Foto: Reprodução/Globoplay
A exclusão de Samuca da festa de uma colega, seguida dos apelidos de “esquisito” na escola, oferece a Por Você a chance de discutir o preconceito que começa antes de ser nomeado. Ao confrontar a mãe da aniversariante, Bela lembra que incluir também se ensina. A resposta, “Da educação da minha filha cuido eu e estou fazendo um ótimo trabalho”, revela o problema: crianças aprendem a excluir quando encontram adultos que normalizam a exclusão.
A novela vem tratando a investigação sobre Samuca e a possibilidade de ele estar dentro do espectro autista com sensibilidade. Observa sua comunicação, seu comportamento em casa e suas relações na escola, sem reduzir a questão ao aprendizado. O olhar dos outros também interfere na experiência e o texto de Dino Cantelli e Juliana Peres sabe desta dimensão.
Para reparar a tristeza do menino, Bela organiza em casa a festa da qual ele foi privado e o gesto ganha força quando Samuca diz que amou a comemoração, chama Bela de mãe e agradece.
Sheron Menezzes faz desse instante um acontecimento inteiro com o olhar. A felicidade pelo reconhecimento convive com a angústia de ocupar o lugar deixado por Juli. O que nasceu de promessa à melhor amiga morta se torna, pela convivência, um amor materno. Para Samuca, elaborando a ausência, Bela já representa cuidado, proteção e pertencimento.
O texto acerta mais uma vez ao prolongar a cena. Bela conversa com Samuca e explica que ele pode ter duas mães: Juli, que vive em seu coração, e ela, que está ali para cuidar dele. A fala respeita o luto infantil sem exigir que uma mãe apague a outra. A direção artística muito bem comandada por André Câmara e sua equipe preserva o tempo das reações, permitindo que a emoção surja sem pressa.
Kadu Spínola e Sheron Menezzes encontram uma verdade simples nessa troca e Por Você transforma uma festa improvisada em reflexão delicada sobre inclusão, perda e os vínculos que nascem do cuidado.
Foto: Reprodução/Globoplay
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
