Existe momento muito específico na trajetória de alguns atores em que a atuação deixa de funcionar como demonstração e passa a existir como experiência emocional. Com Matheus Costa, essa transformação aparece de forma muito clara.
Entre o universo íntimo de Juntas e Separadas, série original Globoplay que estreou este ano e a grandiosidade épica de Ben-Hur, nova produção da Record, o ator atravessa personagens completamente diferentes sem abandonar aquilo que parece guiar sua construção artística hoje: humanidade antes da performance.
“Hoje tento construir personagens menos a partir da performance e mais a partir da experiência emocional deles”, resume.
O filho que descobre a mãe para além da maternidade

Em Juntas e Separadas, Matheus interpreta Inácio, personagem que reage de forma intensa ao descobrir o envolvimento entre a própria mãe e seu melhor amigo. Mas o ator nunca enxergou essa explosão apenas como raiva.
“Sempre enxerguei mais como dor. A explosão, pra mim, é quase a tentativa desesperada de reorganizar um mundo que saiu do eixo”. Segundo ele, existe ciúme, abandono, insegurança e fragilidade atravessando o personagem o tempo inteiro.
“Quando a gente entende a fragilidade que existe por trás da agressividade, o personagem ganha outra dimensão completamente”.
O ator afirma que o que mais o atravessou emocionalmente foi perceber como as pessoas muitas vezes criam versões confortáveis daqueles que amam: “Inácio tinha a mãe dentro de um lugar muito confortável, quase como se ela existisse só dentro daquela função”.
E quando essa imagem se rompe o personagem entra em colapso emocional: “A série fala justamente sobre isso, sobre crescer emocionalmente e entender que as pessoas que a gente ama têm uma vida que vai além da nossa perspectiva delas”.
O que fica escondido dentro das cenas

Foto: Priscila Nicheli
Ao longo da entrevista, Matheus retorna várias vezes para uma ideia central: os personagens não existem apenas no que falam, mas principalmente no que escondem.
Esse cuidado aparece também na relação construída nos bastidores com Natália Lage e Lucas Leto: “A gente conversava bastante sobre os limites daquela intimidade, sobre o que estava sendo dito e o que estava sendo escondido dentro das cenas”.
Segundo o ator, essa troca foi fundamental para construir os conflitos emocionais da série sem superficialidade: “Natália é uma atriz extremamente generosa e muito sensível em cena. O Lucas também tem escuta muito viva”.
Silêncio, contenção e maturidade artística
Matheus começou na televisão ainda criança, em América, trama de Glória Perez exibida pela Rede Globo em 2005, mas afirma que a maturidade artística surgiu aos poucos: “Chega uma hora em que você percebe estar querendo participar da construção dos personagens de forma mais ativa”.
Segundo ele, houve momento em que deixou de apenas executar cenas e passou de fato a criar artisticamente: “Crescer diante das câmeras faz você amadurecer junto com a profissão”.
Hoje, o ator afirma confiar muito mais no simples: “Quando a gente começa muito novo, existe ansiedade de demonstrar emoção o tempo inteiro”, e a mudança veio justamente quando percebeu a potência do silêncio: “Muitas vezes o mais forte está justamente no que não é dito”.
Em trabalhos como Sob Pressão, ele afirma ter aprendido muito sobre contenção, presença e escuta emocional: “Acho que o silêncio, quando bem colocado, revela coisas muito profundas sobre um personagem”.
Entre o íntimo e o épico

Enquanto Juntas e Separadas trabalha relações extremamente cotidianas, Ben-Hur, a nova produção da Record com estreia prevista para o segundo semestre, leva Matheus para dimensão completamente diferente: “Ben-Hur pede outra respiração, outro corpo, outra relação com a palavra e até com o silêncio”.
O ator revela que vem trabalhando postura, forma de olhar e ritmo da fala para construir o personagem da nova série da RecordTV: “São personagens atravessados por outra lógica de mundo completamente”.
Mas existe também mergulho emocional intenso nesta nova produção, adianta Matheus: “Ben-Hur fala sobre fé, poder, dor e redenção de uma maneira muito profunda” e segundo o ator, o processo vem provocando transformações pessoais: “É um processo que mexe bastante comigo como ator e como pessoa também”.
Contar histórias acima de qualquer reconhecimento

Mesmo falando sobre linguagens tão diferentes quanto televisão, streaming, teatro e dublagem, Matheus parece sempre voltar para o mesmo ponto: verdade emocional: “A dublagem me fascina porque exige uma precisão emocional enorme só através da voz”.
O ator afirma que antes de pensar em corpo, voz ou estética, tenta entender como o personagem sente o mundo: “O que ele esconde, do que ele foge, o que ele deseja”.
Até mesmo o reconhecimento internacional e a aprovação na The Academy, ligada ao Oscar, aparecem sob essa perspectiva: “Muda a perspectiva, com certeza, porque você percebe que o seu trabalho pode atravessar fronteiras”.
Mas ele mantém os pés no chão ao definir o que realmente move sua carreira: “O mais importante continua sendo contar histórias que me movam de verdade. Isso é o que orienta tudo”.
