Muito Prazer encontra no riso espontâneo o melhor da comédia brasileira

Muito Prazer reafirma a força da comédia humana de Jorge Furtado. Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones conduzem uma história que provoca risos espontâneos enquanto transforma situações absurdas e escolhas questionáveis em reflexão. Foto: Fabio Rebelo

Foto: Fabio Rebelo

Em tempos em que parte do audiovisual parece cada vez mais preocupado em fabricar a cena que será recortada, compartilhada e entregue aos algoritmos, Muito Prazer faz algo que deveria ser óbvio, mas se tornou valioso: conta uma história inteira.

Jorge Furtado retorna àquilo que sabe fazer muito bem. Sua comédia é brasileira, humana e interessada nas contradições de seus personagens. Não existe a sensação de estarmos diante de uma sucessão de esquetes esperando pelo trecho viralizável, ainda que o próprio universo dos algoritmos atravesse a narrativa. Existe começo, meio e fim. E é preciso percorrer esse caminho para compreender onde o filme pretende chegar.

Quando Furtado define sua obra como próxima de uma “comédia triste”, não está vendendo uma contradição. É desse encontro que nasce boa parte da personalidade de Muito Prazer. O riso aparece ao lado de personagens imperfeitos, decisões questionáveis e situações que vão se acumulando até transformar a pergunta “como eles sairão dessa?” em um dos motores do longa.

E o mais interessante é que ninguém parece ordenar que o espectador ria. A gargalhada simplesmente acontece.

Não há piada desesperada para virar meme nem uma sequência artificialmente construída para pedir reação. O humor nasce da autenticidade das situações, do texto e, principalmente, de atores que compreendem o tempo da comédia.

Daniel de Oliveira e Luisa Arraes encontram a sintonia

Rubem é cativante porque Daniel de Oliveira lhe empresta um carisma difícil de negar. Há facilidade em acompanhar esse personagem mesmo quando a narrativa começa a conduzi-lo por caminhos cada vez mais complicados.

Ao seu lado, Luisa Arraes defende Grace com a mesma segurança. A química entre os dois é fundamental. Daniel e Luisa não apenas dividem o protagonismo: constroem juntos o ritmo da história. É preciso acreditar naquela parceria para embarcar nas situações que surgem depois e os dois tornam essa adesão natural.

Conforme Muito Prazer avança, o filme também cresce. Problemas se acumulam, decisões produzem consequências e aquilo que inicialmente parecia administrável vai ganhando novas proporções. O espectador passa a tentar descobrir como todas aquelas pontas poderão ser resolvidas.

A resposta encontrada por Furtado consegue ser cômica sem abandonar aquilo que o filme deseja discutir e a participação de Drica Moraes é a cereja do bolo pra uma delícia que já estava concretada. 

Samantha Jones chega para completar o trio

É nesse movimento que Samantha Jones ganha espaço como Nalva, jovem que utiliza seus conhecimentos tecnológicos para ajudar Rubem e Grace.

Se Daniel e Luisa já sustentam o interesse pelo que acontece, Nalva fortalece essa ponta de protagonismo e ajuda a empurrar a dupla definitivamente para a loucura que movimenta o longa.

A personagem tem carisma, inteligência e boas saídas para as situações que encontra. Samantha compreende isso e, sobretudo, compreende a comédia.

Há um tempo preciso em sua atuação. Ela não parece procurar a piada e permite que a graça apareça a partir de Nalva. Quando recebe sequências potencialmente hilárias, sabe conduzi-las sem forçar o espectador a reagir.

Samantha Jones tem o tempo da comédia na veia e isso importa porque Muito Prazer funciona melhor quando confia que a situação e seus intérpretes são suficientes para provocar o riso.

Uma comédia que não termina na gargalhada

Muito Prazer aposta no humor humano de Jorge Furtado e encontra em Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones a força de uma comédia que também provoca reflexão. Foto: Fabio Rebelo
Muito Prazer aposta no humor humano de Jorge Furtado e encontra em Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones a força de uma comédia que também provoca reflexão. Foto: Fabio Rebelo

Uma das maiores virtudes do filme está no que sobra depois dela. Muito Prazer devolve ao público a sensação de assistir a uma história cheia. Seus personagens têm desenvolvimento, suas ações possuem consequências e a comédia não precisa existir separada da reflexão.

É uma qualidade importante num momento em que tantas narrativas parecem pensadas também pela possibilidade de fragmentação: qual cena vai circular? Qual frase será compartilhada? Qual momento sobreviverá fora do filme?

Curiosamente, Muito Prazer fala sobre esse universo, guardadas as proporções, mas escolhe outro caminho para existir dentro dele.

Há algo de uma comédia brasileira à moda antiga nessa decisão. Não porque o longa pareça ultrapassado, muito pelo contrário, mas porque acredita na história antes do recorte.

E acredita também que podemos torcer por personagens sem necessariamente absolver todas as suas escolhas. Rubem, Grace e Nalva atravessam situações em que certo e errado deixam de oferecer respostas tão confortáveis. O filme nos permite rir deles, acompanhá-los e até desejar que tudo dê certo.

Mas fica uma pergunta incômoda por baixo da diversão: o que exatamente seria fazer a coisa errada quando olhamos o mundo pelos olhos deles?

Jorge Furtado não precisa interromper a comédia para perguntar. É por isso que o riso de Muito Prazer funciona tão bem. Você gargalha primeiro e a reflexão chega logo depois.

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