“Quando você compreende, é muito difícil não amar”: Ana Beatriz Nogueira fala sobre humanidade, teatro e a nova peça com Andreia Horta

Ana Beatriz Nogueira fala sobre interpretação, maternidade, teatro, saúde mental, remakes e a nova peça com Andreia Horta em entrevista ao Pittaplay marcada por reflexões sobre humanidade, afeto e o ofício de atuar. Foto: Arquivo Pessoal.

Existe algo muito singular em artistas que atravessam décadas sem perder relevância: eles deixam de falar apenas sobre personagens e passam a falar sobre pessoas. Conversar com Ana Beatriz Nogueira é exatamente entrar nesse lugar.

A atriz se prepara para estrear, em outubro, a peça ’Night, Mother’, traduzida para “Boa noite, mãe”, ao lado de Andreia Horta, no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Dirigido por Leonardo Netto, o espetáculo mergulha em saúde mental, afeto e na relação emocionalmente delicada entre mãe e filha. Mas, durante a conversa com o Pittaplay, Ana transforma a conversa sobre a peça em algo muito maior: uma reflexão sobre interpretação, humanidade e a forma como observa as dores das pessoas sem simplificá-las.

Ela entende atuação como compreensão humana

Tem uma frase dita por Ana durante a entrevista que praticamente resume toda sua visão artística: “Quando você compreende, é muito difícil não amar”. A fala surge quando comenta personagens difíceis que interpretou ao longo da carreira, mas acaba revelando algo ainda maior: Ana Beatriz Nogueira não interpreta personagens para julgá-las, mas para compreendê-las.

E é exatamente isso que faz suas atuações carregarem tanta humanidade. Mesmo quando vive mulheres emocionalmente controversas, mães difíceis ou personagens atravessadas por dureza emocional, existe sempre olhar que tenta encontrar humanidade naquela criatura.

“Quando você tira a mãe desse lugar sagrado e olha como pessoa, aparecem questões humanas que muita gente não quer discutir”, afirma ao comentar figuras maternas emocionalmente complexas que interpretou na televisão.

Essa observação ajuda a entender personagens como Eva, de A Vida da Gente, ou Elenice, de Um Lugar ao Sol. Mulheres que poderiam facilmente ser reduzidas a rótulos simples, mas que Ana construiu como pessoas atravessadas por frustração, carência, medo e afeto contraditório.

Ana vê atuação também como memória e herança artística

“Quando você compreende, é muito difícil não amar.” A frase de Ana Beatriz Nogueira resume uma conversa profunda sobre personagens, humanidade e atuação.
Foto:  Arquivo Pessoal
“Quando você compreende, é muito difícil não amar.” A frase de Ana Beatriz Nogueira resume uma conversa profunda sobre personagens, humanidade e atuação. Foto: Arquivo Pessoal.

Ao relembrar personagens marcantes da carreira, Ana Beatriz Nogueira fala de interpretação com um respeito quase espiritual. O assunto surge quando comenta sua participação no remake de Ciranda de Pedra, novela exibida pela Globo em 2008, na qual viveu Frau Herta, personagem eternizada anteriormente por Norma Blum.

A atriz relembra a responsabilidade emocional de revisitar um papel já marcado pela memória afetiva do público e evita tratar o remake como simples repetição.

“Remake é sempre pedir licença”, afirma. A fala aparece enquanto recorda uma das cenas mais lembradas da personagem: a queda na escada. Ana explica que muito da construção física daquela sequência vinha justamente da experiência acumulada no teatro e da consciência corporal desenvolvida ao longo dos anos nos palcos.

“Você joga o corpo sem se machucar. O teatro dá esse treino pra gente e eu não quis usar dublê, eu mesma que fiz a queda”.

Mas é ao refletir sobre o próprio ofício, a atriz diz que “existe uma religiosidade na nossa profissão”, ao comentar a relação entre intérpretes de diferentes gerações. Mais do que técnica, Ana fala sobre atuação como continuidade, memória e respeito artístico. Como se cada personagem carregasse também algo invisível de quem veio antes.

Ana relembra Além do Tempo como uma das novelas mais ousadas da televisão brasileira

Ao falar sobre trabalhos marcantes da carreira, Ana demonstra carinho especial por Elizabeth Jhin e por Além do Tempo, novela atualmente reprisada nas tardes da Globo, na faixa da edição especial: “É uma linda novela. Elizabeth fez uma coisa muito moderna”.

Durante a conversa, Ana relembra justamente o aspecto que transformou a novela em uma das produções mais elogiadas da dramaturgia recente: a estrutura dividida em duas fases completamente distintas, quase como duas novelas em uma só.

“Foram duas novelas, exatamente. O material é o texto, um grande texto já é uma grande semente”, comenta ao falar sobre a construção da personagem Emília e explica que a interpretação nasce muito menos de fórmulas prontas e muito mais dos encontros que acontecem durante o processo artístico.

Ana relembra uma longa sequência dramática ao lado de Irene Ravache na reta final da trama, quando Emília descobre que é a filha perdida que Vitória pensou, por anos, estar morta. Ao comentar como cenas extensas eram executadas sem interrupções constantes, ela define atuação de uma forma simples e poderosa: “Foi um take único. A gente estava muito entregue uma para a outra. Mesmo se esquecesse uma frase, uma levaria a outra porque estava vivo. Você pode ver que não tem cortes na cena, foi tudo filmado direto, é uma sequência linda”.

A nova peça nasce do encontro entre afeto e saúde mental

Ana conta que a vontade de montar ‘Night, Mother’ nasceu ainda na década de 1980, quando assistiu à adaptação cinematográfica da obra durante o Festival de Berlim. Décadas depois, decidiu revisitar aquele impacto emocional justamente no momento em que se aproxima dos 60 anos e de 45 anos de carreira.

Mais do que celebrar uma trajetória artística, ela queria celebrar a própria vida. Ao falar sobre o espetáculo, a atriz evita transformar a peça apenas em discussão sobre sofrimento psicológico. Para ela, existe algo ainda mais importante atravessando aquela história: o afeto.

“É uma peça que fala do afeto também”, explica. “Fala desse encontro humano e da importância de olhar para saúde mental sem tirar a humanidade das pessoas”.

A parceria com Andreia Horta também nasce desse lugar de confiança artística. As duas trabalharam juntas em Um Lugar ao Sol, novela de Lícia Manzo exibida pela Globo em 2022, experiência que Ana relembra com enorme carinho. Foi ela quem convidou Andreia para dividir o palco nessa nova montagem.

O teatro continua sendo o lugar onde tudo acontece ao vivo

Entre teatro, televisão e novos formatos, Ana Beatriz Nogueira mostra que continua curiosa diante da arte de interpretar.
Foto: Arquivo Pessoal
Entre teatro, televisão e novos formatos, Ana Beatriz Nogueira mostra que continua curiosa diante da arte de interpretar. Foto: Arquivo Pessoal

Poucos artistas falam sobre teatro com tanta paixão quanto Ana Beatriz Nogueira. Para ela, o palco continua sendo espaço de reinvenção diária. Não existe conforto absoluto. Não existe repetição automática. Existe presença.

“Todo santo dia você recomeça”, diz ao falar sobre a experiência teatral. “Você sabe a partitura, mas vai sem saber exatamente como aquela noite vai acontecer”. 

Essa visão aparece até quando relembra episódio marcante de sua trajetória: certa vez, durante uma peça, faltou energia no teatro. Em vez de interromper o espetáculo, o elenco continuou a apresentação iluminado apenas pelas lanternas dos celulares da plateia.

O relato ajuda a entender como Ana enxerga o teatro: não como perfeição técnica, mas como encontro vivo entre pessoas.

Mesmo após décadas de carreira, Ana ainda fala sobre o novo sem arrogância

Talvez um dos aspectos mais bonitos da conversa seja perceber como Ana Beatriz Nogueira continua curiosa diante do próprio ofício. Mesmo depois de atravessar televisão, cinema e teatro durante mais de quatro décadas, ela ainda fala sobre trabalho sem a arrogância de quem acredita dominar tudo.

Ao comentar sua participação em ‘Nas Profundezas do Amor’, novela vertical do Globoplay, formato pensado especialmente para celulares, a atriz admite estranhamento, dificuldade e descoberta. Não existe resistência automática ao novo, mas observação.

“Eu só vou entender fazendo”, afirma. A frase parece pequena, mas diz muito sobre a artista. Enquanto muitos se protegem atrás da própria experiência, ela continua permitindo que o trabalho ainda a desestabilize, provoque e transforme.

E é justamente por isso que suas personagens nunca parecem prontas ou artificiais. Elas continuam vivas. Porque Ana ainda olha para o mundo com curiosidade humana antes de olhar como atriz.

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