Foto: Ieda Ribeiro
Desde seus primeiros capítulos, Quem Ama Cuida construiu Mau Mau como personagem marcado por violência que não deixa hematomas visíveis. As correções constantes do avô Otoniel (Tony Ramos), a vigilância sobre seus gestos, sua voz e sua forma de existir transformam a própria casa em lugar de insegurança. Para João Victor Gonçalves, o maior sofrimento do personagem não está apenas nas palavras que escuta, mas no efeito que elas produzem dentro dele.
“Acredito que as agressões vindas de dentro de casa causam no Mau Mau esse eterno questionamento se tem algo errado com ele. Então acho que a maior das agressões é essa que vem de quem ele ama.”
O ator explica que construiu esse comportamento observando, estudando e analisando histórias reais de pessoas que viveram situações semelhantes: “Quando a repressão vem de quem nos sustenta ou de figura que você tem sempre como referência de como agir, não há força para falar alto, para brigar ou pedir ajuda. O Mau Mau não se entende muito bem, então a correção o chateia, mas ele até se questiona algumas vezes se o avô não está realmente certo.”
O peso da autocensura
Ao longo da primeira fase da novela, Mau Mau aprende a vigiar a própria existência. Segundo João Victor, essa é uma experiência que muitas pessoas LGBTQIA+ reconhecem imediatamente: “Esse autovigiar se faz presente na vida de toda pessoa LGBTQIA+. Temos o tempo inteiro que nos ‘policiar’ para não romper com a masculinidade vigente, para não perder oportunidades, para não sermos agredidos física e moralmente. Então essa vigia existe forte dentro de cada pessoa e gera essa identificação o tempo todo.”
Para o ator, um dos grandes méritos da novela é mostrar que a violência nem sempre nasce da ausência de amor: “A novela traz como enredo ‘Quem ama cuida’, mas esse cuidado muitas vezes pode ferir, pode silenciar. Então, sim, é uma das discussões mais importantes da trama. O amor também machuca se for só da forma que você acredita como certo.”
Um personagem que conversa com quem sofre e com quem machuca

João Victor almeja que a história alcance não apenas quem viveu situações parecidas com as de Mau Mau, mas também quem reproduz esse comportamento dentro de casa: “Espero que as pessoas se conectem com esse personagem, que verdadeiramente se sintam representadas até o último segundo. E que o Mau Mau e o seu avô possam mudar a realidade de pessoas que passam por isso.”
Essa transformação, segundo ele, também passa pela discussão sobre masculinidade: “Com toda certeza ainda existe essa cobrança. É muito clara até hoje essa necessidade de performar o masculino, ao ponto de termos no Brasil números altíssimos de agressões a LGBTs e mulheres. Isso se dá por conta dessa masculinidade inabalável. O Mau Mau dialoga com essa possibilidade de ser diferente e lutar para não ser reprimido por isso.”
Ao pensar nos jovens LGBTQIA+ que acompanham a novela, o desejo do ator vai além da identificação: “Que essa história possa tocar dentro da casa deles. Que os pais, avós, tios ou as pessoas que agem como o Otoniel percebam o quão problemáticas são essas atitudes e mudem.”
No Crítica em Foco, já fiz análise falando que Quem Ama Cuida mostra que a dor de Mau Mau começa antes da descoberta. Clique aqui e leia a análise completa.
Quando a ficção encontra a realidade
Mesmo acompanhando debates sobre diversidade antes da novela, João Victor conta que Mau Mau ampliou sua percepção sobre a realidade vivida por muitas pessoas: “Sempre tive muito acesso a todo letramento, números e sempre me interessou muito essa pauta. Mas, com o Mau Mau, recebo relatos reais que me fazem desacreditar que, em pleno 2026, muito mais pessoas passam por isso do que nós imaginamos.”
Durante a preparação, o ator também contou com processo conduzido por um preparador de elenco trans não binário: “O processo de preparação foi extremamente importante. O nosso preparador de elenco é uma pessoa trans não binária, com conhecimento absurdo sobre pautas necessárias. Ele pôde me ajudar muito a enriquecer meus conhecimentos para essa construção.”
A novela das nove e o tamanho da responsabilidade

Embora divida cenas com nomes como Tony Ramos e Letícia Colin, João Victor conta que foi um relato do colega de elenco que o fez compreender o alcance da novela: “Quando ouvi Tony Ramos dizendo que uma senhora encontrou com ele no mercado e disse que ele, na novela, era a companhia dela todas as noites porque ela morava sozinha, caiu a minha ficha de que é mais que uma novela. Os brasileiros abrem a porta de suas casas para nos receber e isso é de extrema importância.”
Ainda hoje, ele diz que o sentimento permanece: “Todos os dias eu sinto isso. Todos os dias parece irreal estar cercado de pessoas tão talentosas e tão especiais.”
O direito de viver uma história de amor
Enquanto o público cria teorias sobre os possíveis romances de Mau Mau, João Victor acompanha a movimentação nas redes sociais com entusiasmo: “Acompanho tudo e me divirto com as teorias. Acho incrível que queiram ver o Mau Mau feliz com um personagem que permita que ele seja livre.”
Para ele, essa torcida revela necessidade antiga de representação: “Cada vez mais a comunidade quer se ver representada, menos invisível nas obras nacionais e contando histórias reais longe de estereótipos e fetiches.”
Sem antecipar os próximos capítulos, o ator deixa claro qual é seu maior desejo para o personagem: “Mau Mau merece viver um grande amor. Eu, como pisciano apaixonado, afirmo que amor é a melhor coisa que uma pessoa pode sentir. Então que o Mau Mau ame e seja amado. Isso vai ajudar a se aceitar e se conhecer.”
No Crítica em Foco, também analisei que a torcida por Felipe e Mau Mau diz mais sobre o público de Quem Ama Cuida do que sobre os personagens. Clique aqui para ler a análise na íntegra.
Ao longo da entrevista, João Victor Gonçalves deixa claro que Mau Mau não foi construído apenas para viver um romance ou enfrentar conflitos familiares. O personagem nasce para discutir violência silenciosa que atravessa gerações e continua presente em muitas casas brasileiras. Se a novela conseguir fazer alguém enxergar um filho, um neto ou até a si mesmo com outros olhos, o ator acredita que esse será o verdadeiro legado dessa história.
