Em Três Graças, há personagens que chegam prontos e há aqueles que se constroem diante dos olhos do público, camada por camada, gesto por gesto, silêncio por silêncio. Vandilson pertence a esse segundo grupo. E é justamente nesse território mais instável, mais humano, que Vinícius Teixeira encontra força.
Em entrevista exclusiva à coluna Cena Aberta, o ator revela que a primeira decisão sobre o personagem foi, antes de tudo, uma recusa. Recusa ao rótulo fácil, ao estereótipo previsível: “Pensar nas contradições do personagem é muito importante para mim como ator. Isso me faz encará-lo de uma forma mais humana, já que nós também somos complexos nos nossos desejos, nas nossas ações e nos nossos pensamentos”.
Esse olhar muda completamente o eixo de construção. Vandilson deixa de ser apenas um “tipo” e passa a ser alguém em disputa constante consigo mesmo: “Sinto que essa busca por entender o personagem de forma profunda, não só pensando nas suas motivações racionais, mas também naquelas íntimas e muitas vezes ocultas até para ele mesmo, pode fazer com que o público entenda de forma mais sensível os comportamentos desse personagem e que isso gere identificação com as questões dele”.
A partir daí, o personagem ganha corpo e contexto. Vinícius aponta que Vandilson é fruto de um ambiente que molda suas relações e suas escolhas: “É um jovem que aprendeu desde cedo a viver em contexto violento. Isso está naturalizado na forma como ele vê o afeto e as relações na sua vida”.
Mais do que isso, há uma ausência que atravessa o personagem: “Percebo nele um jovem sem muitas ferramentas emocionais, sem construção familiar saudável. Ele reproduz o que viveu”.
É nesse ponto que a relação com Bagdá, personagem de Xamã, se torna central e complexa. O ator descreve essa dinâmica como um emaranhado de sentimentos: “Tem uma relação de parceria e gratidão por alguém que lhe dá condições de comer e um local para dormir todos os dias. Tem relação de respeito que, muitas vezes, descamba para o medo e a opressão. Tem também uma relação de admiração que acaba se transformando em ambição de se tornar igual a ele”.
Essa mistura de afetos e tensões constrói um personagem que escapa de qualquer leitura simplista: “Não consigo enxergá-lo de forma maniqueísta, pensando em bem ou mal. Só consigo enxergá-lo de forma humana. E batalho muito para que essas complexidades sejam vistas pelo telespectador”.
Vandilson além do estereótipo: um personagem em disputa

Mas há outro elemento que ajuda a sustentar essa humanidade em cena: o humor. Mesmo dentro de contexto duro, Vandilson encontra brechas de leveza e isso também é uma escolha consciente: “Sinto que o humor foi parte importante na construção desse carisma do Vandilson. Entendi que, fazendo um vilão, o humor pode ser ferramenta importante para estabelecer conexão com o público”.
Essa construção não acontece de forma isolada. Ela nasce do encontro. Vinícius destaca a parceria com o elenco e com a direção como parte fundamental do processo: “Desde a preparação de elenco, a minha relação com Xamã e Lucas [Righi, que vive Alemão] foi muito fluida! Nós somos muito unidos, nos divertimos muito no set e nos bastidores, e temos uma relação de muita parceria”.
E essa liberdade criativa se reflete diretamente no resultado final: “Me sinto muito confortável de propor bordões, cacos, frases, e todos os diretores são muito receptivos com as propostas. Acho que isso, inclusive, é um ponto forte da novela. Nós estamos muito felizes e realizados em cena, porque conseguimos colocar o nosso ponto de vista sobre os personagens no que estamos fazendo”.
Quando o personagem ultrapassa a novela e vira fenômeno

Foto: Pascal Haas.
O resultado é um personagem vivo, que cresce para além do texto. Vandilson saiu da tela e ganhou as redes, ganhou o público, ganhou novas camadas de leitura: “Fiquei extremamente feliz com o carinho que as pessoas foram desenvolvendo pelo personagem ao longo da novela”.
Nas redes sociais, o personagem ganhou o apelido de Bandivo, unindo os fatos de ser bandido e bonito, que foi traduzido pelos fãs para divo. Para o ator, essa troca é parte essencial do trabalho: “Acredito de forma muito intensa que parte importante do trabalho do ator é estabelecer diálogos com o público, seja no teatro, na TV ou no cinema. Esse diálogo é muito frutífero”.
Corpo, ritmo e silêncio: a engenharia invisível de Vandilson
Se o personagem se comunica tão diretamente com quem assiste, isso também passa por construção estética e sensorial que não nasce do acaso, mas de um mergulho profundo e contínuo. Há ritmo, há musicalidade, há intenção em cada pausa e tudo isso vem de processo que o próprio ator define como essencial: “Este mergulho no universo do personagem é muito importante para mim em todo o trabalho que faço. Acredito muito que, ao invés de negar quem sou e me distanciar de mim para me aproximar de um personagem, eu preciso fundir o meu universo com o dele. As minhas especificidades são o que tornam o meu ponto de vista único”.
Nesse movimento, Vinícius não apenas observa o personagem, ele se atravessa por ele. As referências deixam de ser externas e passam a habitar o corpo, a voz e o pensamento: “Mergulhar nas referências do personagem e trazê-las pra perto do meu dia a dia é, justamente, uma busca por entender como esses estímulos afetam o meu corpo, a minha voz, o meu pensamento. Deixar com que esse universo ressoe e se some com as minhas experiências e a minha forma de ver o mundo. É como se ele me apresentasse outra versão de mim mesmo”.
É daí que nasce a musicalidade de Vandilson, não como recurso estético, mas como consequência orgânica desse processo: “O rap acaba ditando muito o ritmo das falas, os silêncios, as gírias, as referências”, explica o ator, ao citar o mergulho em nomes como Racionais, Sabotage e a cena do rap paulista como fundamentais para a composição . Ao longo dos meses de novela, esse repertório se transforma em memória viva, acessível, pulsante: músicas, filmes e livros deixam de ser apenas estudo e passam a funcionar como combustível emocional, capazes de “manter a engrenagem girando e se renovando” em cena.
O resultado é um personagem que não apenas fala, ele respira em tempo próprio. Um corpo que carrega referências, olhar que guarda história, e silêncio que, muitas vezes, diz mais do que qualquer palavra.
Entre conter e explodir: a tensão que sustenta o personagem

Há também um trabalho de escuta do território: “Outro ponto importante foi ter passado um mês em São Paulo, e ter filmado por um bom tempo na Brasilândia. Pude trocar muito com os moradores locais, entender mais de perto a forma de falar, o sotaque e lidar com essa realidade de forma mais concreta e real. Isso fez grande diferença”.
Tudo isso se traduz no corpo. Na forma de andar, de olhar, de reagir. Um trabalho que, segundo ele, vem de base construída no teatro: “Essa pesquisa que comecei no teatro tem me ajudado muito nos processos de composição dos personagens que tenho feito no audiovisual”.
Em cena, Vandilson é tensão constante. Um personagem que oscila entre conter e explodir e é justamente nesse movimento que ele se revela: “Conter e expandir são duas palavras que realmente estão nos meus pensamentos nos estudos das cenas. Acho que justamente a conjugação desses polos opostos torna o personagem interessante”.
E então vem a definição que talvez melhor traduza o que o público vê: “Ele é quase uma bomba que pode explodir a qualquer momento, mas que está comprimida, escondida”.
No fundo, Vandilson é feito de dualidades. É produto do sistema, mas também agente das próprias escolhas: “Sinto que as atitudes dele são muito fruto das violências que ele experienciou na vida, mas que ele também faz escolhas conscientes”.
Há impulsividade, mas também há algo que resiste: “Tem certa imaturidade e falta de ferramentas, mas tem também uma doçura escondida ali”.
Destino aberto: redenção ou queda?
Com a novela caminhando para a reta final, o destino do personagem segue aberto e o ator não tenta fechá-lo. Pelo contrário. Ele mantém o suspense como parte da experiência: “Acredito, sim, que existe espaço para que ele reveja sua trajetória”.
E deixa no ar uma possibilidade que resume bem o espírito de Vandilson: “Não sei qual vai ser o destino do personagem, mas não excluiria nenhuma possibilidade. Acho que pode cair pro lado totalmente vilanesco, mas ainda acho que ele pode abrir os olhos e ter redenção. Talvez unir as duas coisas seja interessante. Um entendimento mais afetuoso da relação com a Chacrinha, mas vindo tarde demais. Veremos…”.
Do palco à pele: quando o teatro atravessa o ator

Se em Três Graças Vinícius constrói Vandilson a partir de camadas e tensões, é no teatro que essas camadas parecem se expor por completo, sem corte, sem proteção, sem a possibilidade de esconder o processo. E é justamente esse lugar de entrega contínua que ele busca retomar com o solo Selva: Solidão.
“Estou querendo voltar a fazer o meu solo. Eu vinha fazendo algumas temporadas e precisei parar por conta da novela. Tenho muita vontade de seguir com a peça e viajar com ela”, conta, como quem fala de algo que ainda pulsa no corpo.
No palco, o mecanismo é outro. Mais direto, mais exposto. E isso não é escondido, é assumido como parte da linguagem: “Tem uma coisa muito interessante dessa peça. O mecanismo teatral está exposto o tempo todo! A plateia assiste, a olho nu, o meu corpo, minha voz e minha energia sendo direcionadas para a maneira como cada personagem se apresenta”.
Sozinho em cena, Vinícius interpreta três personagens distintos, mas conectados por uma mesma sensação. E a conexão não vem de um artifício externo, vem dele mesmo: “Eu não escondo quem sou. Eu sou o meio pelo qual os personagens se materializam. O meu corpo acaba sendo a conexão deles todos”.
Há diferenças claras entre eles, na energia, na fala, no movimento, mas há também um fio invisível que os atravessa: “Eles têm energias, formas de falar e de se mover diferentes, mas todos estão ligados por quem eu sou como pessoa e ator”. E há ainda um ponto em comum que aprofunda essa ligação: “o fato de os três serem homens gays, por si só, acaba fazendo com que eles tenham experiências e sentimentos que os conectam. A solidão é um desses elementos”.
Mais do que exercício de atuação, Selva: Solidão nasce de uma urgência. De escuta interna que se intensificou em momento específico: “Na pandemia eu estava morando sozinho e acho que, naquele momento, a escuta para as minhas questões ficou mais refinada. Era inevitável buscar essa conexão mais intensa comigo mesmo”.
A partir daí, o projeto deixou de ser apenas pesquisa e se tornou necessidade artística. Em parceria com o diretor Jefferson Almeida, o texto foi sendo construído em encontros virtuais, atravessado pela solidão daquele período: “Nós aproveitamos o tempo livre e a solidão imposta para trabalhar nesse texto”.
E a solidão, ali, não é uma só. Ela se desdobra: “As três coisas se misturam”, explica o ator, ao falar sobre as dimensões íntima, social e política do espetáculo: “As nossas dores e os nossos traumas individuais, quando não reconhecidos e cuidados, acabam afetando a saúde da comunidade como um todo”.
Há, no discurso, preocupação que vai além da cena. Um olhar coletivo, urgente: “Precisamos urgentemente rever os nossos comportamentos dentro da comunidade para podermos transformá-los e criar uma comunidade mais saudável”.
No palco, essa reflexão se transforma em experiência física. E exige preparo: “É uma maratona. Sou muito cuidadoso com meu corpo para além de qualquer pensamento estético: penso nele como minha ferramenta de trabalho”.
Há disciplina, repetição, rigor: “Tenho o hábito de passar o Selva: Solidão uma vez por semana em casa sozinho. Mesmo quando não estou em cartaz. É uma peça difícil e que exige muita precisão. Continuar passando ela é uma forma de mantê-la viva no meu corpo”.
E talvez seja justamente aí que o teatro se diferencia, na permanência. No corpo que guarda. Na memória que não se apaga. Ao final, o que Vinícius espera não é uma resposta única do público, mas um atravessamento: “Incômodo, identificação e transformação. A peça coloca os personagens em situações limites, mas que são muito reais, que eu vejo acontecendo na vida de muitos e muitas amigas que fazem parte da comunidade. Acontece que, muitas vezes, começamos a reproduzir vícios comportamentais de uma forma tão regular, que eles ficam naturalizados”.
Segundo o ator, o espetáculo tem intenção de mostrar esses comportamentos apontando o quanto eles podem ser nocivos, tanto para para os indivíduos, quanto para a comunidade como um todo.
Porque, assim como Vandilson, Selva: Solidão também não cabe em um único lugar. Ele provoca, reflete e, acima de tudo, permanece.




