Simplesmente eu, Clarice Lispector não é apenas um espetáculo sobre Clarice Lispector. É tentativa muito bem-sucedida de transformar em presença aquilo que, na literatura da autora, sempre pareceu existir entre a palavra e o mistério.
A escrita de Clarice habita território delicado entre pensamento, sensação e mistério. Por isso, o maior mérito de Simplesmente eu, Clarice Lispector não está apenas em levar sua obra para o teatro, mas em conseguir reproduzir no palco aquilo que Clarice provoca em seus leitores.
Beth Goulart entra em cena já grande. Não pela imponência da personagem que interpreta, mas pela presença que construiu ao longo de 16 anos dedicados ao espetáculo. Curiosamente, a reação do público não acontece de forma imediata. Não há encantamento instantâneo. Existe algo mais interessante. Aos poucos, os olhares se fixam, as respirações desaceleram e a plateia passa a habitar o mesmo espaço sensível que a atriz constrói diante de seus olhos.
Beth não busca reproduzir Clarice através da caricatura. Não existe exagero ou imitação vazia. O que surge em cena é compreensão profunda da autora, de sua musicalidade, de seus silêncios, de suas pausas e da forma particular como observava o mundo. O resultado é uma interpretação que parece nascer de dentro para fora.
O texto contribui para isso ao evitar qualquer tentativa de transformar Clarice em um exercício intelectual inacessível. Beth conversa com o público através de palavras simples, reflexões diretas e pensamentos que acolhem quem já conhece a escritora e também quem está tendo seu primeiro contato com sua obra.
Talvez o maior acerto da montagem esteja justamente aí. Existe ideia equivocada de que Clarice Lispector é uma autora destinada apenas a leitores mais experientes ou familiarizados com sua escrita. Beth Goulart desmonta esse mito sem simplificar a autora. A Clarice que surge em cena continua profunda, inquieta e complexa, mas também se revela humana, próxima e generosa. O espetáculo não traduz Clarice para o público. Faz algo mais interessante: convida o público a caminhar até ela.
A estrutura dramatúrgica também encontra caminho inteligente ao reunir Clarice e quatro de suas personagens mais emblemáticas. Joana, Ana, Lori e a mulher sem nome não aparecem apenas como figuras literárias. Elas ajudam a revelar diferentes facetas da própria autora. Criadora e criaturas passam a coexistir no palco.
E é nesse jogo que a montagem encontra uma de suas imagens mais bonitas.
O público vê Beth criadora interpretando Clarice, sua criatura. Ao mesmo tempo, vê Clarice criadora dialogando com suas próprias criaturas. É um espelhamento constante entre autora e personagens que transforma a encenação em algo maior do que uma simples adaptação literária.
Beth transita confortavelmente entre o drama, o humor e a reflexão como quem domina completamente o universo que habita. O olhar firme revela quem está em cena a cada instante. O sotaque cuidadosamente trabalhado, a modulação da voz, os gestos e a postura ajudam a construir identidades distintas sem que a narrativa perca fluidez. Ela preenche o palco por completo.
Mas talvez seja exatamente em outro lugar que a peça alcance sua maior força artística.
Beth está no palco e o espectador está sentado na plateia. Ainda assim, em muitos momentos, ambos parecem ocupar espaços diferentes. Enquanto a atriz conduz a narrativa, o público passa a viajar pelos próprios pensamentos, memórias e questionamentos. É neste ponto que a peça alcança sua maior força artística. O espetáculo não reproduz apenas textos de Clarice Lispector, mas o efeito que sua literatura provoca. Assim como acontece durante a leitura de seus livros, em diversos momentos a atenção deixa de estar exclusivamente na história para se voltar para dentro do próprio leitor. As palavras ditas no palco encontram memórias, dúvidas, afetos e reflexões pessoais de quem assiste. A experiência deixa de ser apenas teatral e se transforma em algo íntimo. Beth interpreta Clarice, mas também recria em cena a maneira como Clarice atravessa seus leitores.
O incentivo à leitura surge como consequência natural dessa experiência. O público sai do teatro com fome de Clarice. Existe vontade de abrir seus livros, reler passagens conhecidas ou descobrir aquelas que ainda permanecem desconhecidas. Poucos espetáculos conseguem despertar esse desejo com tanta força.
Existe ainda camada silenciosa que torna a experiência ainda mais contemporânea. Em nenhum momento a peça fala sobre redes sociais, tecnologia ou sobre a velocidade do mundo moderno. Ainda assim, é impossível não pensar nesses temas enquanto se assiste ao espetáculo. Ao ouvir reflexões sobre amor, presença, escuta, solidão e relações humanas, o público inevitavelmente se confronta com a falta que essas experiências fazem no cotidiano atual. Clarice não comenta diretamente o presente, mas suas palavras continuam iluminando questões que permanecem vivas décadas depois. E Beth compreende isso com enorme sensibilidade.
Mais do que contar a história de uma escritora, Simplesmente eu, Clarice Lispector reafirma a importância da literatura, da leitura e do próprio teatro como espaços de encontro. Encontro com o outro, mas principalmente consigo mesmo.
Ao final da apresentação, Beth Goulart deixa o palco, mas Clarice não. Ela continua acompanhando o espectador na volta para casa, nos pensamentos que surgem durante a madrugada e na vontade quase imediata de abrir um livro e prolongar aquele encontro.
É por isso que, 16 anos depois de sua estreia, Simplesmente eu, Clarice Lispector continue emocionando plateias. Porque não transforma Clarice em monumento nem em personagem histórica. Mantém sua literatura viva. E faz algo ainda mais incomum: transforma espectadores em futuros leitores de Clarice.
