Foto: Laura Campanella
A primeira sequência de Corrida dos Bichos praticamente não permite preparação. A ação começa em alta velocidade e apresenta a lógica brutal daquele universo: humanos são os “bichos” de uma competição na qual pessoas correm para sobreviver enquanto outras transformam suas vidas em aposta e entretenimento. O futuro é distópico, mas o aspecto mais inquietante do filme está no quanto esse futuro parece próximo do presente.
O thriller de ação brasileiro Original Prime produzido pela O2 Filmes é sobre uma catástrofe ambiental que destruiu o Rio de Janeiro e aprofundou sua divisão social. Nesse cenário, a Corrida dos Bichos tornou-se espetáculo comandado por uma elite que controla competidores das classes mais baixas em busca de dinheiro. É uma premissa potente porque a distopia amplia problemas que já reconhecemos: desigualdade, exploração, concentração de riqueza e a transformação da vulnerabilidade alheia em oportunidade de lucro.
O roteiro foi desenvolvido antes da explosão das bets no Brasil, mas inevitavelmente dialoga com esse fenômeno. Há pessoas apostando, outras sendo convertidas em peças de um jogo e uma engrenagem que precisa continuar funcionando porque existe muito dinheiro circulando em torno dela. A ficção futurista encontra o Brasil contemporâneo sem precisar abandonar seu universo fantástico.
Rodrigo Santoro entende o espetáculo por trás da violência

Rodrigo Santoro brilha desde o primeiro momento em que aparece como Abu. É daqueles atores que sempre levam a cena para algum lugar e dificilmente deixam um gesto passar despercebido. Seu personagem é especialmente interessante porque conhece os dois lados dessa estrutura: foi um Bicho, venceu a corrida e ascendeu socialmente até se tornar o homem que agora orquestra o espetáculo.
Santoro compreende que Abu não é apenas um comandante. É também um showman. Há teatralidade em como ocupa o universo e consciência de que a violência precisa ser transformada em espetáculo para continuar sendo consumida. Essa dimensão encontra em Divina, personagem de Anitta, uma escolha particularmente eficiente do roteiro. Em participação especial, ela narra os jogos e mergulha completamente na energia daquele cenário. Não destoa da engrenagem proposta.
Suas piadas e comentários ácidos funcionam em duas direções: Divina conversa com quem acompanha a Corrida dos Bichos dentro da história e, simultaneamente, com quem assiste ao filme. Transformá-la nessa espécie de divindade da competição é uma ótima sacada porque reforça a espetacularização de algo essencialmente brutal.
Matheus Abreu e Thainá Duarte sustentam o coração da história
Por trás da grandiosidade do universo existe uma relação familiar que dá ao filme seu eixo emocional. Mano (Matheus Abreu) é um dos líderes do Perímetro da Morte, área de resistência ao jogo. Quando sua irmã Dalva (Thainá Duarte) se torna o Seguro de Jonas (João Guilherme), ele precisa abandonar a posição de quem combatia aquela estrutura para entrar justamente na engrenagem que desejava destruir.
Matheus Abreu segura muito bem o posto de protagonista. Defende Mano com garra do começo ao fim e encontra força principalmente quando a ação precisa ceder espaço ao drama. Thainá Duarte acompanha essa intensidade e os dois dão dimensão humana a uma narrativa que poderia facilmente ser engolida pelo tamanho de sua própria distopia.
No encaminhamento para o desfecho, o filme fica ainda mais corajoso. Santoro e Thainá protagonizam sequência efervescente, conduzida com a tensão no limite. As histórias de Mano e dos demais personagens também ganham maior peso dramático e é justamente quando ação, ficção e drama passam a operar juntos que Corrida dos Bichos encontra alguns de seus melhores momentos.
Ísis Valverde e Bruno Gagliasso jogam para ganhar e um contra o outro

Isis Valverde e Bruno Gagliasso assumem personagens mais ambiciosos e formam uma dupla interessante porque existe disputa constante atravessando suas cenas. Eles foram jogadores do mesmo lado até que ela resolveu jogar sozinha. A partir daí, não basta vencer o jogo: existe também a necessidade de provar algo um ao outro.
São cenas de carga dramática elevada, sustentadas por enfrentamentos nos quais os dois trabalham muito bem o olhar. Os dois se provocam muito bem provando a profundidade e a tensão e que vivem porque os personagens revelam outro lado da mesma lógica de sobrevivência apresentada pelo filme.
Enquanto os Bichos correm literalmente para permanecer vivos, os ricos também disputam sua sobrevivência, mas a partir de seus próprios interesses, privilégios, traumas e ambições. A diferença é fundamental: uns precisam sobreviver ao sistema; outros querem sobreviver dentro do poder que esse mesmo sistema lhes oferece.
Um elenco que o filme sabe valorizar
Se existe uma razão imediata para assistir a Corrida dos Bichos, ela está no elenco. Além de Santoro, Matheus Abreu, Thainá Duarte, Isis Valverde e Bruno Gagliasso, a produção reúne Grazi Massafera, João Guilherme, Seu Jorge, Leandro Firmino, Silvero Pereira e grande elenco.
É um conjunto de atores que ajuda a sustentar a ambição do projeto porque o filme não trata seu elenco apenas como parte acessória de um universo visualmente grandioso. As atuações permanecem no centro da narrativa. Isso importa especialmente em uma produção tão dependente de ação e construção de mundo. Os efeitos especiais funcionam, as lutas têm marcação precisa e as sequências de ação demonstram domínio técnico. A direção de Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento escolhe caminhos ousados sem permitir que o aparato visual substitua completamente os personagens.
A distopia mais incômoda é aquela que reconhecemos
O Rio de Janeiro de Corrida dos Bichos sobreviveu a uma catástrofe ambiental, mas continua organizado pela desigualdade. Existem aqueles que possuem dinheiro suficiente para transformar vidas humanas em diversão e aqueles para quem lutar não representa escolha, mas possibilidade de continuar existindo.
Por isso, talvez este seja um futuro nem tão distópico assim. A crítica social funciona porque o filme não precisa interromper a narrativa para explicá-la. As referências ao presente estão incorporadas ao funcionamento daquele mundo e exigem que o espectador reconheça as aproximações. Em determinados momentos, a distopia deixa de parecer projeção de futuro porque aquilo que vemos, despido de seus elementos fantásticos, já existe de outras maneiras ao nosso redor.
Corrida dos Bichos entende que gênero e comentário social não precisam disputar espaço. Ação, aventura, sobrevivência e sedução convivem com uma leitura bastante brasileira sobre classe, poder e exploração. E tem algo especialmente estimulante em assistir a uma produção nacional assumindo essa escala: o cinema brasileiro não precisa permanecer preso a determinados gêneros para provar sua identidade e pode se apropriar da distopia, da ação e do espetáculo, encontrando dentro deles questões profundamente nossas.
Assistir a Corrida dos Bichos é permanecer em estado de adrenalina durante boa parte da projeção. Mas o filme se torna mais interessante quando percebe que correr não basta. É preciso saber quem está correndo, quem está apostando e, principalmente, quem criou as regras da corrida.
Ao final, a produção deixa impressão bastante clara: o audiovisual brasileiro sabe fazer distopia e deveria apostar mais no gênero.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
