Foto: A Santos
Em cartaz no Rio de Janeiro com O Beijo no Asfalto, o multi-instrumentista Nigga conversou com o Pittaplay sobre sua primeira experiência como ator na montagem do clássico de Nelson Rodrigues. Conhecido na música como contrabaixista, saxofonista, cantor, beatmaker, compositor e diretor musical, Ighor Albuquerque estreia nos palcos como intérprete de Sodré, personagem que marca sua estreia como ator em uma obra de Nelson Rodrigues.
Nigga conta que a sua primeira reação ao receber o convite foi de choque e medo, pois a responsabilidade era grande: “Sabia que daria conta pois tinha muita bagagem do cabaré que já fazia parte há uns 5 anos e que misturava muito atuação e música em cena.” Mesmo acostumado a estar nos palcos como músico,ele explica o que mudou nessa experiência : “O que mais mudou pra mim foi o fato de ter texto, sabe? Eu fiz matérias de atuação na UNIRIO e já tinha noção de palco, mas estar em cena, dando texto ia ser novo.” Além disso, as movimentações em cena também representaram um desafio para o artista, que recorda esse processo como um período de intenso aprendizado “foi desafiador porque existia uma pressão interna de não poder falhar porque eu estava com os melhores atores possíveis que confiaram em mim.”
No espetáculo, Sodré é colega de trabalho de Arandir, e é um homem que naturaliza o deboche e incentiva a humilhação dentro da repartição, pressionando o protagonista após os boatos sobre o beijo em um homem na rua.
Nigga acredita ter encontrado o personagem com naturalidade, “pois ele tem uma energia de zoação que todo homem já vivenciou, infelizmente. Então como era algo que estava na carne conseguimos trazer para a cena e esgarçar.”
No palco, Nigga emprestou gestos, olhares e parte de sua personalidade para Sodré. Ao Pittaplay, o músico explica como encontrou esse equilíbrio : “através das vivências na atual sociedade que estamos, com leituras, nossos ideais não os mesmo de 60 anos atrás a sociedade mudou e evoluímos juntos. Então esses aprendizados de saber discernir o certo do errado veio de forma orgânica”, afirma.

Ele também está na música
Músico e ator, Nigga assina também a direção musical da montagem e substitui a trilha gravada por música executada ao vivo: “O diretor musical inicial Felipe Storino gravou a música do início e nos deu para ouvir e tentar dar play em cena, mas eu e Laura de Castro tiramos a música nos instrumentos e todo mundo amou como ficou ao vivo, de forma orgânica. A partir disso, como já estamos com os instrumentos montados, começamos a musicalidade das cenas.”
Com a música executada ao vivo, cada sessão ganha pequenas variações de ritmo, intensidade e emoção, , aprofundando a relação do público com a narrativa : “A ideia de criar as músicas cena por cena nos ensaios, conseguimos colocar elementos e texturas que auxiliam a imersão do público nas emoções propostas. As cenas são vivas e todo dia é diferente então estar colocando a intenção no toque ali na hora é muito mais íntimo do que soltar uma trilha, sabe? Sentir a vibração dos instrumentos”, comenta Nigga.
Escrita há mais de 60 anos, O Beijo no Asfalto permanece atual ao abordar temas como preconceito, julgamento público e intolerância e, para Nigga, o que mais chama sua atenção ao revisitar o espetáculo nos dias de hoje é ver como isso ainda atravessa as pessoas: “há risadas em cenas preconceituosas, as pessoas se chocam com coisas que eram para ser normais (por estarmos em 2026). É muito louco como o preconceito ainda existe e como ele é estrutural e velado.”
Ao refletir sobre a permanência da obra de Nelson Rodrigues, Nigga acredita que o texto continua produzindo o mesmo desconforto que motivou sua escrita: “Foi muito especial também estar nessa função de direção musical, achar sons, achar texturas que ajudem o texto a fazer esse atravessamento, cortar a galera por dentro, né? Não que o texto não se baste, porque ele se basta, mas está muito especial revisitar esse texto com a música também. A gente está muito honrado de ter esse tesouro nas nossas mãos, com a confiança do diretor e esse elenco incrível, de poder fazer jus e honrar esse texto. Tentar dia após dia fazer com que a sociedade repense a existência, sabe? E que cada vez nós possamos ser melhores.”
A peça está em cartaz no Teatro Glaucio Gill até o dia 3 de agosto.
O elenco reúne ainda: Eduardo Sterblitch, Luísa Arraes, Edson Celulari, André Mattos, Ernani Moraes, Vinicius Teixeira, Nina Tomsic e grande elenco, sob a direção de Marco André Nunes.
