Foto: Nil Caniné
Existe uma coragem particular em falar de si. Não porque o medo necessariamente desaparece, mas porque, mesmo quando ele existe, alguém decide atravessá-lo. Em Hétero Sigilo, Bernardo Dugin transforma esse movimento em teatro.
Sozinho no palco, ele parte da própria trajetória para construir uma obra autobiográfica sobre crescer LGBTQIAPN+ em uma sociedade que começa a ensinar suas regras muito antes de uma criança compreender sexualidade, identidade ou desejo. Se o Bernardo pessoa ainda carrega medos, o Bernardo artista encontra diante do público um espaço para romper o sigilo e muito mais do que isso: encontra também reconhecimento.
95% de quem está sentado na plateia conhece aquela história porque, em diferentes proporções, já viveu alguma versão dela e a margem de erro é de cinco pontos percentuais para mais e para menos. A criança que não podia se exibir demais, que precisava controlar a voz, que não deveria brincar apenas com meninas, que precisava gostar de futebol e não demonstrar entusiasmo demais pela dança. Antes mesmo de saber quem é, ela já percebe que existem maneiras consideradas certas e erradas de existir.
Esse é um dos pontos mais dolorosos da dramaturgia de Dugin: a repressão chega antes da compreensão. Uma criança LGBTQIAPN+ nem precisa saber que é LGBTQIAPN+, porque isso não interessa a ela e naquele momento, ela deveria simplesmente poder ser criança. Deveria temer o bicho-papão, as histórias de terror, o homem do saco e não o próximo “não” que receberá porque quis dançar em vez de jogar futebol.
A criança pode não compreender que está sendo reprimida, mas compreende a repetição.
Não.
Não faça.
Não fale assim.
Não sente desse jeito.
E guarda.
Quando cresce e finalmente consegue nomear aquilo que viveu, percebe quantas partes de si precisou esconder antes mesmo de saber que existiam.
A adolescência torna esse mecanismo ainda mais cruel. Chegam os desejos e as descobertas, mas também o bullying, as risadas, os olhares, as agressões e a necessidade constante de vigiar o próprio corpo. Aquela criança impedida de existir livremente se torna um adolescente que continua calculando como deve andar, falar, desejar e ocupar um espaço.
Reprimir-se quando o desejo começa a pedir passagem é uma espécie de mutilação interna e é nesse processo que o título ganha uma dimensão maior. O “sigilo” de Hétero Sigilo ultrapassa o jargão conhecido pela comunidade LGBTQIAPN+. Sigilo passa a significar esconder-se de verdade. Privar-se. Construir uma versão aceitável de si para sobreviver diante dos outros, menos de si mesmo.
Bernardo conta que começa a imitar o irmão. Aprende a performar aquilo que reconhece como comportamento de um homem hétero porque percebe que essa representação pode protegê-lo, evitar uma agressão, uma bronca, um julgamento. Com isso, a heterossexualidade deixa, então, de aparecer apenas como orientação sexual e surge como performance social que ele aprende a reproduzir.
Isso tudo é profundamente teatral e antes de Bernardo Dugin subir a um palco para interpretar a própria história, aquele menino já havia sido obrigado a atuar, só que com a diferença de que agora ele escolhe o papel.
Sob direção de João Fonseca, Hétero Sigilo encontra no humor uma maneira inteligente de atravessar essas memórias sem diminuir sua violência. A plateia ri porque reconhece códigos, comportamentos e situações. O riso não apaga a tragédia, pois em vários momentos, nasce dela.
Rimos porque nos vemos e também choramos pelo mesmo motivo. Essa identificação transforma a autobiografia em experiência coletiva. Bernardo fala sobre quem foi, mas sua história deixa de pertencer somente a ele. Há homens gays na plateia reconhecendo a infância que tiveram, a adolescência que atravessaram e as versões de si que precisaram fabricar para chegar até ali.
Por isso, a verdade é o elemento mais bonito de Hétero Sigilo. Bernardo mostra quem foi, quem precisou fingir ser e, ao fazer isso diante de todos, transforma o palco no lugar em que finalmente pode deixar de se esconder.
O sigilo se quebra e existe algo poderoso no que sobra depois dele. Porque pessoas LGBTQIAPN+ aprendem cedo demais a ter medo. Muitas vezes, aprendem o medo antes do desejo, da liberdade e até do amor. Crescem ouvindo que o problema está em quem amam, quando aquilo que deveria ser combatido nunca foi o amor, mas medo.
Hétero Sigilo começa com um homem falando de si, mas termina falando de muitos de nós. Bernardo Dugin olha para quem foi, para quem precisou ser e para quem finalmente consegue colocar no palco depois de uma vida aprendendo maneiras de se esconder. Assim ele faz do teatro o movimento contrário e deixa uma mensagem significativa o bastante para você refletir toda sua vida e o que ainda tem dela pela frente que você não sabe quanto: não é mais tempo de sigilo. É tempo de amar.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
