Há histórias que começam com um acontecimento. Outras começam com um detalhe tão pequeno que quase passa despercebido, alguém cantando no banheiro da escola, por exemplo.
Mas há histórias que começam antes disso. Começam no silêncio. Começam no que não foi dito. Começam naquele lugar onde a gente aprende a engolir sentimentos porque ainda não sabe nomeá-los.
É desse território que nasce Em Todos os Lugares, romance de estreia de Thainá Toffo, um livro que não se apressa, não se impõe, não levanta a voz. Ele encosta. E fica.
A escrita da autora também nasceu assim: em silêncio. Como um refúgio íntimo, quase secreto, onde cabia tudo aquilo que não encontrava espaço no mundo: “A escrita começou como um lugar onde eu conseguia colocar para fora coisas que eu não sabia dizer em voz alta”, conta em entrevista à coluna Por Trás das Páginas.
Durante muito tempo, foi só isso: abrigo. Até que deixou de ser: “Acho que virou um projeto de vida no momento em que eu percebi que não conseguia mais me imaginar sem escrever, não como um escape, mas como uma forma de existir no mundo”.
E talvez seja essa a primeira camada que se sente ao ler Em Todos os Lugares: não é apenas uma história sendo contada, mas uma forma de existir sendo compartilhada.
O que vive entre as palavras

Foto: Arquivo pessoal
Thainá escreve sobre o que não é dito. Mas não se trata de ausência. Pelo contrário. Seus silêncios são cheios: “Eu me interesso muito por aquilo que fica no espaço entre as pessoas”, diz. “O que não é dito em uma conversa, o que é engolido, o que é sentido mas não encontra linguagem”.
São silêncios que carregam medo, afeto, desejo, vergonha, culpa, tudo ao mesmo tempo. E é nesse acúmulo que ela encontra o conflito. Não na explosão, mas naquilo que vai sendo guardado até moldar quem somos.
Em Em Todos os Lugares, os personagens vivem exatamente nesse limiar: entre o conforto de permanecer calado e o risco de finalmente se expressar. E é nesse ponto que o livro começa a respirar.
Dois garotos, um sentimento sem nome

No centro da história estão Caio e Pedro. Dois adolescentes, dois mundos em formação, dois corpos tentando entender o que sentem, sem repertório, sem linguagem, sem garantias.
Eles não sabem nomear o que existe entre eles. E talvez esse seja o ponto mais honesto da narrativa: “Dar nome às coisas pode ser uma forma de organização interna”, explica Thainá. “Mas, naquele contexto, seria quase impossível”.
Brasil, anos 80. Um tempo em que sentir já era difícil e dizer, mais ainda. Faltavam palavras, referências, espaço. Faltava, sobretudo, segurança. Então o que existe entre Caio e Pedro não ganha definição. Mas também não desaparece.
“Eles não sabem dizer o que é, mas também não conseguem simplesmente ignorar. E isso, por si só, já diz muito”.
Diz tudo, na verdade.
Os anos 80 não são cenário. São condição.
A escolha da década não é estética. É estrutural. Nos anos 80, o tempo era outro. Mais lento. Mais espaçado. Mais cheio de intervalos e é justamente nesses intervalos que a escrita de Thainá se apoia.
Ela cita o conceito japonês ma, muito presente nos filmes do Studio Ghibli: o espaço entre as coisas, o vazio que não é vazio, mas carregado de sentido.
É ali que a história acontece. Não no evento, mas no que ele provoca: “Um encontro simples pode ser só um encontro, ou pode ser o ponto de ruptura de uma vida inteira”.
E, em Em Todos os Lugares, tudo começa assim: pequeno. Quase banal. Até deixar de ser.
Quando a música fala por você
Se os personagens não conseguem dizer o que sentem, alguém precisa dizer por eles. E a música assume esse papel. Especialmente The Beatles.
No livro, as canções não são trilha, são linguagem: “Muitas vezes, eles não têm palavras suficientes para elaborar certas experiências. E a música entra justamente nesse espaço”.
Ela traduz o que ainda não tem forma. Organiza o caos interno. Cria pontes entre o que se sente e o que pode ser compreendido. O próprio título do livro nasce dessa lógica. Inspirado em Here, There and Everywhere, carrega ideia de amor que não se limita ao espaço, que se espalha, que atravessa, que permanece.
Mas também carrega outra coisa: deslocamento.
Pertencer nem sempre é chegar
Pedro vive mudando de cidade. Vive carregando a sensação de nunca ser de lugar nenhum. E isso ecoa. Ecoa na história. Ecoa na autora: “Por muito tempo, eu senti essa sensação de estar ‘fora de lugar’”, revela Thainá: “Não necessariamente de forma visível, mas como uma experiência interna”.
Ser autista atravessa sua forma de ver o mundo e, consequentemente, sua escrita. Há uma atenção quase microscópica aos detalhes. Aos padrões. Àquilo que passa despercebido. Aos gestos pequenos que dizem mais do que qualquer discurso.
“Nem sempre o que é dito é o mais importante”. E essa frase poderia ser uma síntese do livro inteiro. Em Em Todos os Lugares, pertencimento não é resposta. É tentativa.
É gente tentando entender onde cabe. E, às vezes, aceitando que não cabe e ainda assim ficando.
A violência que não precisa gritar para existir
A homofobia atravessa a narrativa. Mas não como espetáculo. Não como choque. Ela está ali como sombra. Como presença constante. Como um ruído que molda decisões, silêncios e medos.
“Eu não queria suavizar algo que é estrutural, mas também não queria transformar isso em algo gratuito”, explica a autora. O resultado é equilíbrio raro: delicadeza sem apagamento e dureza sem exploração.
A violência não precisa ser escancarada o tempo todo para ser sentida. Às vezes, ela está justamente no que não se diz.
Personagens que não pedem desculpa por serem humanos
Thainá não escreve personagens perfeitos. Escreve pessoas. Gente contraditória. Confusa. Em processo: “Eu escrevo pensando em identificação. Reconhecer emoções, contradições e movimentos internos que muitas vezes a gente não consegue nomear”.
E é isso que acontece ao longo do livro. O leitor não encontra heróis. Encontra espelhos.
Quando a história deixa de ser sua

Talvez o momento mais bonito da construção de Em Todos os Lugares não esteja dentro da história, mas na forma como ela foi escrita. O livro começou como fanfic. Cresceu. Mudou. Foi reescrito, cortado, revisado, reconstruído.
E, em algum ponto, deixou de obedecer: “Comecei a sentir que os personagens tinham ganhado autonomia. Era como se eles estivessem usando as minhas mãos para contar as próprias histórias”.
É no processo de escrita que a autora revela um dos pontos mais íntimos da obra: “Foi no final da obra que a escrita deixou de ser apenas técnica e passou a ser, de fato, entrega”, revela.
“Era como se os personagens já não estivessem mais seguindo o caminho que eu tinha planejado, mas sim usando as minhas mãos para contar as próprias histórias…”.
Ela chama isso de “coração de papel”. Uma lógica que não é racional, mas emocional. E foi justamente quando ela abriu mão do controle que o livro encontrou sua verdade.
Mais do que um desfecho, o final de Em Todos os Lugares nasce desse embate entre controle e sensibilidade e talvez seja justamente aí que a história encontra sua verdade mais potente.
Um livro que não quer gritar e por isso permanece
Em um tempo de excesso, Em Todos os Lugares escolhe a pausa. Em um tempo de respostas rápidas, escolhe a dúvida. Em um tempo de definições, escolhe o que ainda não tem nome.
Thainá Toffo estreia como quem não quer convencer, mas tocar. E toca. Porque entende que existem histórias que não precisam ser explicadas. Elas só precisam ser sentidas.
E, às vezes, isso é o suficiente para mudar tudo.





4 Comentários
Parabéns pra vc Thaina, uma autora independente que está lançando sua primeira obra. A escrita dela é delicada, mas ao mesmo tempo muito poderosa, e a história nos leva por reflexões sobre identidade e liberdade. É uma leitura sensível, cheia de camadas, que com certeza merece ser conhecida.
Filha, fiquei imensamente feliz com esse comentário sobre o seu primeiro livro. Tenho muito orgulho de você, da sua sensibilidade e do seu talento. Obrigado por existir e por ser minha filha. Te amo muito.
Eu acompanhei de perto o processo de escrita, o carinho que foi se construindo aos poucos junto com o desenvolvimento dos personagens, os capítulos que iam nascendo com muito muito amor mesmo em cada frase… é mágico poder compartilhar a vida com uma pessoa tão incrível como Thainá.
ETOL não é só a história da vida da minha esposa, é a da minha também.
Obrigado por essa entrevista tão sensível e gostosa de ler, galera da Pitta Play, vocês são muito incríveis e já ganharam um espaço muito especial nessa trajetória de Em Todos os Lugares.
Parabéns pela forma como foi elaborado o livro e sucesso com o mesmo. Não sou chegado muito a leitura mas acho que esse vou ler. Sucesso Thainá.