, inventando histórias e sonhando. O filme entende que essa felicidade existe. Ela é legítima. Mas também provoca enorme desconforto. Afinal, como crianças podem ser tão felizes enquanto já carregam preocupações sobre casamento, trabalho, responsabilidades domésticas e o futuro?
A resposta nunca aparece em forma de discurso. Ela está nos gestos, nas conversas, nos silêncios e na forma como essas meninas transitam entre a leveza da infância e o peso de uma vida adulta que parece chegar cedo demais.
A política nunca aparece como discurso. Ela aparece como realidade

Um dos aspectos mais impressionantes de A Fabulosa Máquina do Tempo é sua capacidade de produzir crítica política sem recorrer ao panfleto.
O documentário não explica, não acusa, não procura convencer. Ele apenas observa e observar, neste caso, é profundamente político.
Ao acompanhar o cotidiano de Guaribas, o filme expõe um Brasil que ainda convive com desigualdades históricas, oportunidades limitadas e uma mobilidade social que, durante muito tempo, pareceu impossível. Ao mesmo tempo, revela geração que começa a enxergar horizontes diferentes daqueles vividos por suas mães e avós.
Essa tensão entre repetição e transformação atravessa toda a narrativa. É impossível não lembrar de Vida Maria, curta-metragem que retrata gerações condenadas a repetir exatamente o mesmo destino. Eliza Capai, entretanto, encontra pequena fresta nessa lógica. Suas protagonistas já conseguem imaginar outros futuros. E imaginar, naquele contexto, deixa de ser fantasia para se tornar um gesto profundamente político.
Quando uma vassoura pesa mais do que qualquer discurso
O momento mais devastador do documentário acontece sem música dramática, sem narração e sem qualquer tentativa de conduzir a emoção do espectador.
As meninas respondem o que desejam ser quando crescer. Aparecem algumas respostas: médica, advogada criminalista, atriz. Até que uma delas responde: empregada.
Quando a encenação desse futuro mostra uma menina de cerca de dez anos segurando uma vassoura, o documentário encontra imagem impossível de esquecer. Não existe apenas uma profissão, mas uma infância que já aprendeu quais lugares acredita poder ocupar.
É uma cena que sintetiza toda a discussão proposta pelo filme. Não porque condena esse trabalho, mas porque evidencia como os sonhos também são atravessados pelas condições sociais. Algumas crianças imaginam o impossível. Outras aprendem muito cedo a limitar aquilo que acreditam merecer.
As mães contam o passado. As filhas tentam escrever outro futuro

Embora Capai conduza entrevistas com as meninas sobre religião, pecado, medo e amadurecimento, é quando elas passam a entrevistar suas próprias mães que o documentário alcança potência emocional grandiosa a ponto de fazer o espectador querer ver e ouvir com profunda atenção o que vem pela frente
Como verdadeiras viajantes do tempo, procuram compreender o passado para descobrir se ele também definirá seus destinos. As histórias se repetem: casamentos precoces, responsabilidades antecipadas e poucas oportunidades.
Mas, pela primeira vez, existe uma geração capaz de olhar para essa herança e perguntar se outro caminho é possível e essa pergunta muda tudo.
O letreiro final não muda a leitura do filme, mas o faz ser ainda mais humano
Somente nos minutos finais temos a informação de que Guaribas foi escolhida, em 2003, como cidade-piloto do programa Fome Zero, iniciativa que deu origem ao Bolsa Família. Também ficamos sabendo que o município chegou a registrar um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil.
Eliza Capai poderia abrir o documentário com essa informação. Não abre. E acerta, porque antes de apresentar dados, ela apresenta pessoas.
Quando finalmente o letreiro aparece, entendemos que aquelas informações nunca estiveram restritas ao encerramento. Elas estavam presentes em cada sala de aula, em cada conversa, em cada sonho e em cada brincadeira mostrados ao longo do filme.
Não por acaso, uma das primeiras imagens da narrativa acontece dentro de uma escola e não por acaso, são meninas que conseguem projetar futuros diferentes daqueles vividos por suas mães.
A escola, a memória e as políticas públicas tornam-se partes da mesma máquina do tempo.
Um filme sobre o futuro que começa olhando para trás
A Fabulosa Máquina do Tempo nunca pretende responder se aquelas meninas conseguirão realizar seus sonhos. O documentário entende que o futuro não é uma promessa, mas uma disputa entre a repetição e a transformação, entre a herança e a oportunidade e entre aquilo que cada geração recebeu e aquilo que consegue entregar à seguinte.
Quando o filme termina, percebemos que a fabulosa máquina do tempo nunca esteve escondida em uma invenção infantil. Ela sempre esteve na escola, na memória, nas políticas públicas, na imaginação e, sobretudo, na possibilidade de uma menina acreditar que seu destino não precisa ser igual ao de sua mãe.
E é nessa possibilidade que a diretora encontra a maior força de seu documentário: lembrar que romper um ciclo não significa apagar o passado, mas impedir que ele continue escolhendo o futuro de quem ainda está aprendendo a sonhar.
