Tem ator que entra na novela já pronto. Entrega intenção, timing, presença e vai embora quando a cena termina. Evaldo Macarrão incomoda justamente porque parece operar no caminho contrário. Desde Jupará, em Renascer, existe no seu trabalho sensação menos domesticada, quase imprevisível. Não pela caricatura ou pelo excesso, mas pelo detalhe. Pelo jeito como sustenta silêncio, pelo corpo permanentemente atento ao ambiente e pela impressão de que o personagem nunca chega completamente pronto em cena, ele acontece diante do público. É uma atuação que não busca limpeza, mas verdade. E vem daí a força que Evaldo carrega hoje: seus personagens parecem sempre atravessados por vida antes mesmo do texto começar.
Agora, o ator baiano explora seu talento em outro momento na televisão com Coração Acelerado, novela das sete da Globo. Na trama, Evaldo interpreta Agildo Bará, um agitador cultural responsável pela agenda de artistas enquanto tenta, silenciosamente, encontrar o próprio amor.
Em conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, o ator falou sobre construção de personagem, referências raciais, humor, protagonismo no cinema, masculinidade, educação, pertencimento e o desejo de transformar a própria vida em musical autobiográfico.
Agildo Bará e o equilíbrio do humor

Evaldo faz questão de deixar claro que memória, para ele, não funciona como prisão criativa, mas como ponto de partida emocional: “Não será isso que possa limitar o meu processo de construção e experimento com Bará. A referência da memória que acionei na infância serviu diretamente pra mim na relação com a música sertaneja que tive nas minhas idas na casa de minha tia/madrinha”.
A lembrança da infância aparece mais como conexão afetiva com o universo musical do personagem do que como molde definitivo da atuação. O restante da composição vem de observação, pesquisa e convivência: “A relação de criação do personagem é outra. Vai diretamente ao lugar que ele se estabelece, de produtor, agitador cultural e agenda. Tive referências de amigos próximos da área e passei a admirar e saber mais um pouco do jornalista, produtor, escritor, compositor, Nelson Motta”.
Mas existe um ponto específico em Agildo que vem exigindo atenção constante do ator: o humor. Evaldo entende que o personagem vive em lugar delicado entre o exagero e a contenção: “O personagem me estimula muito ao equilíbrio no humor. O que me faz ter olhar atento de não ser nem muito e nem pouco na sua performance. E isso me exige atenção e trabalho constante para não esbarrar em uma coisa só”.
Essa busca por equilíbrio também atravessa a dimensão afetiva do personagem. Agildo vive cercado de pessoas, artistas e movimentação, mas carrega uma solidão muito particular: “É muito bem direcionado o tempo do trabalho, com o do solitário que vive na busca do seu coração acelerado. Dá pra equilibrar entendendo os momentos sérios de trabalho, com os momentos possíveis de uma paquera e outra”, comenta o ator.
“Não faço arte só pra mim”
Ao longo da conversa, Evaldo retorna diversas vezes à ideia de representatividade. Não como discurso pronto, mas como experiência concreta de vida e de profissão. Quando relembra a identificação que sentia na infância ao olhar para João Paulo, da dupla João Paulo & Daniel, ele revela como a percepção racial moldou sua trajetória artística: “Eu sou um homem preto! Naturalmente as minhas referências serão na sua maioria de pessoas pretas”.
E continua: “Nos papéis que vou aceitando dialogo com essas referências pretas potentes que de alguma forma colaboraram e colaboram na reconstrução de um Brasil melhor. E isso me ajuda muito a fazer dos meus personagens sempre grandes, independente do tamanho da trama, lindos, potentes, gigantes na sua essência”.
Mais do que construir personagens, Evaldo pensa no impacto que essas figuras podem provocar no público: “Para que o povo, o grande público, possa se ver ao me ver de forma digna e inspiradora”.
Depois do impacto de Jupará e da participação em No Rancho Fundo, o ator percebeu que sua relação com o público mudou e isso alterou também a maneira como enxerga o próprio ofício: “Com Jupará descobri que não faço arte só pra mim, mas principalmente para o povo, para quem me assiste”.
A fala vem carregada de responsabilidade afetiva: “Esse público tem sido cada vez mais bonito comigo e ao mesmo tempo inspirador. Portanto me dedico cada vez mais em fazer da melhor forma no processo de estudo constante e respeito ao ofício”.
Entre o humor e o drama

Foto: Marilha Galla
Apesar do reconhecimento crescente na televisão, Evaldo continua falando da profissão como alguém permanentemente disponível para aprender. Sua trajetória passa pelo teatro comunitário, pelo CRIA, pela televisão, streaming, cinema e humor. E, para ele, adaptação nunca foi submissão ao formato: “Existe troca e diálogo no meu fazer artístico com o formato. Assim a gente se estabelece e se faz confortável no fazer”.
Ao mesmo tempo, ele rejeita qualquer ideia de acomodação artística: “Gosto muito de aprender, me considero um ator disponível e isso facilita muito no processo de troca, aprendizado e adaptação”.
Essa disponibilidade explica a naturalidade com que transita entre o humor e o drama. Depois de trabalhos em Zorra, Central de Bicos e esquetes do Porta dos Fundos, Evaldo entende que o humor o ensinou a compreender o tempo da cena: “O tempo do equilíbrio que agora estou tentando experimentar ainda mais e aprender com Bará. Nem muito caricato e nem muito contido”.
Ele explica que cada cena pede uma pulsação própria: “Tem cena que pede uma forma mais escrachada e tem cena que não pede nada, apenas só estar em cena e deixar o texto ser a piada se for pra ser, ou a própria ação da movimentação da cena”.
O primeiro protagonista no cinema
Se na televisão o público passou a reconhecer seu rosto, no cinema Evaldo vive agora virada importante da carreira. Em A Escuta, ele assume seu primeiro protagonista. E a emoção ao falar do projeto altera completamente o ritmo da entrevista: “Esse trabalho foi um presente! Viver meu primeiro protagonista no cinema brasileiro e baiano, gravar na minha terra, Salvador, foi muito bom, muito importante pra mim”.
No longa, Evaldo interpreta Rômulo, eletricista que tenta sobreviver às durezas da vida enquanto lida com conflitos familiares e emocionais: “É um personagem boa praça que dá nó em gota d’água, aquele que tenta driblar a dureza da vida para não se perder”.
Mas o personagem acaba atravessado pelas próprias fragilidades: “Se perde quando é atravessado pelo machismo e da presença dispersa no convívio com sua filha Joia”. Na trama, Rômulo precisa reencontrar a ex-esposa Juçara para descobrir o paradeiro de Da Lua, irmão dela e figura importante da periferia de Romancinho.
“Quando Rômulo descobre que Juçara também está envolvida na maracutaia do irmão, o eletricista precisa decidir se salva sua pele ou a do grande amor da sua vida”. O ator revela que o filme permitiu experiências que ainda não havia vivido tão intensamente no audiovisual.
“Nesse trabalho pude vivenciar um pouco de cada coisa do que ainda não vivi tanto no audiovisual: drama, ação, suspense e romance”. Mas a fala mais forte sobre A Escuta está na forma como Rômulo atravessou sua vida pessoal.
“O aprendizado com o personagem é sempre muito especial pra mim. Rômulo me provoca constantemente na atenção do filho, pai, homem, amigo cuidadoso, atento e respeitador que tento ser na relação com minha mãe, filha e as mulheres à minha volta. O que me fez ser mais vigilante com a minha masculinidade e paternidade”.
A estreia do longa, inicialmente prevista para este ano, ainda depende da captação de investimentos e parceiros para distribuição: “O diretor, Ariel Cascadura, está empenhado na captação de investimento e parceria para lançamento digno como pede a beleza e importância desse filme”.
O teatro como origem

Mesmo com a expansão da carreira no audiovisual, o teatro continua sendo origem e retorno. O CRIA, centro de formação artística onde iniciou sua trajetória em Salvador, segue ocupando um lugar central na sua vida: “Já tem tempinho que ando um pouco afastado dos palcos. Por ser o teatro o meu maior reduto pedagógico”.
Sempre que volta à Bahia, Evaldo revisita o espaço onde foi formado como ator e arte-educador: “Lá reencontro muito dos adolescentes e jovens que passaram pelo meu processo de formação de ator e não ator, educando e multiplicador cultural”.
Esse reencontro funciona quase como reafirmação de propósito: “Tenho olhares e falas que me fortalecem e me ensinam a não desistir de mim, a continuar estudando, sonhando, aprendendo e fazendo arte que impulsiona”.
E há emoção evidente quando fala da identificação dos jovens com sua trajetória: “Eles e elas se sentem representados e ao mesmo tempo estimulados a ocuparem espaços. Isso me faz compreender cada vez mais que todo meu processo está dando certo, que está sendo possível sonhar e realizar sonhos”.
O peso e a força do nome Macarrão
A história do apelido “Macarrão”, que hoje virou assinatura artística, também nasce desse ambiente de formação. O que começou como comentário sobre seu corpo “mole” nos exercícios de preparação acabou se transformando em identidade: “Lido muito bem, adoro ser chamado de Macarrão. Foi batismo no teatro”.
Ele relembra o educador Djalma Gomes, o “Seu Dija”, como alguém fundamental nesse processo: “Compreendi que o apelido não foi pensado como bullying, mas sim como forma de me puxar pra roda, de me colocar presente na vida que me fazia o convite do ser artista/ator que sou”.
Arte também é denúncia
A consciência racial volta a aparecer perto do fim da entrevista, agora atravessando diretamente o mercado audiovisual: “Ter boas oportunidades artísticas e financeiras já é um grande enfrentamento e combate à desigualdade racial qual me refiro e isso não depende só de mim”.
Mesmo assim, ele entende sua presença artística como movimento político: “Estar em cena com a minha arte, mobilizando, provocando, impulsionando é uma forma de estar, ao mesmo tempo, denunciando”.
O musical autobiográfico
A conversa termina num território profundamente íntimo: o desejo de transformar sua própria trajetória e a do pai, o percussionista Edvaldo do Repique, em um musical autobiográfico: “Papai era músico e percussionista e eu me tornei ator e educador”.
Para Evaldo, arte e educação sempre caminharam juntas: “Não vejo grande dificuldade em traduzir as nossas vivências através da arte e nos caminhos da educação”. Ele imagina espetáculo capaz de provocar reflexão, emoção e consciência: “Acredito que venha ser um espetáculo que faça refletir, provocar e também conscientizar”.
E talvez exista algo simbólico no fato de um ator acostumado a contar histórias de outros personagens agora desejar contar a própria: “Como gosto de contar histórias e falar da vida dos outros, vou poder contar a minha história e falar da minha vida também”.
O projeto ainda está em processo inicial de escrita: “Isso é algo que ainda estou descobrindo no processo de pesquisa de escrita e entendimento do que vai ser falado e como será falado. Sinto que muita coisa será feita no fazer, na prática tanto da escrita como nos ensaios e na construção de cena”.
A essência de Evaldo Macarrão está aí, em ser um ator que parece entender que arte não nasce do controle absoluto, mas da coragem de permanecer em construção.
