Quem Ama Cuida mostra que a dor de Mau Mau começa antes da descoberta

Quem Ama Cuida acerta ao mostrar como pequenas podas emocionais constroem insegurança e vergonha em Mau Mau, personagem de João Victor Gonçalves, através do policiamento da masculinidade dentro da própria família. Foto: Reprodução/Globoplay

Todo homem gay conhece o peso escondido dentro de frases aparentemente pequenas. “Fala direito”. “Se comporta”. “Para com isso”. Antes mesmo de entender completamente quem é, muitos aprendem que o próprio corpo incomoda, que a voz precisa ser medida, que o gesto deve ser contido e que a espontaneidade pode virar motivo de correção.

É exatamente esse lugar que Quem Ama Cuida começa a desenhar com Mau Mau, personagem vivido por João Victor Gonçalves. A novela não mostra, neste primeiro momento, uma dor escancarada, mas algo mais silencioso e igualmente violento: o nascimento da vergonha.

Otoniel, personagem de Tony Ramos, não aparece como um avô sem amor pelo neto. Essa é justamente a camada mais complexa da construção. Existe afeto e vínculo entre os dois. Maurício admira aquele homem mais velho da família. Mas também existe tentativa constante de enquadramento. Quando Otoniel corrige o jeito do neto falar, brincar, se mover ou se comportar, ele não está apenas podando atitudes. Está tentando corrigir identidade.

O medo de Mau Mau nasce antes mesmo da rejeição

João Victor Gonçalves e Tony Ramos em cena de Quem Ama Cuida. A novela começa a desenhar, com enorme sensibilidade, como pequenas repressões emocionais e o policiamento da masculinidade podem transformar afeto familiar em medo silencioso.
Foto: Reprodução/Globoplay.
João Victor Gonçalves, letícia Colin e Tony Ramos em cena de Quem Ama Cuida. A novela começa a desenhar, com enorme sensibilidade, como pequenas repressões emocionais e o policiamento da masculinidade podem transformar afeto familiar em medo silencioso.
Foto: Reprodução/Globoplay.

O texto de Walcyr Carrasco e Claudia Souto acerta ao construir esse arco com calma e responsabilidade. Mau Mau ainda não verbaliza a própria dor, mas o corpo dele já reage. O olhar carrega receio. A postura muda quando o avô se aproxima. A liberdade que ele tem ao lado da irmã Adriana se retrai diante da possibilidade de uma bronca.

A cena da cozinha é um exemplo forte disso. Mau Mau está leve, brincando, falando alto, sendo simplesmente quem consegue ser quando está seguro. Mas basta Otoniel se aproximar para Adriana perceber o risco antes mesmo do conflito acontecer. Quando ela segura o braço do irmão, não tenta controlá-lo. Tenta protegê-lo daquilo que sabe que vem em seguida.

A direção artística de Amora Mautner conduz essa construção com enorme sensibilidade. A cena não pesa para os personagens porque eles ainda não entendem completamente o tamanho daquilo. Mas pesa para o público que reconhece esse tipo de violência. Aqui vale menção também à equipe que dirige a novela sob comando geral de Caetano Caruso, com Nathalia Ribas, Alexandre Macedo, Augusto Lana, Fábio Rodrigo e Rodrigo Olliveira.

O acerto está justamente em não transformar tudo em discurso. Quem Ama Cuida deixa a violência aparecer na rotina, na frase curta, no gesto interrompido, na alegria vigiada. A novela entende que, muitas vezes, a repressão contra homens gays começa antes da revelação, antes da aceitação e antes do conflito declarado.

Começa quando alguém aprende que existir livremente incomoda.

E, se seguir esse caminho com a mesma verdade, Mau Mau pode se tornar um dos personagens mais importantes da novela. Porque sua história não fala apenas sobre descoberta. Fala sobre o medo de ser corrigido por quem se ama.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *