Felipe e Mau Mau ainda não são um casal. A novela não confirmou um romance, os personagens sequer chegaram perto de viver algo parecido e os autores não indicaram oficialmente esse caminho. Ainda assim, parte do público já começou a torcer pelos dois.
Isso poderia parecer precipitado. Mas não é. Na verdade, esse movimento diz muito mais sobre o momento atual da dramaturgia brasileira do que sobre os próprios personagens.
A movimentação nas redes sociais começou antes mesmo de Quem Ama Cuida estrear. Bastaram alguns capítulos inciais e os dois personagens começarem a contar suas histórias, mesmo sem contracenarem juntos e nem sequer estarem no mesmo núlceo para que espectadores passassem a criar teorias, compartilhar cenas e imaginar uma história entre Felipe, interpretado por Pietro Antonelli, e Mau Mau, vivido por João Victor Gonçalves.
E existe um motivo para isso. Depois de anos em que personagens LGBTQIA+ apareciam de forma tímida, muitas vezes restritos a núcleos paralelos ou histórias superficiais, o público passou a exigir mais. Não basta existir. Não basta aparecer. Não basta ter uma cena de impacto.
É preciso ter história. O fenômeno Loquinha em Três Graças ajudou a consolidar isso. Lorena e Juquinha não conquistaram o público apenas porque formavam um casal. Elas conquistaram porque existiam para além do romance. Tinham personalidade, conflitos, desejos, sonhos, contradições e trajetórias próprias. O amor nasceu da convivência, da troca, dos encontros e desencontros. Como acontece com os grandes casais das novelas.
O público percebe quando uma história é construída e quando ela apenas acontece. Por isso a torcida por Felipe e Mau Mau chama atenção. Ela não nasce de uma cena romântica, mas de uma expectativa.
Nasce do desejo de ver uma novela das nove continuar ampliando seus espaços de representação. E representação, vale lembrar, não é apenas colocar dois personagens LGBTQIA+ em cena.
Representação é permitir que eles vivam o primeiro interesse amoroso, a descoberta, a insegurança, o preconceito que infelizmente existe e isto não pode ser descartado, os conflitos familiares. Para além disso tudo, ainda podem viver a felicidade, os erros e finalmente a rotina.
Foi justamente isso que transformou Loquinha em um dos grandes acertos de Três Graças. O casal não dependia exclusivamente do romance para existir. Cada uma das personagens caminhava sozinha pela narrativa e, quando se encontravam, ganhavam novas camadas dramáticas.
É esse tipo de construção que o público parece pedir novamente. No caso de Mau Mau, a novela já planta sinais interessantes. O personagem vive em um ambiente onde determinados preconceitos aparecem de forma mais silenciosa, mais camuflada, mas ainda presentes. Existe nas sequências já exibidas para o público um universo rico para ser explorado e que até o momento Walcyr Carrasco e Claudia Souto conduzem muito bem.
Felipe, por sua vez, ainda está descobrindo quem é, não sobre sexualidade, mas como função dramática na novela. Sua trajetória mal começou e é justamente isso que torna a possibilidade tão interessante. Caso os autores decidam seguir por esse caminho, não seria apenas a história de um casal. Seria a história de dois jovens se descobrindo em realidades completamente diferentes.
De um lado, um rapaz cercado por privilégios e do outro, alguém que enfrenta desafios sociais distintos. A fusão desses mundos poderia render discussões sobre classe social, pertencimento, família, preconceito e identidade. Muito além de um simples romance.
Por isso a declaração de Pietro Antonelli ao Pittaplay ganha relevância. Ao dizer “Tomara que role” e admitir que já pensou em referências para construir essa relação, o ator mostra que essa conversa deixou de existir apenas entre os fãs.
Ela chegou ao elenco e isso é significativo porque demonstra que os próprios atores entendem a importância dessas narrativas e enxergam nelas oportunidades legítimas de crescimento artístico e representatividade.
Agora a decisão pertence aos autores. Felipe e Mau Mau podem nunca acontecer, mas o simples fato de o público já desejar essa história mostra mudança importante. As novelas continuam sendo um espelho do país. E cada vez mais espectadores querem se ver refletidos nele de forma completa, complexa e verdadeira.
O maior mérito dessa torcida não seja a possibilidade de um novo casal, mas o que ela revela: o público não quer mais personagens LGBTQIA+ existindo nas margens da narrativa. Quer vê-los ocupando o centro dela.
