Fúria acerta no elenco e prova que série brasileira também vive de melodrama

Fúria aposta em Vinicius Neri e Fábio Lago para construir uma série de ação atravessada pelo melodrama, mas seis episódios parecem pouco para sua história.

Foto: Albert Andrade / Netflix

O octógono é o cenário mais evidente de Fúria, mas não é onde acontecem todas as lutas da série brasileira da Netflix. Fora dele existem dívidas, relações familiares quebradas, ambição, culpa, violência, afeto e um protagonista sem memória tentando descobrir quem é enquanto pessoas perigosas ao redor parecem saber um pouco mais sobre seu passado. São esses conflitos que fazem a produção crescer ao longo dos seis episódios e também deixam sensação incômoda quando os créditos finais aparecem: havia história para muito mais.

Vinícius Neri está no centro desse universo como Marcelo e recebe uma das missões mais complicadas do elenco, afinal, precisa construir um personagem cuja própria identidade é um mistério. Sem um passado ao qual recorrer, o ator encontra no corpo uma maneira eficiente de contar essa história, seja dentro do octógono, onde a preparação física e as coreografias ajudam a dar credibilidade às lutas, seja fora dele, quando Marcelo precisa reagir às peças de uma vida que desconhece. Vinícius conduz o protagonista com maturidade, não força o mistério e permite que o público seja conquistado por Marcelo da mesma forma que aqueles ao seu redor acabam sendo.

Isso também acontece porque o roteiro amarra bem as perguntas envolvendo o personagem e distribui respostas sem esvaziar rapidamente a curiosidade. Marcelo se conecta direta ou indiretamente aos principais núcleos e funciona como uma espécie de ponto de encontro entre histórias que poderiam facilmente disputar espaço entre si. Vinícius entende essa responsabilidade e sustenta o protagonismo mesmo quando divide a tela com atores experientes.

Fábio Lago é o coração de Fúria

Fábio Lago transforma Toni no coração de Fúria e encontra no drama, no humor e nas contradições do personagem uma das atuações mais potentes da série. Foto DivulgaçãoNetflix
Fábio Lago transforma Toni no coração de Fúria e encontra no drama, no humor e nas contradições do personagem uma das atuações mais potentes da série. Foto: Albert Andrade / Netflix

Se Marcelo movimenta a história, Toni dá coração a ela. Fábio Lago constrói o dono da Academia Trindade como um homem que parece carregar alguma coisa prestes a transbordar, existe nele uma instabilidade que pode provocar medo e emoção, muitas vezes dentro de um mesmo episódio. Quem acompanha o ator como Bartô em A Nobreza do Amor, novela das seis da Globo, encontra nesta série da Netflix, outro trabalho, com gestos, energia e composição que afastam completamente um personagem do outro.

Toni é fundamental para a trajetória de Marcelo, porém o roteiro acerta ao não transformá-lo apenas em instrumento do protagonista. Ele possui conflitos próprios, dores que atravessam a temporada e uma presença constante que amplia a dimensão emocional da história. Fábio se desmonta diante da câmera e entrega um homem pulsante, contraditório, engraçado e ferido, encontrando boas trocas principalmente com Vinicius Neri e Alice Carvalho.

Alice Carvalho encontra outro registro

Alice Carvalho também recebe um papel diferente de trabalhos recentes e aproveita essa mudança. Sua personagem é brigona, lutadora e atravessa um arco de superação que ganha força na relação com Marcelo. A química com Vinicius ajuda a construir essa aproximação sem retirar dela a independência, enquanto as cenas físicas permitem que a atriz explore outra energia em cena.

Cláudia Raia aparece menos do que poderia. Como uma agiota que reúne humor e sensualidade, encontra uma personagem com potencial para ocupar um espaço maior, mas o roteiro não oferece tempo suficiente para explorá-la. Ainda assim, cada entrada é aproveitada pela atriz, que entende marcação, ritmo e presença como poucas, fazendo pequenas participações parecerem maiores do que são.

Bianca Comparato assume a liderança da academia rival de Toni e parte de uma posição que aponta para o antagonismo, porém a trajetória ganha outras possibilidades conforme suas atitudes começam a contrariar as primeiras impressões. Eduardo Moscovis segue por um caminho diferente e abraça a ameaça de seu vilão sem precisar transformar crueldade em caricatura. Seu personagem chega para provocar consequências, domina alguns episódios e consegue intimidar mesmo quando fala pouco.

Fúria precisava de mais episódios

O maior problema de Fúria nasce, curiosamente, de uma de suas qualidades. A série tem personagens demais com histórias interessantes para apenas seis episódios. Existem conflitos profundos, relações que pedem desenvolvimento e arcos que poderiam respirar mais antes de alcançar determinados acontecimentos, portanto a sensação não é de que exista material sobrando, mas de que faltou espaço para aquilo que já estava ali.

Mais quatro episódios poderiam fazer diferença enorme, não para esticar artificialmente a narrativa, e sim para permitir que personagens, revelações e relações amadurecessem no tempo necessário. A direção demonstra segurança, as sequências de luta recebem cuidado, o elenco responde muito bem e o roteiro possui potencial para sustentar uma temporada maior.

Existe ainda outro elemento que ajuda a explicar por que Fúria encontrou público na Netflix: por baixo da embalagem de série de ação, existe muito melodrama. O formato pode carregar a aparência contemporânea das produções feitas para streaming, mas aquilo que movimenta emocionalmente a história é conhecido do público brasileiro há décadas. São famílias atravessadas por segredos, personagens marcados pelo passado, vilões fortes, relações afetivas complicadas, revelações e conflitos capazes de reorganizar destinos.

Não há problema algum nisso, pelo contrário, produções brasileiras para streaming parecem funcionar melhor quando entendem que não precisam abandonar nossa tradição dramatúrgica para parecer modernas. É possível importar estruturas, ritmos e gêneros associados às séries internacionais sem abrir mão daquilo que o Brasil sabe fazer muito bem: melodrama, personagens maiores que suas funções narrativas e relações capazes de fazer o público querer voltar para descobrir como aquelas pessoas vão sobreviver ao próximo capítulo.

Fúria entende boa parte disso. Tem sangue, luta e mistério suficientes para vender uma série ambientada no universo do MMA, mas são Toni, Marcelo e as pessoas ao redor deles que fazem permanecer. O problema é que, quando esses personagens finalmente parecem prontos para entregar ainda mais, seis episódios já passaram.

Vale a pena assistir a Fúria na Netflix?

Sim. Principalmente por um elenco que transforma cada conflito em algo maior do que o octógono e por uma história que prova ter fôlego de sobra. Tanto que seu maior pecado é terminar quando ainda havia muita luta pela frente.

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