Guthierry Sotero constrói Júnior com entrega rara para um ator em ascensão. Desde suas primeiras aparições em Três Graças, fica evidente que há ali um intérprete disposto a ir além do texto. Ele sente, absorve e devolve em cena com uma intensidade que não se ensaia, se vive.
A sequência em que Júnior encontra o corpo do pai, vítima dos medicamentos falsos da Fundação Ferette, é um divisor de águas. Não há exagero, não há apelo fácil: há um corpo que desaba, um olhar que perde o eixo e uma respiração que denuncia o colapso emocional. Guthierry se entrega à emoção de forma quase brutal, e o resultado é uma cena que atravessa o espectador. O sofrimento não é representado, é exposto.
Essa capacidade de transbordo se repete em momentos posteriores, especialmente quando o personagem se vê envolvido em situações-limite. Na armação de Lucélia, quando a obra roubada aparece em seus pertences, o ator poderia cair no óbvio da revolta explosiva. Mas escolhe o caminho mais difícil: a dor contida, a indignação silenciosa, a humilhação que pulsa nos olhos. É na delicadeza que ele encontra potência.
Júnior é um personagem que vive no conflito, entre o certo e o errado, entre o amor e a culpa, e Guthierry entende isso. Sua composição não busca absolvição, mas humanidade. Ao decidir esconder a verdade de Maggye, ele não se torna apenas cúmplice de um crime, mas refém de suas próprias escolhas.
A química com Mell Muzzillo é outro ponto alto. O primeiro beijo do casal não é apenas romântico, é carregado de intenção, de descoberta, de verdade. Há troca, há escuta, há presença.
Agora, com a revelação do crime e a prisão iminente, Guthierry entra em nova camada dramática. E tudo indica que ele está pronto para aprofundar ainda mais esse personagem que já nasceu marcado por perdas, escolhas equivocadas e, sobretudo, por uma dor que nunca se cala.
Temos um ator que merece novas chances na TV, em papéis até com maior destaque e complexidade, pois ele dá conta.
Foto: Victor Pollak/Rede Globo




