Coração Acelerado funciona melhor quando esquece seus protagonistas

Isadora Cruz, Filipe Bragança e Isabelle Drummond protagonizam o triângulo central de Coração Acelerado, novela que encontra mais força justamente fora de sua trama principal. Foto: Manoella Mello/Globo.

Uma novela pode ter bons atores, direção segura, cenas emocionalmente fortes e diálogos bem escritos. Mas existe um elemento sem o qual nenhuma trama consegue sobreviver por muito tempo: um conflito principal capaz de fazer o público sentir.

E é exatamente neste ponto que Coração Acelerado, trama das 19h da Globo, escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, encontra seu maior problema.

A novela insiste em dizer que Agrado e João Raul vivem uma grande história de amor, mas o público pouco consegue perceber isso emocionalmente. Falta trajetória, construção e principalmente a sensação de destino entre os protagonistas.

Os personagens falam sobre amor. A novela afirma esse amor. Mas a narrativa nunca consegue fazer o telespectador realmente sentir esse vínculo.

O amor principal nunca ganha força dramática

O maior problema do casal central não está na atuação de Isadora Cruz e Filipe Bragança. Pelo contrário. Os dois possuem química, carisma e presença em cena suficientes para sustentar um casal popular.

A maior questão está na estrutura dramatúrgica, pois a história do amor surgido ainda na infância entre João Raul e Agrado precisava de mais tempo de construção. A novela passa rapidamente pelo passado dos personagens e depois tenta sustentar emocionalmente uma paixão que o público praticamente não viveu junto com eles e novela depende disso: convivência emocional. 

Química ajuda, mas sozinha não transforma casal em fenômeno e a maior prova disso é ver que a novela não é tão comentada nas redes sociais e nem nas ruas. O casal não está na boca do povo, não ditam tendência e pouco tem uma música chiclete como trilha sonora para grudar na cabeça de quem assiste. Sabe aquela sensação de ouvir uma música e pensar: “lá vem Agrado e João Raul”… A novela não tem isso.

Isabelle Drummond encontra mais camadas que a própria trama principal

Curiosamente, Isabelle Drummond acaba encontrando mais força dramática dentro da narrativa do que o próprio casal protagonista.

Naiane funciona porque Isabelle mergulha completamente na personagem. Existe intensidade, entrega e humanidade mesmo quando a novela não aprofunda totalmente suas motivações.

Além disso, Naiane ainda possui vantagem importante: está inserida também em conflitos familiares mais interessantes, o que dá mais camadas emocionais à personagem. Naiane funciona tão bem sozinha, com seu drama familiar que as armações para ficar com João Raul acabaram ficando em segundo plano.

A história do triângulo com Agrado não tem alicerce e prova disso é que a entrada de Gael na trama coloca a vilã movida por uma paixão por ele, ainda não assumida. Eles crescem como possível casal daqui para frente e isso funciona bem. 

Enquanto isso, João Raul parece preso num arco que nunca cresce de verdade, em que possui todos os elementos de um grande protagonista romântico, mas a novela nunca consegue transformar esse potencial em algo palpável. 

Os núcleos paralelos carregam o verdadeiro coração da novela

Quando Coração Acelerado se afasta da própria trama principal é que encontra seus momentos mais fortes. O núcleo formado por Leandra Leal, Daniel de Oliveira e Letícia Spiller possui exatamente o que falta ao casal principal: conflito emocional claro.

As duas irmãs apaixonadas pelo mesmo homem representam o melodrama clássico que move novelas há décadas. Existe desejo, ressentimento, interrupção amorosa e disputa emocional real entre eles.

O público sente tudo isso desde o começo da história e nesta parte as autoras capricharam no desenvolvimento e fizeram bem em aprofundar esta relação de uns tempos para cá. Não é que o núcleo ganhou força apenas porque o público reagiu positivamente, mas porque era a única história dentro da novela com posto de protagonista.

O público voltou os olhos para este triângulo porque os personagens vivem emoções visíveis o tempo inteiro. Leandra, Daniel e Letícia sustentam grandes cenas justamente porque existe material dramático sólido para eles trabalharem e confirmam, o tempo todo, que este deveria ter sido o trio central da novela.

Gabz e Naruna Costa encontram profundidade onde a novela desacelera

Naruna Costa entrega uma das atuações mais intensas de Coração Acelerado ao construir Valéria com dor, ressentimento e humanidade em cenas carregadas de emoção. Foto: Reprodução/Globo.
Naruna Costa entrega uma das atuações mais intensas de Coração Acelerado ao construir Valéria com dor, ressentimento e humanidade em cenas carregadas de emoção. Foto: Reprodução/Globo.

Outro núcleo que chama atenção é o de Eduarda e Valéria, interpretadas por Gabz e Naruna Costa. A relação entre mãe e filha foi construída devagar, sem atropelos e com progressão emocional clara. A rejeição, os traumas e os conflitos entre as duas ganham força justamente porque a novela permite que o público acompanhe esse amadurecimento aos poucos.

Naruna Costa entrega performance arrebatadora e Gabz sustenta muito bem uma personagem cheia de camadas emocionais. Mais uma vez, drama sem vergonha de ser drama, história explicada com detalhes e profundidade mais uma personagem secundária que não depende dos protagonistas ou do desenvolvimento deles para se movimentar. 

Falta acelerar justamente o coração da trama

As autoras entregam bons diálogos, cenas fortes e personagens secundários interessantes. A direção de Carlos Araújo entende o universo da novela e constrói estética coerente com aquele ambiente musical e emocional.

O problema é que o coração principal da narrativa nunca acelera de verdade. O coração não está acelerado e falta urgência emocional, paixão perceptível e conflito central capaz de mover a novela inteira.

E sem isso, Coração Acelerado funciona melhor justamente quando esquece seus protagonistas e deixa os núcleos paralelos assumirem a emoção que deveria estar no centro da história.

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