Fotos: Divulgação / Catharina Mühl
A igreja foi um dos primeiros lugares onde Marcielly Vanucci e Cesar Romeo Marins descobriram o teatro, a música e a possibilidade de se expressar artisticamente. Também foi nesse ambiente que viveram conflitos relacionados à própria identidade e sexualidade. Anos depois, os dois artistas transformaram essas experiências em Evanqueer, espetáculo que estreou nesta sexta-feira (30), na Sede Cia dos Atores, na Lapa, no Rio de Janeiro, onde permanece em cartaz até 8 de novembro.
Com dramaturgia e atuação dos próprios idealizadores e direção de Fernanda Brandt, a montagem parte de memórias pessoais para investigar as relações entre fé, identidade, desejo e pertencimento. A proposta é revisitar a formação religiosa dos artistas sem apagar as contradições dessa experiência, reunindo música, humor, referências bíblicas e recursos audiovisuais em uma encenação que assume a estrutura de um culto reinventado.
Natural de Itaboraí, Marcielly cresceu na Igreja Batista, participando de grupos de louvor, coreografias e atividades religiosas. Durante a adolescência, nos anos 2000, começou a descobrir sua sexualidade enquanto permanecia inserida naquele universo. Cesar, criado na Maré e filho de pastor, também encontrou na igreja um de seus primeiros espaços de contato com a interpretação.
As trajetórias se encontram no palco para discutir uma questão que atravessa a montagem: é possível preservar a fé sem abrir mão da própria identidade?
Memórias religiosas ganham música, humor e linguagem audiovisual
A direção de Fernanda Brandt utiliza elementos da cultura evangélica para construir uma experiência que aproxima a linguagem teatral de referências religiosas e da memória afetiva dos artistas.
Em cena, o espetáculo incorpora símbolos nostálgicos dos anos 2000, elementos da cultura ballroom e uma banda ao vivo. A proposta estabelece conexões entre o universo dos cultos religiosos e diferentes manifestações artísticas associadas à expressão LGBTQIA+: “Evanqueer é, além de resistência, a celebração da existência queer. É a reconexão com a fé que é negada às pessoas LGBTQIA+ pela igreja”, explica a diretora.
Segundo Fernanda, a montagem acompanha as trajetórias de dois artistas que cresceram em ambientes evangélicos e procuram compreender como essas experiências continuam presentes em suas vidas: “A narrativa transita entre o sagrado e o profano e o resgate de memórias dos próprios atores, a fim de responder uma simples pergunta: é possível ter fé no humano?”, acrescenta.
A cenografia também participa dessa investigação. Televisores ocupam o espaço cênico e apresentam imagens e referências relacionadas à presença da cultura evangélica nos meios de comunicação, especialmente ao televangelismo das décadas de 1990 e 2000.
Com direção audiovisual e cenografia de Catharina Mühl, a montagem utiliza esses recursos para aproximar lembranças individuais de referências culturais compartilhadas por diferentes gerações.
Marcielly Vanucci e Cesar Romeo Marins revisitam a própria formação
A relação dos artistas com a religião é apresentada a partir de experiências que envolvem acolhimento, descobertas e conflitos. O espetáculo também reconhece a importância da igreja em suas formações artísticas, já que atividades como canto, dança e teatro fizeram parte de suas trajetórias desde a infância e a juventude.
Para Marcielly Vanucci, revisitar esse passado representa uma oportunidade de reconhecer as diferentes experiências que contribuíram para sua identidade: “É muito bom não precisar negar quem é, e melhor ainda, poder reconhecer o que foi. Não vamos apagar nada, vamos dar luz aos caquinhos, acender o holofote no mosaico complexo da vida”, afirma.
A atriz e produtora cultural explica que a montagem procura acolher as contradições presentes nessas memórias, inclusive aquelas relacionadas às dificuldades enfrentadas por pessoas LGBTQIA+ em ambientes religiosos: “Alguns artistas que viveram experiências evangélicas apagam essa parte e pessoas que convivem em espaços religiosos não gostam de ver as atrocidades cometidas. Tem tudo. Nada é irreal. Está tudo aqui na minha pele. E vamos partilhar nesse rito que é Evanqueer!”, completa.
Cesar Romeo Marins também encontrou na criação do espetáculo uma maneira de revisitar sentimentos que precisou silenciar durante sua formação: “Quando imaginei Evanqueer, era uma tentativa de resgatar o que aprendi a calar”, conta o ator.
O artista explica que deixar a igreja não significou romper completamente com as experiências que fizeram parte de sua vida. Pelo contrário, a distância permitiu que começasse a compreender sua relação com a espiritualidade de outra maneira: “Eu percebi que não posso simplesmente arrancá-la de mim sem sentir que também estou arrancando uma parte de quem sou. Se na igreja precisei negar minha sexualidade, fora dela precisei aprender a olhar pra fé de outra maneira”, relata.
Para Cesar, a montagem representa uma tentativa de conciliar aspectos de sua trajetória que durante muito tempo pareceram incompatíveis: “Evanqueer é também uma tentativa de me reconciliar com essas partes de mim e de seguir buscando uma forma de existir com inteireza”, afirma.
Espetáculo propõe diálogo entre diferentes experiências de fé
Ao transformar memórias pessoais em dramaturgia, Evanqueer procura estabelecer um diálogo com espectadores que também viveram conflitos entre suas identidades e a formação religiosa.
A montagem, entretanto, não se restringe ao público LGBTQIA+. A proposta também contempla pessoas que mantêm ou já tiveram vínculos com comunidades religiosas e que reconhecem a complexidade dessas relações.
A combinação de relatos pessoais, música, humor e referências bíblicas permite abordar experiências de pertencimento e afastamento sem reduzir a trajetória dos artistas a uma única interpretação sobre a religião. O espetáculo também incorpora uma dimensão audiovisual que ultrapassa o espaço do palco, com a produção de conteúdos relacionados ao processo de criação.
Com direção musical de Omsa, arte e figurino de Juliana Almeida, iluminação de Clara Sampaio e preparação corporal de Mika Makino, a montagem reúne diferentes linguagens para construir uma experiência cênica atravessada pelas memórias de seus protagonistas.
Entrevista exclusiva no Pittaplay
Além de conhecer a proposta do espetáculo, o público pode acompanhar uma conversa exclusiva do Pittaplay com Marcielly Vanucci, Cesar Romeo Marins e a diretora Fernanda Brandt.
Na entrevista, os artistas falam sobre a criação de Evanqueer, as experiências que inspiraram a montagem e a relação entre fé, identidade e liberdade que atravessa a obra.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
