Existe um momento da conversa com Lipe Binder em que ele fala sobre direção como quem desmonta um mecanismo delicado diante do outro. Não existe pose. Não existe discurso de efeito. Existe alguém profundamente apaixonado pela gramática da imagem tentando explicar por que uma câmera em movimento pode carregar mais emoção do que um diálogo inteiro.
Talvez por isso sua filmografia atravesse gêneros tão distintos sem perder identidade. O mesmo diretor que conduziu a explosão popular de Império também mergulhou no erotismo melancólico de Verdades Secretas, no realismo brutal de Arcanjo Renegado, no suspense de A Divisão e na reconstrução histórica de Betinho – No Fio da Navalha.
Durante entrevista à coluna Cena Aberta, do Pittaplay, Binder falou sobre formação artística, direção de atores, bastidores de novelas, construção de linguagem visual e o medo de repetir a si mesmo.
“Minha base é teatro e vai ser para sempre”, resume logo no início da conversa.
O ator antes da câmera
Antes da televisão, antes dos grandes sets e das novelas das nove, existiu Nova York. Foi lá que Binder estudou teatro e cinema, absorvendo referências que ainda hoje aparecem na maneira como conduz atores: “Eu sempre fui muito ligado ao trabalho com ator. Foi onde conheci o método, interpretação… isso virou minha base. O trato com atores”, conta.
A influência teatral permanece até hoje. Mesmo quando fala sobre lentes, enquadramentos e câmera dentro de cenário, Binder retorna ao ator como centro da cena: “Sou muito guiado por isso. A câmera nunca pode ser maior do que a história”.
Esse pensamento atravessa toda a entrevista. Em vários momentos, ele critica uma direção que tenta chamar mais atenção do que a própria narrativa: “Uma coisa que me incomoda muito tecnicamente é ver a direção querendo aparecer mais do que a história. Nosso teto é a história”.
Verdades Secretas e a câmera que respirava junto dos personagens

Ao revisitar Verdades Secretas, Binder fala como alguém que ainda guarda intimidade emocional com a novela de Walcyr Carrasco, exibida na Globo em 2015. A obra aparece diversas vezes durante a conversa, seja pela ousadia estética, seja pela liberdade narrativa que o horário das 23h permitia.
“Verdades Secretas tinha mais a minha cara como diretor. A gente tinha intenção muito forte de dar cara de série para a novela”, afirma.
Ele lembra da parceria com Mauro Mendonça Filho e do desejo de construir uma narrativa mais sensorial, próxima do cinema: “A gente conseguia ser mais ousado na linguagem”.
Essa ousadia aparece também na maneira como ele pensa o espaço físico das cenas. Binder rejeita a ideia clássica da “boca de cena” da novela tradicional: “Eu amo colocar a câmera dentro do cenário. Às vezes fazer com duas câmeras e não quatro. Tirar essa cara de estúdio”.
Ao falar sobre a famosa sequência em que Carolina, personagem de Drica Moraes, sobe as escadas e finalmente flagra Angel e Alex juntos, Binder revela que havia preocupação constante em manter a tensão sem desgastar o público: “Era um grande desafio porque aquilo durou muitos capítulos. A gente discutia muito como cozinhar isso bem”.
Ele também relembra uma das cenas que mais gosta na novela: o momento em que Angel e Alex transam na cozinha enquanto Carolina dorme no quarto ao lado: “Eu amo aquela cena. Os dois estão na cozinha, Angel faz um sanduíche para ele e a Carolina acorda. A tensão é constante. Foi uma cena muito memorável para mim”.
Império, Chay Suede e a construção da primeira fase

Quando o assunto chega em Império, novela de Aguinaldo Silva exibida pela Globo em 2014 e vencedora do Emmy Internacional, Binder fala sobre preparação de elenco quase como um trabalho de composição emocional compartilhada.
A primeira fase da novela, conduzida por Chay Suede como Comendador que depois é assumido pelo Alexandre Nero, exigia uma continuidade delicada entre juventude e maturidade do personagem: “A gente fez preparação muito grande. Eles liam juntos, estudavam juntos”.
Binder relembra ainda a substituição inesperada de Drica Moraes por Marjorie Estiano após problemas de saúde da atriz: “Marjorie foi absolutamente guerreira. Ela entrou gravando 30 páginas por dia. Foi uma situação muito delicada”.
Ação, caos e realismo

Se em Verdades Secretas o desejo parecia conduzir o movimento da câmera, em Arcanjo Renegado e A Divisão, séries do Globoplay dirigidas por Binder, a imagem nasce do caos. Binder define a ação como talvez “a coisa mais elaborada tecnicamente” dentro da direção audiovisual.
Ao falar sobre sequências com explosões, drones, tiroteios e múltiplas câmeras simultâneas, ele descreve os sets quase como operações coreografadas no limite do controle.
“Era uma batalha com 120 pessoas dando tiro, caveirão, explosões, granada… aquilo é quase uma filarmônica. É bem complexo”, relembra.
Mas o que realmente muda o tom da conversa não é a técnica. É quando Binder fala sobre o mergulho humano que essas produções exigiram dele. Ao revisitar os bastidores das séries produzidas ao lado do AfroReggae, o diretor deixa claro que a experiência ultrapassou o audiovisual.
“Foi uma experiência muito legal. O mergulho que tive nas comunidades, de trabalhar com o AfroReggae… o mundo que o José Júnior me apresentou foi fundamental para fazer essas séries. Todo o staff da polícia do Rio estava com a gente do início ao fim, explicando tudo. A realidade é tão diferente. Existe um policial, existe uma forma que a gente vê a comunidade, essas questões de tráfico, de armas… e a realidade é tão diferente. É muito importante que a gente saiba o que é essa realidade, porque boa parte da população vive numa bolha. E ali está o Brasil de verdade, do nosso povo”.
Betinho e o trabalho que mais o representa

Entre todos os projetos recentes, Binder admite que Betinho – No Fio da Navalha talvez seja o trabalho que mais o represente artisticamente: “Foi o trabalho que mais tem a minha cara”.
Ele fala emocionado sobre Júlio Andrade, protagonista da série e a admiração ultrapassa qualquer análise técnica. O diretor descreve o trabalho do ator como um mergulho físico e emocional raro de se testemunhar em um set.
“O Julinho mergulha de cabeça. Ele é muito dedicado. Perdeu sete quilos, mudou a postura do corpo, ficou com a coluna torta para compor o Betinho. Mesmo depois de dois meses, ainda andava daquela forma porque realmente tinha encarnado o personagem. A maneira como ele andava, mexia o braço e até pegava um pedaço de pão era igualzinha ao Betinho”, relembra Binder.
O diretor também destaca que a transformação do ator ia além da caracterização física. Para ele, existia uma entrega emocional constante durante toda a produção, algo que contaminava o ambiente das gravações: “Quando você tem alguém assim, facilita muito nosso trabalho”, afirma.
Em determinado momento, Binder confessa que saiu inchado de tanto chorar durante as gravações das cenas finais no hospital: “Já fiz muita cena na vida. Mas ali eu fiquei refém daquela performance”.
A série acabou selecionada para o Festival de Berlim e para o Canneseries. Para Binder, o reconhecimento internacional passa pela compreensão da gramática audiovisual: “Quando você acerta a mão da linguagem, aquilo viaja”.
“O Gênio do Crime” e o desafio de atualizar um clássico

Entre novelas, séries policiais e dramas biográficos, Lipe Binder também falou sobre a chegada de O Gênio do Crime aos cinemas, na quinta-feira (14 de maio). O longa, inspirado na obra clássica da literatura infantojuvenil brasileira, representa para o diretor exercício delicado de atualização geracional sem perder a essência afetiva do material original.
Binder explica que o maior desafio foi transportar uma história escrita em outro contexto social para o olhar das crianças e adolescentes de hoje, preservando o DNA da aventura e do mistério sem ignorar as transformações culturais das últimas décadas.
“A história original se passa em 1969. O mundo mudou muito e a criançada de hoje é completamente diferente da daquela época. Existem questões de comportamento, linguagem e consciência social que precisavam ser atualizadas”, comenta.
O diretor cita como exemplo o próprio protagonista da trama, conhecido pelo apelido de “Gordo” no livro original. Segundo Binder, foi necessário encontrar equilíbrio entre fidelidade ao texto e responsabilidade na adaptação para 2026.
“Hoje existe uma consciência muito maior sobre como falar e abordar determinadas questões. A gente precisava tomar cuidado para atualizar isso sem perder o espírito da obra”, afirma.
Ao mesmo tempo, Binder revela que a produção buscou manter atmosfera nostálgica na fotografia, nas cores e em alguns elementos visuais, criando uma ponte emocional entre gerações: “A gente trouxe um pouco dessa nostalgia. Tem elementos retrô na fotografia, no cenário, nas cores. Não é só um filme infantil. É um filme para a família toda”, explica.
O diretor também admite o peso emocional de adaptar uma obra que marcou sua própria infância: “Recebi mensagens de vários amigos dizendo: ‘Esse foi o livro da minha infância, capricha’. Então existia essa responsabilidade afetiva muito grande”, relembra.
Nova série do Globoplay mergulha em suspense, fantasia e atmosfera noir

Foto: Jorge Bispo
Lipe Binder também revelou detalhes inéditos de “Club Hinode”, nova produção do Globoplay inspirada no livro Mansão Hedonê, de Sue Hecker.
Sem entregar muitos detalhes da trama, o diretor define a série como uma narrativa construída a partir do mistério, do desejo e do suspense psicológico. A história gira em torno de uma casa secreta frequentada pela elite bilionária do país, onde fantasias íntimas são realizadas longe da exposição pública.
“É um lugar muito sigiloso, onde essas pessoas conseguem realizar suas fantasias e vontades. Isso centraliza a trama. Aí começam a ter mortes e várias pessoas se tornam suspeitas. Vamos desvendando esse quebra-cabeça dentro desse universo do prazer”, explica Binder.
Ao comentar a linguagem da produção, o diretor afirma que a série bebe diretamente da atmosfera dos filmes noir e das narrativas de suspense erótico psicológico, mas faz questão de destacar que a abordagem da intimidade será conduzida sem vulgarização.
“Falando de gênero, estamos bebendo de filme noir, filme erótico. Vai ser uma história agitada, eletrizante. E nossa meta é justamente não vulgarizar. Não precisa de um corpo nu para contar uma história”, afirma.
Binder reconhece ainda que algumas características da nova produção podem remeter à atmosfera construída em Verdades Secretas, principalmente na maneira de abordar desejo, fantasia e intimidade sem recorrer ao excesso visual.
“Existe esse lado lúdico que Verdades Secretas carregava. São universos diferentes, mas existe essa linha tênue de abordar temas sensíveis e íntimos sem chocar, sem vulgarizar. O prazer é uma coisa muito íntima. Está na expressão do ator, da atriz”, comenta.
Mesmo sem revelar detalhes sobre elenco ou cronograma oficial de estreia, Binder demonstra entusiasmo com a nova produção e define a série como um projeto construído para provocar tensão, curiosidade e desconforto emocional no público.
O medo de virar refém da própria estética
Finalizando a entrevista, Lipe entra em assunto pouco comum entre diretores: o medo de se tornar refém da própria linguagem. Ao refletir sobre carreira, identidade estética e reinvenção artística, ele cita Wes Anderson como um cineasta que admira profundamente, mas usa justamente o diretor americano para pensar sobre os riscos de permanecer preso a uma assinatura visual excessivamente reconhecível.
“Wes Anderson é um dos grandes. Ele tem imagem única, estética muito própria. Mas recentemente venho pensando nisso: ao mesmo tempo, ele vive quase uma prisão artística. Você olha para um filme dele e imediatamente sabe que é dele. Os filmes acabam ficando muito parecidos por causa da linguagem estética, da forma como ele dirige os atores. Digo isso com toda humildade do mundo, afinal, ele é um dos grandes, admirado mundo afora. Mas, isso é uma coisa que me dá medo: estar fazendo sempre a mesma coisa”, afirma Binder.
A partir dessa reflexão, o diretor explica que o que mais o move artisticamente é justamente a possibilidade de trocar de pele a cada projeto. Para ele, atravessar gêneros diferentes é uma forma de continuar inquieto criativamente: “O que me mantém vivo é mergulhar em novos mundos”, resume.
E é exatamente isso que explique sua trajetória. Um diretor que parece menos interessado em repetir fórmulas de sucesso e mais disposto a desmontar a própria linguagem a cada novo projeto.

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