Existem conversas que nunca acontecem, palavras que ficam presas na garganta durante anos, afetos que sobrevivem ao tempo mesmo quando ninguém encontra coragem para nomeá-los. Às vezes não falta sentimento. Falta oportunidade, escuta e tempo.
Foi nesse território que Henrique Sanchez encontrou o ponto de partida para “Aquilo Que Eu Não Disse”, espetáculo inspirado no universo literário de Caio Fernando Abreu e apresentado dentro do projeto Segunda Casa, realizado pelo Impacto Agasias Grupo de Teatro, em Heliópolis.
Mas a montagem não nasceu como adaptação direta da obra do escritor gaúcho. Pelo contrário. Ela surgiu de um encontro: “Buscava um autor da nossa comunidade que pudesse reverberar questões da sua época e que ainda pudesse ser atual”, explica o dramaturgo e diretor.
O primeiro contato aconteceu durante pesquisa desenvolvida pelo grupo em 2024. Entre leituras, exercícios e experimentações cênicas, um elemento permaneceu atravessando o processo: a relação entre uma mãe e um filho marcados por desencontros, afetos interrompidos e palavras que nunca chegaram a ser ditas. O espetáculo que o grupo montava naquele momento seguiu outro caminho, mas a semente permaneceu.
Ela voltou a florescer em 2026, enquanto o Impacto Agasias buscava formas de manter viva sua sede cultural e celebrar quinze anos de trajetória, Henrique percebeu que era o momento de retomar aquela pesquisa. Não apenas por Caio Fernando Abreu, mas pelo que suas palavras ainda provocam.
“Quando entendemos o nosso papel enquanto pessoa gay da comunidade LGBTQIAPN+, entendendo e respeitando todas aquelas e aqueles que vieram antes de nós, podemos vivenciar a obra de maneira inteira.”

A frase ajuda a compreender camada importante do espetáculo.
Embora a narrativa acompanhe o reencontro entre mãe e filho, a peça também dialoga com uma memória coletiva marcada por ausências. Ao revisitar o universo de Caio Fernando Abreu, Henrique inevitavelmente se aproxima de uma geração atravessada pela epidemia de HIV/Aids e pelos silêncios construídos ao redor da sexualidade, do medo e do preconceito.
Mais do que falar sobre a doença, porém, a montagem procura olhar para aquilo que permaneceu depois dela. As marcas, as ausências e as histórias que continuam ecoando.
Curiosamente, foi o silêncio que se tornou um dos maiores desafios do processo criativo: “Nomear sentimentos não é tarefa fácil, mas observar o que falta, preenchido por memórias, traz imagens que reverberam sentimentos e expurgam sensações.”
Durante os ensaios, Henrique percebeu que muitas respostas não estavam nas palavras. Estavam nos gestos, nos olhares, nas pausas e naquilo que acontece quando ninguém fala.
Essa descoberta acabou moldando toda a encenação. Enquanto boa parte do teatro contemporâneo busca explicações rápidas ou discursos cada vez mais explícitos, “Aquilo Que Eu Não Disse” escolhe outro caminho: o da contemplação.
Logo no início da montagem, uma sequência de aproximadamente cinco minutos acontece sem uma única palavra. Para Henrique, não se trata de provocação gratuita, mas de convite para que o público desacelere e observe: “O teatro é a arte do encontro. É a arte que permite desconectar do mundo de fora para se conectar com o mundo de dentro.”
Essa escolha também aparece na direção. Em vez de quebrar a quarta parede ou estabelecer relação direta com a plateia, Henrique prefere transformar o espectador em testemunha silenciosa daquela intimidade: “Minha proposta é que o público se sinta observando pelo buraco da fechadura a relação dessa mãe e desse filho.”
O resultado é um espetáculo construído a partir de pequenas tensões emocionais. Uma obra que não busca respostas fáceis e que entende que algumas das questões mais importantes da vida raramente encontram soluções definitivas.
Ao final da conversa, Henrique resume em uma única pergunta aquilo que espera provocar em quem assiste à peça: “Quais são as palavras não ditas que você guarda no coração, que permitiria dizer, sem julgamento e sem culpa?”
É essa a pergunta que permanece depois que as luzes se apagam. Porque algumas histórias terminam no palco, mas outras continuam ecoando dentro de quem as assiste.
