Honestino encontra no vazio deixado pela ditadura sua força narrativa

Bruno Gagliasso participa das reconstruções cênicas de Honestino, dando corpo cinematográfico aos fragmentos da trajetória do líder estudantil desaparecido durante a ditadura militar. Foto: Luciana Melo.

Foto: Luciana Melo

A ausência é parte fundamental da linguagem de Honestino. Como reconstruir cinematograficamente a vida de um homem que foi preso pela ditadura militar em 1973, aos 26 anos, desapareceu e nunca mais foi visto? Aurélio Michiles encontra nos fragmentos uma forma de contar essa história. Imagens de arquivo, depoimentos, cartas, poemas e dramatizações se articulam para recuperar aquilo que o apagamento institucional tentou deixar sem registro. O filme não esconde as lacunas existentes na trajetória de Honestino Guimarães, pelo contrário, transforma esses vazios em matéria narrativa.

O longa se estrutura a partir de linguagem híbrida, misturando documentário e ficção, registros factuais e reconstruções cênicas e Bruno Gagliasso se faz presente nesse espaço. Sua presença não tenta substituir o verdadeiro Honestino, mas oferecer corpo cinematográfico aos momentos para os quais a memória já não dispõe de imagens. O ator compreende essa função e defende o personagem sem transformar a interpretação em imitação ou espetáculo.

Os depoimentos cumprem movimento diferente. São eles que aproximam Honestino do espectador e retiram seu nome exclusivamente dos livros de História. Familiares, amigos, políticos e militantes ajudam a reconstruir o jovem existente por trás do símbolo político. As imagens de arquivo, por sua vez, devolvem constantemente a narrativa à materialidade dos acontecimentos. O resultado é um filme que transita entre memória individual e memória coletiva.

Honestino é apresentado como um militante de esquerda profundamente envolvido com o movimento estudantil, com a União Nacional dos Estudantes e com os debates políticos de sua geração. A repressão exercida pela ditadura aparece sob uma perspectiva assumidamente crítica, coerente com uma narrativa dedicada a um homem vítima da violência de Estado.

Bruno Gagliasso participa das reconstruções cênicas de Honestino, dando corpo cinematográfico aos fragmentos da trajetória do líder estudantil desaparecido durante a ditadura militar. Foto: Luciana Melo.
Bruno Gagliasso participa das reconstruções cênicas de Honestino, dando corpo cinematográfico aos fragmentos da trajetória do líder estudantil desaparecido durante a ditadura militar. Foto: Luciana Melo.

Há momentos, porém, em que o filme parece confiar mais na relevância histórica de seu protagonista do que na elaboração cinematográfica necessária para transformar todo esse material em experiência igualmente envolvente. A importância do que está sendo contado é incontestável, mas nem sempre a articulação entre depoimento, arquivo e dramatização alcança a mesma potência.

Isso não diminui o valor de sua existência, mas revela a dificuldade enfrentada por uma obra que tenta reconstruir cinematograficamente a trajetória de alguém cuja própria ausência é consequência da violência que o filme denuncia. Nesse sentido, Honestino realiza trabalho fundamental de memória. Contar novamente a história de uma pessoa desaparecida durante um dos períodos mais violentos do país significa confrontar o apagamento que permitiu que tantas trajetórias permanecessem incompletas durante décadas.

O filme também devolve protagonismo ao movimento estudantil. Honestino não aparece isolado de seu contexto, mas como parte de uma juventude organizada politicamente, capaz de ocupar universidades, construir resistência e enfrentar estruturas autoritárias. Ao fazer isso, o longa recorda a importância histórica da mobilização estudantil em períodos de ruptura democrática.

Nesse ponto, passado e presente inevitavelmente se encontrem e assistir à trajetória de Honestino não significa apenas conhecer aquilo que aconteceu com um jovem em 1973, mas compreender o preço pago por pessoas que resistiram quando a liberdade política havia sido violentamente interrompida.

Aurélio Michiles dirige Honestino e encontra na mistura entre arquivo, depoimento e ficção uma linguagem para reconstruir uma história marcada pelo apagamento e pela ausência. Foto: Divulgação.
Aurélio Michiles dirige Honestino e encontra na mistura entre arquivo, depoimento e ficção uma linguagem para reconstruir uma história marcada pelo apagamento e pela ausência. Foto: Divulgação.

Aurélio Michiles não consegue e talvez nem pretenda preencher todos os vazios dessa história. Alguns deles permanecem porque pertencem à própria violência do desaparecimento. Não existe imagem final, reencontro ou desfecho capaz de organizar aquilo que aconteceu.

Por isso, a mistura entre arquivo, testemunho e ficção encontra sua maior justificativa quando assume a impossibilidade de reconstruir Honestino por inteiro. Ele desapareceu, mas sua história não, ela segue embaçada, como a cena final proporciona entender.

E há algo particularmente doloroso em perceber que Honestino lutou, foi preso e desapareceu em um país no qual, décadas depois, podemos entrar em uma sala de cinema, assistir à sua história e escrever sobre ela. Honestino transforma essa possibilidade em memória e a memória, aqui, deixa de ser apenas lembrança para se tornar uma forma necessária de resistência.

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