Há detalhe curioso quando se observa o trabalho de Kelzy Ecard na televisão. Com o fim de Três Graças nesta semana, a atriz sai de cena atestando seu talento após brilhar com duas personagens no ar simultaneamente e incapazes de coexistir dentro da mesma atriz. Em Três Graças, Helga endurece o ambiente antes mesmo de falar. Já em Dona Beja, produção da HBO Max, Dona Augusta ocupa cada cena como quem transforma presença em confronto. Não existe traço aparente que conecte uma à outra e é aí que mora o tamanho do trabalho de Kelzy neste momento da carreira.
Na televisão aberta, na novela das nove escrita por Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgilio Silva, Helga existe quase inteira nos silêncios. Poucas palavras, olhar endurecido, movimentos econômicos e uma espécie de frieza que nunca precisa ser explicada porque já ocupa o ambiente antes mesmo da fala. Na HBO Max, Dona Augusta caminha na direção oposta: expansiva, moralista, inflamada pela própria presença.
Conversando com o Pittaplay para a coluna Cena Aberta, Kelzy fala sobre presença, corpo, silêncio, teatro e o que existe de invisível dentro da atuação. E talvez seja justamente nesse invisível que mora a força do momento atual da atriz.
“Cada personagem carrega história única. Cada uma exige da gente um tipo de preparo, estado, pesquisa, vulnerabilidade… E as ações e relações em cena colocam toda essa pesquisa, todo esse entendimento, em movimento. E o estado de presença ocupa a cena com a verdade de cada personagem”, afirma.
O silêncio também constrói personagem

A percepção da transformação corporal entre Helga e Augusta virou um dos pontos centrais da conversa. Em cena, nada parece se repetir. O tempo de reação muda, a postura muda, o modo de ocupar o espaço muda. Mas Kelzy desmonta a ideia de que o corpo seja sempre o ponto de partida.
“Na verdade, nem sempre, ou melhor, quase nunca. Eu sempre parto de um entendimento dos objetivos daquela personagem, possível entendimento que aquela persona tem ou teria do mundo, das suas relações. Acho que procuro entender a essência, entre aspas, a alma da personagem.”
Ela continua dizendo que “às vezes, aspectos físicos vêm junto com as descobertas, outras vezes eu faço um estudo em separado dos gestos, do comportamento físico e a partir daí descubro outras coisas. Cada trabalho é único. Cada personagem exige da gente abordagem diferente, eu acredito muito nisso”.
Duas vilãs, duas naturezas opostas

Esse entendimento talvez explique por que Helga e Augusta jamais parecem apenas “duas vilãs”. Kelzy rejeita a simplificação. Para ela, as personagens partem de lugares profundamente distintos.
“Elas habitam mundos muito diferentes. Apesar das duas poderem ser consideradas vilãs, Augusta tem afeto, tem empatia, tem convicções profundamente humanas. Helga é fria, calculista e nada empática”.
A atriz acrescenta que apesar das duas, por vezes, serem igualmente cruéis, suas motivações partem de lugares muito diferentes.
O teatro como origem de tudo

Antes da televisão reconhecer sua força dramática, o teatro já conhecia. E Kelzy fala dessa formação como quem fala da própria estrutura que sustenta tudo: “A minha experiência com o teatro fundamenta tudo. No teatro a gente desenvolve repertório, relações, disciplina, compreensão de mundos… Quase tudo que sei, que sou, descobri através do teatro”.
Existe maturidade perceptível na forma como a atriz fala sobre ofício. Sem romantizar a profissão, mas também sem retirar dela a dimensão subjetiva. Quando questionada sobre ter chegado ao grande público depois de uma longa trajetória já consolidada nos palcos, ela reconhece o impacto desse percurso.
“Não tenho dúvida que eu seria uma atriz muito diferente se minha trajetória fosse outra. Esse ofício é construído de muitas formas. Cada trajetória de vida, cada espécie de formação, cada tipo de experiência reflete o artista que somos”.
Ao longo dos anos, Kelzy transitou entre personagens populares, figuras dramáticas, mulheres cômicas e papéis carregados de tensão simbólica. Ainda assim, fala da carreira como quem sente que ainda há territórios inteiros por atravessar.
“Tenho vontade de fazer muita coisa ainda, todas as vertentes. Fiz muito pouco os textos clássicos no teatro, por exemplo, poucos espetáculos de comédia… Profissionalmente, preciso fazer Tchecov, Shakespeare, Nelson…”
E conclui: “No audiovisual, ainda há um vasto território não visitado. Tenho muitos desejos e planos e sonhos ainda pra colocar no mundo”.
Um dos pontos mais bonitos da conversa acontece quando Kelzy fala sobre silêncio. Porque poucas atrizes hoje conseguem sustentar tanto uma cena sem recorrer ao excesso. Em Helga, especialmente, isso se transforma quase em linguagem própria: “Acho que é resultado de toda uma vida de investigação, de trabalho, de estudo. Parte do trabalho é uma construção racional, técnica; outra parte é a intuição, o invisível, o inesperado, os atravessamentos”.
Então ela cita Shakespeare: “Estar presente é tudo. Quando estamos em cena, toda nossa história, a nossa experiência está com a gente”.
Na última semana de Três Graças, Kelzy evita antecipar grandes detalhes sobre Helga, mas deixa escapar que ainda existem movimentos importantes reservados para a personagem: “Os capítulos finais ainda reservam algumas surpresas. Espero que o público curta tanto quanto eu”.
E olhando para frente, mesmo vivendo um dos momentos mais fortes da própria trajetória na televisão, ela ainda se percebe em movimento. Como alguém que continua buscando novas possibilidades: “Já tenho alguns trabalhos em andamento. No fim do mês volto em temporada com a peça Caminho de Casa, em junho começo a rodar um filme em São Paulo e outros projetos que estão rascunhados já”.
Depois, quase sorrindo através das palavras, vem uma frase que talvez explique muito sobre a artista que ela é: “Às vezes me sinto uma iniciante. Parece que ainda tenho muita coisa a explorar. Espero ter saúde e energia pra realizar tudo que desejo”.
