Existe preconceito que começa, aos poucos, a desaparecer da dramaturgia brasileira: o de que uma novela vertical, por ter capítulos de poucos minutos, precisa necessariamente abrir mão da profundidade dramática. Onde Está a Boiadeira? demonstra justamente o contrário. E boa parte dessa transformação passa pela atuação de Duda Batsow.
Criada especialmente para o spin-off de Coração Acelerado, Letícia não existe na novela das sete. A personagem nasce exclusivamente para o microdrama escrito por Paula Amaral, baseado na obra de Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento. Em apenas vinte capítulos, a produção acompanha o desaparecimento da cantora Ana Castela após acidente misterioso durante uma viagem com Gael (André Luiz Frambach), mergulhando em narrativa de suspense que funciona de forma independente da trama exibida na televisão.
Nesse universo, Letícia ocupa espaço decisivo. Ex-namorada de Gael, ela transforma a rejeição em obsessão e passa a perseguir a mulher que ocupa o lugar que acredita ainda lhe pertencer. Seria fácil transformar essa vilã em caricatura. Duda escolhe uma composição mais delicada e fora da superficialidade.
Sua interpretação jamais se apoia apenas nos surtos ou na instabilidade emocional. Além de revelar uma mulher descontrolada, a atriz constrói alguém profundamente ferida. O desequilíbrio surge como consequência de trajetória emocional cuidadosamente desenhada. É composição construída nos pequenos gestos, nos olhares, nas pausas e na forma como Letícia ocupa cada ambiente. As cenas de flashback ajuda a construir esta percepção.
As sequências de perseguição na mata representam o auge desse trabalho. Quando a personagem finalmente revela toda sua obsessão, Duda entrega atuação intensa sem perder o controle técnico. Não existe exagero gratuito, mas estudo de personagem e compreensão da gênese daquela mulher. A atriz parece menos preocupada em interpretar uma vilã e mais interessada em compreender por que Letícia chegou até ali.
Não é a primeira vez que Duda demonstra essa maturidade dramática. Em Todas as Flores, escrita por João Emanuel Carneiro, primeira novela original do Globoplay, ela viveu Jéssica, jovem vítima de organização criminosa responsável pelo tráfico de pessoas e exploração reprodutiva. Era personagem completamente diferente. Enquanto Letícia reage à dor transformando-a em obsessão, Jéssica sobrevivia justamente sendo esmagada por ela. Uma era vítima e a outra se torna ameaça. E, ainda assim, ambas carregam verdade emocional que deixa o telespectador entusiasmado.
Essa capacidade de desaparecer dentro de personagens tão distintas revela uma atriz que compreende que atuação não começa no texto, mas na construção humana de quem está sendo interpretado.
A evolução da novela vertical
Ao mesmo tempo, Onde Está a Boiadeira? também sinaliza evolução importante do próprio Globoplay. As novelas verticais deixaram de ser tratadas apenas como conteúdos rápidos para celular. A direção geral de Thiago Valente e a direção artística de Carlos Araújo demonstram preocupação com fotografia, atmosfera, suspense e condução dramática. O texto de Paula Amaral acompanha esse movimento ao compreender que capítulos curtos não impedem personagens complexos. Apenas exigem uma narrativa mais precisa.
Talvez esse seja o maior mérito dessa nova fase dos microdramas. O formato continua rápido, mas já não parece apressado. Existe tempo para construir personagens, desenvolver conflitos e permitir que atores encontrem nuances e Duda Batsow aproveita esse espaço com toda garra. Letícia nasce como excelente vilã para uma novela vertical, mas termina deixando outra impressão: a de que sua intensidade caberia facilmente em uma grande novela, no formato tradicional. A sensação também é de que a personagem poderia caminhar na contramão do spin-off e saltar pra novela horizontal nesta reta final, para prejudicar Gael, dar mais complexidade para esta trama e fortalecer os capítulos decisivos da novela das 19h.
Se esse é o nível de aprofundamento que uma atriz consegue entregar em capítulos de três minutos, fica difícil não imaginar até onde ela pode chegar quando a dramaturgia lhe oferecer ainda mais tempo para existir.
