Foto: divulgação
O Rei da Internet acompanha a trajetória de Daniel Lofrano Nascimento que, ainda menor de idade, ganhou fama ao se tornar um dos hackers mais conhecidos do país. A partir dessa história, o filme aposta no humor, no ritmo e na linguagem das redes sociais para construir narrativa sobre o crime sem transformá-la em relato documental.
O longa começa em ritmo frenético ideal para mostrar a rotina de Daniel e como foi seu caminho até trabalhar como hacker. Em certo momento, porém, o ritmo desacelera e dá espaço para que a trama acompanhe a nova fase da vida dele. A mudança de ritmo não quebra a experiência nem tenta humanizar o hacker: o filme o acompanha de perto sem necessariamente pedir que o espectador perdoe ou justifique o personagem.
A narração do personagem principal traz dinâmica e lembra a linguagem das redes sociais, onde a rotina narrada chama atenção enquanto ilustra os acontecimentos. A voz em primeira pessoa acompanhada dos recursos gráficos e edição dão o tom certo desde o início, assim o espectador já sabe o que esperar desde o primeiro segundo de tela.
Como rir de uma história de crime?
É pela narração que o filme estabelece seu tom de humor, trazendo leveza e comédia para contar uma história de crime. O espectador entende a gravidade, mas não fica preso apenas a ela. O humor cria espaço para que a história avance sem transformar O Rei da Internet em relato pesado ou tedioso.
Entre festas, dinheiro e clichês
Apesar de encontrar um tom próprio para contar essa história, O Rei da Internet também recorre a alguns clichês já conhecidos das narrativas sobre jovens que passam a ganhar dinheiro. Bebidas, festas, sexo e a sensação de poder que vem com o dinheiro aparecem na trajetória de Daniel, compondo uma espécie de fantasia de ascensão que o cinema já explorou outras vezes.
Ainda assim, a escolha funciona porque reflete a maturidade e a ambição de Daniel aos 15 anos. Os excessos não aparecem apenas como consequência do dinheiro, mas também como parte da maneira como o adolescente passa a experimentar um poder que, até então, não tinha.
João Guilherme encontra o tom de Daniel
João Guilherme como protagonista traz magnetismo impressionante e segurança em todas as cenas. Ele consegue dar tom a esse personagem que assume seus riscos, seus desejos e suas contradições. Contido, acelerado, carismático e arrogante nos momentos certos, sem perder a energia adolescente de Daniel.
Emílio de Mello, que interpreta o pai do protagonista, preza pelo que é certo e não aceita as decisões do filho; Kaik Pereira é o amigo de infância que embarca nas decisões, até nas erradas; Caio Horowicz é o hacker que dá o primeiro emprego a Daniel, Débora Ozório interpreta a namorada do protagonista, Marcelo Serrado interpreta o chefe do grupo criminoso, enquanto Adriano Garib é o delegado da Polícia Federal que prende Daniel. O elenco de peso ajuda a construir esse universo. São personagens que orbitam sua trajetória e contribuem para ampliar a dimensão desse caos.
Os anos 2000 estão nos detalhes
A construção estética cria a identidade dos anos 2000 e ajuda a transportar o espectador para o período em que a história de Daniel acontece. Celulares, computadores, carros e outros objetos aparecem como parte da ambientação, mas a época também está presente nos elementos gráficos e nas referências visuais utilizadas pelo filme.
A direção de Fabrício Bittar e direção de arte de Tatiana Oliveira funcionam especialmente bem porque os anos 2000 são também importantes para entender o próprio contexto da história. É um período em que a internet ainda estava em processo de transformação e expansão. A tecnologia vista no filme não serve apenas como cenário: ela ajuda a mostrar um momento em que as possibilidades do mundo digital começavam a ganhar novas dimensões.
Um lugar na corrida pelo Oscar 2027
O Rei da Internet aparece entre os 15 filmes brasileiros habilitados a disputar a indicação ao Oscar 2027. A presença na lista não significa que o longa já esteja indicado, a Academia Brasileira de Cinema divulgará seu representante no dia 16 de setembro.
A presença entre os habilitados coloca o longa em uma vitrine importante e reforça o alcance de uma produção que encontra, na própria linguagem cinematográfica, uma maneira particular de revisitar uma história brasileira dos anos 2000.
Onde assistir O Rei da Internet?
O Rei da Internet está disponível no Telecine e pode ser acessado via Globoplay, Prime Video e operadoras.
No fim, O Rei da Internet conta a história de Daniel misturando humor, ritmo acelerado, recursos visuais inspirados na internet e uma atuação central segura de João Guilherme. O filme transforma uma trajetória marcada pelo crime em uma narrativa sobre escolhas, consequências e os caminhos que alguém pode tomar quando percebe que precisa mudar de rota.

Jornalista apaixonada por boas histórias. Entre filmes, séries, livros e espetáculos, está sempre em busca de narrativas que mereçam ser compartilhadas.
