Foto: Reprodução/Globoplay
Vanessa, personagem de Alinne Moraes em Por Você, raramente precisa declarar abertamente aquilo que pensa para revelar seu racismo. A vilã domina um vocabulário de justificativas, ressalvas e falsas preocupações que procura tornar aceitável o preconceito. Quando confrontada, encontra outra palavra para substituir aquilo que acaba de demonstrar e é nessa escolha cuidadosa do discurso que Dino Cantelli e Juliana Peres constroem uma das discussões mais contundentes da novela das sete da Globo.
No capítulo de segunda-feira, 12 de outubro, duas situações colocaram essa característica de Vanessa em evidência. A primeira envolveu o pedido de casamento de Vitor (Lucas Leto) a Leandra (Giovanna Grigio). A segunda retomou o episódio de racismo sofrido por Bela, interpretada por Sheron Menezzes, quando uma paciente se recusou a receber atendimento médico por causa da cor de sua pele.
As duas sequências possuem circunstâncias diferentes, mas compartilham a mesma lógica, a de que Vanessa tenta apresentar sua discriminação como preocupação legítima, deslocando o problema de suas atitudes para a maneira como os outros as interpretam.
O preconceito que se apresenta como preocupação materna
A reação de Vanessa ao pedido de casamento de Vitor começa antes mesmo de suas palavras mais reveladoras. Alinne constrói um sorriso forçado, acompanhado de celebração que soa incompatível com a expressão da personagem. Ao dizer “viva o amor”, Vanessa tenta desempenhar o papel de mãe compreensiva, mas a atriz permite que o desconforto permaneça visível.
O sorriso parece ficar preso no rosto e é notória a resistência na maneira como Vanessa procura sustentar a felicidade que evidentemente não sente e a interpretação antecipa aquilo que o diálogo posteriormente confirma.
Quando Leandra confronta a mãe, Vanessa rejeita a acusação de racismo e recorre à preocupação com a juventude da filha. A justificativa parece razoável quando isolada de todo o contexto. Entretanto, o roteiro já ofereceu ao público elementos suficientes para compreender que aquela resistência possui outra origem.
A confirmação vem na conversa com Gabriel (Thiago Lacerda): “Você acha natural nossa filha se casar com um…”, começa Vanessa, interrompendo a própria frase.
A interrupção é uma das escolhas mais importantes da sequência. Dino e Juliana compreendem que o preconceito também se manifesta naquilo que alguém evita concluir. Vanessa sabe o peso da palavra que está prestes a pronunciar e interrompe a fala antes de assumir explicitamente o que pensa.
Em seguida, procura formulação aparentemente mais aceitável e reconhece que Vitor é charmoso, competente e educado, mas afirma que ele não pertence ao núcleo familiar deles.
A estrutura do discurso é reveladora. Vanessa enumera qualidades para depois invalidá-las com uma ressalva. O problema, portanto, jamais esteve na competência ou no caráter de Vitor, mas naquilo que a personagem entende como pertencimento social e racial.
Gabriel identifica a contradição e a coloca diante dela: Vitor serve como namorado de Leandra, mas não como marido, genro e pai de seus futuros netos?: “Isso tem nome, é preconceito”, afirma.
A resposta de Vanessa resume sua estratégia discursiva: “Eu chamo de compatibilidade, é diferente.”
Essa é uma das falas mais fortes do capítulo. A personagem substitui a palavra que denuncia sua conduta por outra que sugere uma avaliação objetiva. “Compatibilidade” parece pertencer ao campo das escolhas pessoais, dos valores familiares e das diferenças de estilo de vida. Na boca de Vanessa, funciona como recurso para estabelecer uma fronteira racial sem precisar nomeá-la.
A novela expõe, assim, um mecanismo reconhecível do racismo estrutural como tentativa de transformar exclusão em preferência, discriminação em prudência e preconceito em preocupação.
Quando a suposta neutralidade também discrimina

A segunda sequência aprofunda essa discussão ao retomar o caso de racismo sofrido por Bela no hospital.
Desde os primeiros capítulos, Vanessa procura desqualificar a médica e questionar o espaço que ela ocupa. Sua resistência à criação de uma ala de atendimento social também revela uma visão elitista da instituição, que, segundo seus interesses, deveria permanecer voltada às pessoas de maior poder aquisitivo.
A presença de Bela, mulher negra que cresceu em uma favela e conquistou reconhecimento profissional, contraria a hierarquia social que Vanessa procura preservar. Quando a médica denuncia a paciente que se recusou a ser atendida por ela, Vanessa tenta diminuir a gravidade do ocorrido e argumenta que também já precisou ouvir comentários desagradáveis de pacientes e permanecer calada.
A comparação é reveladora porque procura equiparar uma situação de discriminação racial a conflitos comuns do atendimento hospitalar. Dessa maneira, Vanessa retira do episódio sua dimensão criminosa e tenta apresentar a reação de Bela como exagerada. Ao questionar se deveria distribuir um manual de boa conduta aos pacientes, a vilã também desloca a responsabilidade institucional para uma suposta impossibilidade de controlar o comportamento alheio.
É Ricardo (Paulo Vilhena) quem amplia o debate ao reconhecer, a partir de uma observação de Vitor, que o hospital não possui um protocolo para enfrentar situações dessa natureza. A intervenção é fundamental para a dramaturgia e o roteiro compreende que o racismo não se limita à relação entre a vítima e quem comete a agressão, mas também a responsabilidade das instituições diante da violência.
A conversa avança quando Bela pergunta quantos médicos negros trabalham naquele hospital e Vanessa afirma que as contratações são realizadas com base na competência e acrescenta: “Não vejo cor quando olho pra você, Dra. Isabela.”
A frase procura produzir imagem de imparcialidade. Vanessa acredita que negar a percepção da cor da pele equivale a demonstrar ausência de preconceito. Entretanto, sua própria trajetória na novela contradiz essa declaração e ao afirmar que não vê cor, a personagem evita reconhecer como a questão racial atravessa as relações sociais e as oportunidades profissionais. Sua suposta neutralidade também serve para impedir que as desigualdades sejam discutidas.
Bela responde recuperando história que antecede o hospital. Lembra que conheceu Vanessa ainda na infância, quando sua mãe trabalhava para a família da vilã, e que o incômodo com sua ascensão profissional sempre esteve presente. A resposta devolve ao conflito sua dimensão histórica. Vanessa não está diante de uma desconhecida, pois acompanha a trajetória de uma mulher que ultrapassou as expectativas sociais que lhe eram impostas e passou a ocupar um espaço de autoridade.
Bela reconhece sua própria competência e deixa claro que Vanessa não conseguirá retirar dela o lugar que conquistou e o silêncio da vilã ao final da conversa é significativo. Depois de tantas tentativas de reorganizar o discurso, Vanessa fica sem uma justificativa capaz de enfrentar a verdade apresentada pela médica.
Alinne Moraes compreende a violência escondida nas entrelinhas
A interpretação de Alinne é decisiva para que essas sequências alcancem toda a sua potência. Vanessa possui inteligência suficiente para reconhecer o peso social de determinadas palavras. Por isso, procura constantemente reorganizar aquilo que diz, amenizar suas posições e encontrar justificativas para atitudes discriminatórias.
Alinne trabalha essa consciência da personagem pelo sorriso que não se completa, na frase interrompida, na aparente indignação diante de uma acusação e na tentativa de recuperar o controle das conversas. Tudo isso revela uma vilã que sabe manipular a própria imagem.
A atriz evita transformar cada manifestação de racismo em explosão caricatural e a violência de Vanessa também aparece na tranquilidade com que ela formula argumentos, como se estivesse apenas defendendo valores familiares ou critérios profissionais.
Essa contenção torna a personagem ainda mais reconhecível, pois o preconceito pode se manifestar em discursos pronunciados com naturalidade, dentro de casas, hospitais e ambientes de trabalho, muitas vezes por pessoas que rejeitam veementemente a possibilidade de serem chamadas de racistas.
Alinne oferece maturidade a essa composição porque sabe que Vanessa procura esconder o preconceito até de sua própria apresentação pública.
Uma vilã humanizada, mas jamais absolvida

Outro acerto de Por Você está na complexidade que Dino e Juliana oferecem à personagem. Vanessa enfrenta o sofrimento pela perda de um filho, convive com carências afetivas e ama um homem que não corresponde aos seus sentimentos. Essas experiências permitem compreender suas fragilidades e reconhecer aspectos humanos em sua trajetória.
Apesar disso, o roteiro jamais utiliza essa dor para diminuir a gravidade de suas atitudes e essa distinção é essencial. Uma personagem pode sofrer, amar, sentir falta e desejar acolhimento enquanto continua sendo responsável pelas violências que pratica. A humanização amplia sua complexidade dramática, mas não funciona como absolvição.
É por isso que Vanessa ultrapassa a função convencional de antagonista e seus discursos são reconhecíveis porque reproduzem mecanismos presentes na sociedade. A personagem expressa preconceitos que circulam nas relações familiares, nas decisões profissionais e nos espaços frequentados por grupos privilegiados.
A novela acerta ao mostrar que o racismo nem sempre chega acompanhado de declaração explícita de ódio, mas também por meio de condições, restrições, preferências e justificativas cuidadosamente formuladas.
A responsabilidade de uma novela que desenvolve seus conflitos

A qualidade dessa abordagem está diretamente relacionada ao planejamento dramatúrgico de Por Você. O racismo sofrido por Bela no atendimento hospitalar não foi apresentado como acontecimento isolado, destinado a provocar indignação durante uma única sequência. A agressão desencadeou uma denúncia, repercutiu entre os funcionários, mobilizou discussões institucionais e continuou produzindo consequências nos capítulos seguintes.
Da mesma maneira, a resistência de Vanessa ao relacionamento de Leandra e Vitor dialoga com comportamentos que a personagem manifesta desde o início da história.
Dino e Juliana constroem a discussão que encontra sustentação na trajetória dos personagens. As falas surgem de conflitos previamente estabelecidos, avançam por meio de diálogos longos e permitem que diferentes perspectivas sejam confrontadas dentro da própria narrativa.
A responsabilidade na maneira como os autores escolhem cada palavra é evidente. “Compatibilidade”, “competência”, “preocupação” e “não vejo cor” são expressões que carregam sentidos aparentemente inofensivos, mas revelam sua violência quando observadas no contexto em que Vanessa as utiliza.
O texto é inteligente para saber que a linguagem também participa da manutenção das desigualdades e a direção, ao lado de interpretações como a de Alinne Moraes e Sheron Menezzes, transforma essa compreensão em dramaturgia de grande força.
Por Você preserva a estrutura do folhetim, seus conflitos familiares, romances e antagonismos, enquanto desenvolve questões sociais com profundidade e os assuntos permanecem na história, provocam reações e alteram as relações entre os personagens.
O capítulo de 12 de outubro demonstra o quanto uma novela pode contribuir para a reflexão pública quando existe rigor na escrita e responsabilidade na condução dos temas. Vanessa chama de compatibilidade aquilo que Gabriel reconhece como preconceito. Diz não enxergar a cor de Bela, embora suas atitudes revelem o contrário e, diante da verdade que tenta esconder, encontra no silêncio sua última resposta.
Dino Cantelli e Juliana Peres mostram que o racismo também sobrevive nas palavras escolhidas para disfarçá-lo e Alinne Moraes faz com que o público reconheça essa violência mesmo quando Vanessa tenta escondê-la.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
