Dando sequência à série de entrevistas com os autores de Três Graças, converso com Zé Dassilva e algo fica bem claro neste bate-papo: existe um momento em que a novela deixa de ser apenas ficção e passa a ocupar espaço afetivo na rotina das pessoas. Em Três Graças, isso aconteceu cedo. Talvez porque Gerluce não tenha sido construída como heroína distante. Ela tem o rosto cansado de quem pega ônibus lotado, carrega culpa, frustração e desejo interrompido. É o tipo de personagem que o público reconhece antes mesmo de entender completamente sua história. E Zé Dassilva sabe disso.
Ao lado de Aguinaldo Silva e Virgílio Silva, o autor ajudou a construir uma das novelas mais comentadas dos últimos tempos. Uma trama que apostou sem medo no melodrama clássico, no tempo da emoção e em personagens imperfeitos que ganharam o público justamente por suas contradições.
Nesta entrevista ao Pittaplay, Zé fala sobre os bastidores criativos de Três Graças, a construção de personagens como Samira e Lucélia, o fenômeno do casal Leonardo e Viviane, o diálogo da novela com as redes sociais e a permanência da teledramaturgia como força cultural no Brasil.
“Todo mundo conhece uma Gerluce”

Para Zé Dassilva, a identificação do público com Três Graças nasce da sensação de reconhecimento imediato. Gerluce não foi pensada como exceção. Pelo contrário. Ela representa milhões de mulheres brasileiras.
“Todo mundo conhece uma Gerluce. Ou mais de uma! Mãe solo, que abdicou de seus sonhos para criar filho sozinha, sem a mínima participação do pai da criança, e que com isso ficou relegada ao subemprego”, conta o autor.
Zé acredita que esse ponto de partida criou espelhamento direto entre a novela e a realidade social brasileira. Segundo ele, havia também decisão narrativa clara desde o início: fazer um folhetim assumidamente emocional.
“Desde o começo deste trabalho quisemos fazer novela com o DNA clássico dos folhetins. Sem medo da emoção”. Ele cita como exemplo a longa repercussão da morte de Jorginho Ninja, que ocupou vários capítulos entre velório, luto e enterro, algo raro numa televisão cada vez mais acelerada.
“Buscamos extrair o máximo de emoção de cada situação, sem ser corrido e sem nunca perder de vista o coração dos personagens”.
A engrenagem dos “Três Silvas”

Apesar da assinatura conjunta, Zé explica que não houve divisão fixa por núcleos entre os autores. A construção da narrativa era coletiva o tempo todo: “Não nos dividimos em núcleos, até porque as histórias se entrelaçam o tempo todo”.
Segundo ele, os três discutiam todos os personagens e tramas em conjunto. Depois disso, os diálogos eram escritos também com a colaboração dos roteiristas Cláudia Gomes, Patrícia Moretzsohn, Eli Nunes e Márcia Prates, esta última responsável pela novelinha Loquinha: “Depois, a narrativa final passava por processo de lapidação em conjunto, garantindo a unidade e a consistência”.
A dinâmica ajuda a entender por que a novela mantém sensação constante de continuidade emocional entre os núcleos. Mesmo quando muda o foco narrativo, a trama nunca parece fragmentada.
Humor, polícia e melodrama: as marcas da formação jornalística

Foto: Arquivo pessoal
A origem dos três autores no jornalismo aparece diretamente na estrutura da novela. Zé compara a rotina de escrever capítulos à lógica diária de fechamento de jornal: “Da mesma forma que uma edição de jornal impresso ou um telejornal precisa sair do forno todo dia, a gente nessa novela produziu um capítulo de 37 páginas diariamente”.
Ao todo, Três Graças ultrapassou 6.500 páginas de roteiro. Mas a formação de Zé também passou pelo humor, algo que influencia diretamente o tom da novela: “O humor é uma linguagem fundamental nas novelas também”.
Segundo ele, isso explica personagens como Arminda, vilã cruel que também possui momentos divertidos, e até o clima mais leve da delegacia formada por Paulinho, Juquinha e Jairo.
Zé também lembra que os três autores possuem relação profissional com a narrativa policial: “Aguinaldo foi repórter policial em ‘O Globo’, Virgílio foi repórter de TV cobrindo muita matéria desse tema, e eu fui redator-final em Linha Direta”.
Samira, Lucélia e personagens que cresceram junto com os atores
Ao comentar os vilões da novela, Zé deixa claro que a atuação dos atores influenciou diretamente os caminhos do roteiro. No caso de Samira, interpretada por Fernanda Vasconcellos, a personagem ganhou novas possibilidades conforme os autores acompanhavam o trabalho da atriz: “A frieza da personagem dava mais medo ainda do que ela seria capaz de fazer”.
Ele revela inclusive que o fato de Samira ser mãe de Raul não estava previsto inicialmente: “Isso foi algo que brotou ao longo da trama”. O mesmo aconteceu com Lucélia, interpretada por Daphne Bozaski: “Esta personagem, inicialmente, não foi concebida para beijar Bagdá ou virar chefe da Chacrinha”.
Segundo o autor, a força da atuação da atriz acabou empurrando a personagem para novos espaços narrativos: “Boa parte por conta da brilhante interpretação da Daphne”. Essa abertura para recalcular trajetórias parece ter sido uma das marcas da novela.
“Não acho que o público espere redenção dele”
Ferette talvez seja um dos personagens mais moralmente complexos da trama. Ainda assim, Zé demonstra entender perfeitamente a expectativa do público em relação ao vilão: “Na vida real, é revoltante ver poderosos inescrupulosos ficarem impunes”. E encerra o assunto evitando spoilers: “Não acho que o público espere redenção dele… E mais não digo”.
Leonardo e Viviane: um romance construído contra o óbvio

Entre os casais da novela, Leonardo e Viviane ganharam destaque justamente por fugirem da construção mais previsível. Segundo Zé, eles tinham todos os elementos para não funcionarem juntos: “Leo, a princípio, rejeitava a ideia de namorar uma mulher trans”.
Além disso, havia o abismo social e moral entre os dois: ela pobre, ele rico; ela trabalhando para salvar vidas, ele lucrando com remédios falsificados. O maior desafio dos autores foi encontrar maneira convincente de reconciliá-los depois da revelação sobre os remédios.
“Precisávamos algo a mais”. A solução veio numa cena decisiva: “Foi quando criamos a cena de ele salvando-a do atropelamento, para que ficasse inevitável o beijo da reconciliação”.
O desafio de fazer o público continuar amando Gerluce
Para Zé Dassilva, o maior desafio criativo da novela sempre esteve ligado ao controle emocional do público diante das escolhas dos personagens.
O exemplo mais importante foi o roubo cometido por Gerluce: “Temíamos que ela decepcionasse as pessoas ao praticar o roubo das Três Graças”. Por isso, os autores trabalharam cuidadosamente a motivação da personagem antes do crime acontecer.
Uma cena específica serviu como termômetro: “Aquela cena em que Gerluce quase rouba um pouco de dinheiro de dentro da escultura serviu para sentirmos se as pessoas estavam do lado dela”. E estavam.
“Foi quando percebemos que Gerluce poderia ‘expropriar’ a escultura, que ninguém deixaria de amá-la”. Zé também destaca a importância das redes sociais nesse processo: “Buscamos ouvir e até dialogar com a internet, o que representa novo desafio no jeito de fazer novela”.
“O brasileiro segue sendo super noveleiro”

Ao refletir sobre o impacto de Três Graças, Zé acredita que a novela ajudou a reafirmar a força do gênero num momento em que muitos questionavam sua relevância: “O brasileiro segue, sim, sendo super noveleiro. Incluindo as novas gerações”.
Ele cita episódio curioso envolvendo adolescente, fã da novela, que queria visitar a casa de Arminda durante uma viagem para São Paulo. Mais do que audiência, Zé enxerga a novela vivendo também nas redes sociais, nos memes e nos recortes compartilhados online.
“Há inclusive muita gente que acompanha a novela pelos recortes da internet”. Para ele, as novas mídias não substituem a novela, apenas transformam a maneira como ela é consumida.
O futuro depois de Três Graças
Com o fim da novela, Zé Dassilva já possui novos projetos. Entre eles, a série Brasil 70, na Netflix, prevista para estrear no streaming no fim de maio, onde atua como consultor de roteiro.
Mas deixa claro que sua grande paixão continua sendo a novela: “É isso que eu gosto de fazer, escaleta após escaleta, capítulo após capítulo”. O autor também revela o desgaste da rotina intensa de escrita: “Só agora, com o fim de ‘Três Graças’, percebi que há dois anos e meio eu vinha escrevendo novelas sem folga alguma”.
Ainda assim, descansar parece improvável: “Quem descansa entra em contemplação… E quem contempla, observa… E quando escritores observam, começam a ter ideias…”.
