Após despedida intensa em “Três Graças”, Marcello Escorel relembra construção de Vicente

Marcello Escorel em cena como Vicente, personagem que marcou a reta final de Três Graças com frieza e presença silenciosa. Foto: Reprodução/Globo

Em Três Graças, Vicente já saiu de cena, mas marcou a novela, seja por ter uma história diretamente ligada ao protagonista e também pela grandiosa cena trágica de seu destino. Braço direito de Ferette, homem encarregado da parte mais violenta dos planos e peça-chave de um dos grandes segredos da trama, o personagem encontrou em Marcello Escorel um intérprete atento às rachaduras internas do universo da novela das nove que chega ao fim na próxima sexta-feira (15 de maio).

Na entrevista concedida à coluna Cena Aberta, do Pittaplay, o ator falou sobre a construção do personagem, os bastidores da novela e a maneira como enxergou Vicente para além do estereótipo do “capanga frio”.

“O primeiro passo para não engessar a personagem foi demonstrar o prazer e o orgulho que sempre teve em exercer seu ofício de matador”, conta. Marcello explica que buscou destacar justamente o conforto que Vicente sentia ao retornar à sua natureza mais brutal: “Busquei ‘sublinhar’ o texto sempre que o mesmo levava o Vicente para o lugar de conforto e satisfação em ser reconvocado para sua real atividade: assassino profissional”.

A dimensão do personagem muda completamente quando a novela revela que Vicente está ligado ao assassinato do pai de Paulinho, vivido por Rômulo Estrela. E, curiosamente, a surpresa também atingiu o ator.

“Não tinha a menor suspeita de que os autores enveredaram o Vicente nessa trama”, revela. Até então, sua composição caminhava para outro eixo emocional. “Procurei imprimir na personagem uma mistura de inveja, admiração e ódio pelo Ferette. Acrescentei grande insatisfação pela obrigação de ter de gerenciar a Casa de Farinha e esse foi o alicerce que me permitiu construir integralmente o Vicente a partir das novas diretrizes autorais”.

Um homem moldado pelas contradições

Vicente saiu de cena, mas deixou uma das despedidas mais impactantes de Três Graças. Marcello Escorel transformou o personagem em peça-chave da trama.
Foto: Reprodução/Globo
Vicente saiu de cena, mas deixou uma das despedidas mais impactantes de Três Graças. Marcello Escorel transformou o personagem em peça-chave da trama. Foto: Reprodução/Globo

Mesmo com poucas cenas ao lado de Murilo Benício, Marcello entende que a relação entre Vicente e Ferette ultrapassa a lógica do patrão e empregado: “A relação de Vicente com seu patrão é um poço de contradições”, define. “Foi construída muito mais a partir de um Ferette idealizado do que com um Ferette real, de carne e osso”.

Essa percepção ajuda a explicar a frieza do personagem. Vicente age como alguém que naturalizou a violência e Marcello evita transformar isso em caricatura. Aos 65 anos, o ator carrega décadas observando diferentes construções de assassinos profissionais na dramaturgia e no cinema. Mas prefere manter distância da simples reprodução de referências que “são bem-vindas para dar parâmetros, mas devem ser logo esquecidas no intuito de buscar imprimir uma marca pessoal”.

A cena da morte e o encontro entre atuação e câmera

O desfecho de Vicente, exibido em sequência conduzida com forte apuro visual, tornou-se um dos momentos mais impactantes da reta final de Três Graças. Marcello relembra os bastidores da gravação como experiência coletiva.

“Foi uma cena muito gratificante de fazer pelo cuidado que vi de muitos profissionais envolvidos”, afirma. “Opinaram e sugeriram diretamente na linha de atuação a direção, o câmera e a preparadora de elenco, me dando dicas fundamentais para o excelente resultado na tela”.

Com mais de quatro décadas de carreira, Marcello fala sobre atuação com a serenidade de quem entende o ofício como construção contínua: “Todo papel é oportunidade única de aperfeiçoar o ofício. “Com Vicente não foi diferente”.

Esse processo de reposicionamento, segundo ele, acompanha toda a sua trajetória artística: “Tenho transitado por quase todo o espectro de formas de atuar. Desde a comédia mais popular passando pelo drama e indo desembocar no extremo oposto da tragédia”.

Ao falar sobre o que busca em novos personagens, o ator desloca a discussão do sucesso para a presença: “O que eleva o nível da carreira é cada vez mais aperfeiçoar a maneira de incorporar o estado de ‘presença total no agora’ toda vez que a câmera te ilumina, toda vez que sobe o pano”.

“Sou um operário da arte”

Se era o momento de Vicente aparecer em cena, ouvir o ‘gravando’ era mais que falar um texto decorado. Marcello merece mais papéis como este e vai saber aproveitar, de novo, cada segundo. Foto: TV Globo/ Estevam Avellar
Se era o momento de Vicente aparecer em cena, ouvir o ‘gravando’ era mais que falar um texto decorado. Marcello merece mais papéis como este e vai saber aproveitar, de novo, cada segundo. Foto: TV Globo/ Estevam Avellar

E é justamente quando menciona o palco que Marcello faz questão de lembrar suas origens. Antes da televisão e do audiovisual, existe o teatro: “Não podemos esquecer do teatro, meu berço e escola primeira”, afirma. Atuando profissionalmente desde 1982, ele relembra trajetória marcada por dezenas de espetáculos e indicações a prêmios: “Sempre gosto de afirmar que sou um operário da arte”, diz. “Assim como um pedreiro que constrói o que for contratado para erguer”.

A metáfora continua: “Nesse tempo todo aprendi muito, ergui desde palafitas até ‘estranhas catedrais’ e vou morrer aprendendo sempre novas formas de construir com a graça de Deus”.Sobre o futuro, Marcello mantém o humor e a curiosidade criativa: “Projeto é o que não falta”, brinca. O caminho mais provável, neste momento, é a montagem da comédia De Peito Aberto, de Marcílio de Moraes. Mas existe também o desejo de experimentar novos territórios: “Outra vontade que tenho é me intrometer nas mídias digitais. Para isso ando cozinhando umas ideias na cachola”, finaliza.

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