Desde que Quem Ama Cuida estreou, uma parcela do público passou a enxergar Brigitte quase como uma extensão da persona humorística de Tatá Werneck. Os trejeitos, a fala fragmentada, as mudanças bruscas de assunto e a maneira aparentemente exagerada de se relacionar com as pessoas foram rapidamente interpretados como recursos cômicos. Mas essa leitura talvez ignore aquilo que a novela vem construindo silenciosamente desde os primeiros capítulos.
Brigitte nunca pertenceu ao núcleo de humor. Ela é uma personagem dramática cuja dor frequentemente produz desconforto e, por consequência, provoca riso.
Há uma diferença importante entre essas duas coisas. Para compreendê-la, é preciso separar aquilo que pertence à psiquiatria daquilo que pertence à dramaturgia.
A erotomania não é uma paixão exagerada
Até aqui, a novela constrói Brigitte com comportamentos que dialogam com características descritas pela literatura médica sobre a erotomania. Segundo Sampaio, Andrade e Baltieri (2007, p.213),
Gaëtan Gatian de Clérambault, em 1921, descreveu uma condição mental em que há convicção delirante, na qual um indivíduo, no geral uma mulher, acredita que é amada por alguém comumente de posição social e financeira proeminente. O doente tende a insistir que o objeto de amor é quem se apaixona primeiro e é ele quem faz as primeiras investidas amorosas, ou seja, é o objeto quem declara o interesse sexual inicial.
Embora Brigitte não reproduza todos os elementos descritos na literatura clínica, a forma como interpreta sua relação com César (Rainer Cadete) aproxima a personagem desse funcionamento delirante.
Em sequências que começaram a surgir na trama nas últimas semanas, os dois se conheceram porque César é sócio de seu irmão na clínica de estética e, desde então, Brigitte não tira os olhos do médico e acredita que ele está apaixonado por ela. Sampaio, Andrade e Baltieri (2007, p. 213) explicam como essa convicção encontra supostas provas no comportamento do objeto amoroso:
O indivíduo costuma descrever detalhadamente as evidências do amor correspondido, através de mensagens por meio de olhares, comunicação verbal ou não-verbal, gestos ou até mesmo através de telepatia, exercidos intencionalmente pelo objeto.
É com esse mecanismo descrito pela literatura que a construção dramatúrgica de Brigitte começa a dialogar.
Os sinais aparecem antes da revelação
A novela criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto ainda não nomeou a condição da personagem explicitamente, mas sua construção dramatúrgica dialoga diretamente com características descritas pela literatura especializada.
Não se trata apenas de insistência. Na perspectiva da personagem, os acontecimentos realmente confirmam aquilo que ela acredita e é neste ponto que reside a força do delírio.
A rejeição não desfaz a convicção
Outro aspecto importante descrito pelos pesquisadores aparece de maneira bastante evidente na novela. Segundo Sampaio, Andrade e Baltieri (2007, p.213):
A erotomania costuma persistir, apesar dos esforços por parte do objeto amado em negar tal interesse. Essa negação pode ser interpretada paradoxalmente pelo paciente como um “disfarce” da declaração de amor.
Sob a lógica do delírio, a recusa não destrói a crença, mas passa a fazer parte dela.
Mas a erotomania não explica Brigitte inteira
É justamente aqui que começa a camada dramatúrgica. Os artigos científicos utilizados como referência não associam a erotomania a comportamentos infantilizados, humor involuntário ou necessidade permanente de validação afetiva.
Esses elementos pertencem à escrita da novela e à composição criada por Tatá Werneck. Brigitte é apresentada como uma filha que cresceu privada de carinho, enquanto os irmãos recebem atenção, ela encontra apenas rejeição.
Pilar, personagem de Isabel Teixeira, esconde sua verdadeira origem, humilha a filha constantemente e quase nunca lhe oferece acolhimento. Essa ausência atravessa todas as cenas da personagem.
Brigitte chama Pilar de “mãe” repetidamente e não parece um simples vocativo, mas um pedido. Ela tenta chamar atenção, interrompe conversas, expõe segredos, constrange a família, desafia a mãe e tudo isso responde muito mais ao desejo desesperado de finalmente ser vista do que a uma intenção genuína de destruir Pilar.
O humor nasce do desconforto
Este é o aspecto mais sofisticado da interpretação de Tatá Werneck. E enquanto parte do público afirma que a atriz “faz graça”, é importante esclarecer que, na realidade, Brigitte quase nunca tenta ser engraçada. Ela acredita profundamente em tudo o que diz.
O humor nasce do descompasso entre aquilo que Brigitte acredita estar vivendo, o que os demais personagens enxergam e a compreensão que o público constrói da situação.
O espectador observa simultaneamente a percepção de Brigitte e a reação dos demais personagens e por conta disso acaba achando graça de algumas atitudes da personagem.
No entanto, esse riso não acontece porque Brigitte faça piadas, mas porque o público observa alguém deslocado da percepção compartilhada pelos demais personagens. Esse riso nasce da incompatibilidade entre a expectativa criada pela situação e o comportamento da personagem.
Brigitte nunca faz graça para os outros personagens, pois acredita profundamente em sua própria lógica e quem ri é apenas o espectador.
Uma atuação construída em camadas
Tatá Werneck enfrenta um problema incomum, pois seu histórico na comédia faz com que parte do público associe automaticamente seus gestos à intenção de provocar riso.
Mas Brigitte exige outra leitura. Cada pausa, olhar, palavra aparentemente desconexa ou explosão emocional, parece nascer de uma personagem profundamente desorganizada afetivamente.
A erotomania ajuda a explicar sua relação com César e a privação afetiva construída pela novela explica sua relação com Pilar. É o encontro dessas duas camadas que faz de Brigitte uma das personagens psicologicamente mais complexas de Quem Ama Cuida e permite a Tatá Werneck sustentar uma composição de grande densidade dramática.
Ainda estamos conhecendo Brigitte
Os próprios autores que estudam a Síndrome de Clérambault destacam que compreender essa condição depende de um reconhecimento cuidadoso de seus mecanismos clínicos. Sampaio, Andrade e Baltieri (2007) ressaltam que o conhecimento da psicopatologia da erotomania favorece o reconhecimento da síndrome e seu manejo adequado.
A novela propõe exatamente esse exercício. Antes de explicar Brigitte, faz o público estranhá-la e antes de revelar sua dor, permite que ela seja julgada. É uma construção arriscada, porque exige paciência do espectador, mas também demonstra confiança na inteligência da narrativa.
Quando todos os elementos dessa personagem forem finalmente revelados, talvez possamos descobrir que Brigitte nunca foi uma mulher feita para provocar gargalhadas e que sempre foi uma mulher tentando transformar abandono em afeto, rejeição em pertencimento e silêncio em qualquer forma de amor.
Tatá Werneck já entende tudo isso desde quando Brigitte entrou em cena. Enquanto muitos ainda enxergam uma mulher engraçada, sua interpretação sempre aponta para alguém profundamente ferido. Quando a novela finalmente revelar todas as camadas dessa personagem, talvez descubramos que nunca estivemos rindo dela, mas assistindo ao sofrimento de alguém incapaz de transformar abandono em qualquer outra linguagem que não fosse o excesso.
O mérito da atriz não está em representar uma doença, mas em construir uma mulher. A erotomania explica apenas parte do comportamento de Brigitte. O restante nasce da interpretação de Tatá, que encontra nos silêncios, nas pausas, nos gestos repetidos e na constante busca por validação uma humanidade que impede a personagem de se tornar caricata. Os trejeitos nunca aparecem como piada. Eles aparecem como consequência de alguém emocionalmente deslocado.
Tatá é uma atriz que faz o público entrar num labirinto escuro, com longo caminho a percorrer, mas com muitas respostas na saída e reflexões profundas.
Referências bibliográficas
SAMPAIO, Thais de Moraes; ANDRADE, Arthur Guerra de; BALTIERI, Danilo Antônio. Síndrome de Clérambault: desafio diagnóstico e terapêutico. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 29, n. 2, p. 212-218, ago. 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rprs/a/zVTXMLhnWL7dt7s8bV5t6Jc/?lang=pt. Acesso em: 2 ago. 2026.
