Foto: Maurício Fidalgo/Globo
A continuação de Avenida Brasil chega cercada pelo maior risco que poderia enfrentar: a expectativa de repetir o fenômeno de 2012. Quem ligar a televisão esperando encontrar a mesma novela provavelmente vai se decepcionar. 15 anos se passaram. Carminha, Nina, Tufão e sua família podem conservar os nomes, mas não poderiam permanecer iguais. Nem os personagens, nem o público são os mesmos e exigir que tudo permaneça intacto seria ignorar aquilo que uma boa dramaturgia sabe fazer: acompanhar mudanças.
É preciso entender que estamos diante de uma nova novela. Uma continuação, certamente, mas com outros conflitos, novos personagens e despedidas inevitáveis. A memória afetiva será decisiva para atrair espectadores, porém pode se transformar numa armadilha quando a nostalgia exigir que cada cena reproduza o impacto da obra original. Comparar as duas histórias o tempo inteiro seria condenar a nova trama antes mesmo de conhecê-la.
Esse cuidado também vale para autor, direção e produção. O desejo de corresponder ao tamanho de Avenida Brasil não pode sufocar a liberdade de contar outra história. O fenômeno de 2012 pertence ao seu tempo e às circunstâncias que o tornaram possível.
Mas também existem motivos para entusiasmo. A sinopse de João Emanuel Carneiro apresenta uma Carminha em busca de perdão e devolve ao público uma pergunta instigante: até que ponto é possível acreditar nela? A passagem de tempo oferece espaço para novas contradições e para personagens transformados pela própria vida.
No Upfront, Adriana Esteves e Débora Falabella reacenderam a rivalidade que marcou a televisão brasileira com carisma e evidente sintonia. A disposição do elenco para reencontrar esse universo é vantagem importante. Existe uma história a continuar, desde que ninguém tente aprisioná-la na lembrança.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
