Foto: Lucas Teixeira/Globo
Se a primeira semana de Por Você começou com força total, a segunda prova que aquele impacto não dependia apenas da estreia. Dino Cantelli e Juliana Peres mantêm a densidade dramática e encontram nos diálogos uma das maiores forças da novela das sete. Há cenas em que quase nada precisa acontecer porque tudo já está acontecendo na palavra, no silêncio e na reação de quem escuta.
Novela boa sabe explorar os conflitos de seus personagens. Mas existe um casamento necessário para que isso funcione. Em Por Você, texto, direção, produção e elenco parecem ter trocado alianças e a festa tem milhões de convidados diante da televisão.
Dino e Juliana escrevem como se conhecessem intimamente aquelas dores. O luto pela morte de Juli (Lucy Ramos) continua atravessando os filhos e Bella (Sheron Menezzes), sua melhor amiga, sem transformar sofrimento em recurso fácil.
Sheron chora muito porque Bella precisa chorar e nenhuma lágrima parece excessiva porque existe verdade na tentativa de seguir quando isso parece impossível. As crianças brincam, sorriem e procuram alguma normalidade, mas a ausência da mãe permanece nos olhos. O texto compreende algo essencial sobre o luto: a vida continua sem que a dor necessariamente diminua.
Juarez também vai sendo corroído pela culpa. Milhem Cortaz permite que esse sentimento cresça pouco a pouco, fazendo o personagem ganhar novas dimensões a cada capítulo.
Quando conversar já é uma grande cena
O capítulo desta quarta-feira (26 de agosto) talvez seja o melhor exemplo da confiança que Por Você deposita na palavra. Pérola e Vanessa sentadas à mesa do café da manhã bastam para Renata Sorrah e Alinne Moraes construírem sequência cheia de contradições. De um lado, uma mulher dilacerada depois que o marido deixa a casa. Do outro, uma mãe que conhece perfeitamente a filha que criou e, apesar de tudo, continua sendo mãe.
Vanessa carrega outro tipo de luto. Perdeu um filho e agora vê o casamento desmoronar. Sua insegurança começa a revelar até onde pode levá-la. Alinne entende o ponto de encontro entre vilania, fragilidade e humor. O carisma não desaparece mesmo quando Vanessa ultrapassa os limites da ética e a atriz consegue fazer o espectador acompanhá-la nessa travessia.
Depois vem Bella. No abrigo onde estão os filhos de Juli, ela conhece Carmela, uma mulher que tenta recuperar a guarda do filho depois de tê-lo deixado sozinho para poder trabalhar. Bella lhe oferece uma carona e Por Você transforma uma conversa dentro de um carro em dramaturgia de primeira grandeza.
Não é uma cena criada para preencher minutos entre acontecimentos maiores. A conversa é o acontecimento e ela segue, como na vida. Por Você não tem cenas isoladas com diálogos prontos e construídos para um cenário único. O texto tem começo, meio e fim, mas a conversa entre os personagens não segue esta mesma lógica num espaço único. Bella começou a conversa com Carmela no abrigo e o diálogo seguiu dentro do carro. Isso tem diferença e o público sente.
Com isso, a novela vira crônica cotidiana. Duas mulheres, um carro e palavras capazes de colocar maternidade, pobreza, culpa e sobrevivência dentro da mesma conversa. Sem discursos artificiais ou de precisar gritar sua relevância. Sheron aproveita cada frase e entende também aquilo que existe entre uma palavra e outra.
Uma novela interessada em ouvir seus personagens
Gabriel (Thiago Lacerda), depois de sair de casa, procura Ricardo (Paulo Vilhena). São melhores amigos. Portanto, novamente, Por Você não precisa inventar uma grande engrenagem para produzir drama: coloca dois homens para conversar. Vida, passado, escolhas, luto e consequências atravessam o encontro.
É essa disposição para deixar seus personagens falarem e, principalmente, ouvirem uns aos outros que diferencia a novela neste começo. O mais significativo é que tudo isso coube em um capítulo menor, exibido numa quarta-feira de futebol. Em menos tempo, a novela poderia simplesmente movimentar peças para preparar o capítulo seguinte. Preferiu parar e fez o público parar junto.
Por Você começa a se revelar uma crônica televisionada como há tempos o horário das sete não explorava dessa maneira. O cotidiano não aparece como intervalo entre grandes acontecimentos. O cotidiano é o grande acontecimento. E longe do discurso de que a vida é a grande vilã da história. Os autores já definiram bem pro público o arquétipo de mocinha e vilã e unem o tradicional do folhetim dentro da crônica, combinação que gera combustível pra essa engrenagem funcionar tão bem quanto estamos vendo.
A direção artística de André Câmara compreende esse texto e não disputa atenção com ele. A fotografia frequentemente se aproxima de uma pintura, enquanto a trilha potencializa a emoção sem precisar explicar aquilo que os atores já conseguem dizer. Obra de arte dentro da casa dos brasileiros.
Duas semanas depois da estreia, Por Você continua entendendo que uma novela não precisa provocar explosão a cada capítulo para impedir que alguém desvie os olhos da televisão. Às vezes, basta colocar duas pessoas diante uma da outra e permitir que conversem e quando o diálogo é bom o suficiente, até o público faz silêncio para a reflexão existir e a lágrima cair.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
