Se a ideia for medir O Diabo Veste Prada 2 pela régua do original, a crítica já nasce limitada. O novo filme não quer e não precisa repetir 2006. Ele opera em outra camada: a da consequência.
O primeiro O Diabo Veste Prada era sobre transformação. Aqui, o roteiro entende que toda escolha cobra um preço. Andy Sachs, novamente vivida por Anne Hathaway, retorna não como nostalgia, mas como resultado direto da decisão que tomou ao sair da Runway. A promessa de um jornalismo íntegro, idealista, se choca com um mercado em crise e o filme acerta ao transformar isso no seu eixo central.
Há inteligência nessa escolha. A crise não é só de Andy. É sistêmica. Pequenos veículos quebram, grandes impérios vacilam. E é nesse cenário que o filme reposiciona Miranda Priestly.

Meryl Streep mantém a personagem intacta na superfície, o olhar que corta, o silêncio que humilha, a presença que domina qualquer ambiente. Mas a direção trabalha algo mais sofisticado: as rachaduras. Miranda segue sendo a “rainha do gelo”, mas agora pressionada por forças maiores: homens engravatados, herdeiros de olho no mundo novo que se forma, decisões corporativas que expõem o limite do seu poder. Tudo isso era, implicitamente, apresentando no primeiro filme, mas agora, com a crise de protagonista, isso fica ainda mais forte.
E isso muda a leitura da personagem. Pela primeira vez, o filme escancara uma camada que sempre existiu, mas nunca foi frontal: até Miranda responde a alguém. E isso, num universo historicamente comandado por homens, não é detalhe, é discurso.
O jogo entre Andy e Miranda, então, deixa de ser sobre hierarquia e passa a ser sobre poder real. Andy conhece as fragilidades de Miranda. O público também. E a direção usa isso para inverter a perspectiva: agora, assistimos Miranda através do olhar de alguém que já a enfrentou e sobreviveu. Essa mudança é o maior acerto do filme.
Emily Blunt retorna entendendo exatamente quem Emily Charlton se tornou. Mais do que repetição de maneirismos, há evolução. Sua posição na Dior, o casamento estratégico, a obsessão ainda maior por status, tudo constrói uma personagem que não saiu daquele mundo, apenas aprendeu a jogar melhor. Seu arco flerta com o cinismo, mas nunca perde inteligência.

Já Nigel, de Stanley Tucci, ganha o momento que o primeiro filme negou. Há uma cena-chave, construída com delicadeza, em que o reconhecimento finalmente vem. Não como redenção melodramática, mas como ajuste silencioso de dívida antiga. E é significativo que Andy esteja por trás desse movimento. O filme entende que ela não é mais peça diante das atitudes e chacoalhões que Miranda precisa, mas sim atua como agente.
Tecnicamente, a direção evita a armadilha da vitrine. A moda está lá, impecável, mas não ocupa o centro dramático. Os enquadramentos mais fechados, os silêncios e a proximidade da câmera criam intimidade. O espectador não só observa, mas participa dessa construção. Existe uma tentativa clara de fazer o público sentir o que Andy sente ao revisitar aquele universo.
E funciona. Mas o filme também sabe seus limites. Miranda não muda e não deveria. A tentativa de humanização não apaga sua essência. O ego segue intacto, as decisões continuam duras, e qualquer fissura aparece apenas nas entrelinhas. Alterar isso seria trair a personagem.
No fim, o longa confirma algo que já estava implícito desde o primeiro filme: Miranda Priestly não é um arco de redenção. É um sistema. E Andy, agora, entende exatamente como esse sistema funciona e até onde vale enfrentá-lo.
O Diabo Veste Prada 2 não supera o original. Mas acerta em algo mais difícil: respeita sua história, amadurece seus personagens e constrói um conflito que dialoga com o presente sem depender de nostalgia vazia. Não é uma continuação que existe só pelo fato das continuações estarem em alta. Por isso funciona.
O Diabo Veste Prada 2 não é sobre voltar ao passado. É sobre encarar o peso de ter escolhido sair dele.
