Marcelo D’Salete: revisitar o passado é uma forma de compreender o Brasil de hoje

Indicado ao Harvey Awards por Mukanda Tiodora, Marcelo D'Salete fala ao Pittaplay sobre memória, escravidão, criação artística e a importância de revisitar a história negra brasileira. Foto: (Foto: Reprodução/ Veneta IG).

Foto: Reprodução/ Veneta IG

A indicação de Mukanda Tiodora ao Harvey Awards 2026, uma das premiações mais importantes da indústria mundial dos quadrinhos, representa mais um reconhecimento internacional para a trajetória de Marcelo D’Salete. Depois de conquistar prêmios como Eisner, Jabuti, HQMIX e Rudolph Dirks Award, o autor brasileiro volta a ter sua obra projetada para além das fronteiras do país. Mas, para D’Salete, a relevância de Mukanda Tiodora ultrapassa qualquer premiação. O livro nasce da necessidade de revisitar um passado que continua atravessando o presente brasileiro.

Inspirada nas cartas reais escritas por Tiodora Dias da Cunha, mulher negra escravizada que viveu em São Paulo por volta de 1860, a obra reconstrói um período pouco explorado da história brasileira. Ao Pittaplay, o quadrinista explica que o desafio nunca foi preencher lacunas livremente, mas estabelecer um diálogo responsável entre documento histórico, imaginação e linguagem artística.

“As cartas têm essas pistas. Elas apresentam os personagens principais e, de certo modo, fazem a gente imaginar um pouco sobre a Tiodora em primeira pessoa, porque é ela falando sobre si, sobre seus sonhos e seus anseios. A narrativa é uma ficção, mas uma ficção que se propõe a se aproximar do que pode ter sido a realidade da Tiodora e também da cidade de São Paulo escravista naquele momento”.

Para Marcelo, a pesquisa não serve apenas para reconstruir uma personagem, mas para compreender uma cidade cuja memória foi, durante décadas, simplificada por uma narrativa oficial: “O livro é uma tentativa de imaginar e traçar os contornos dessa cidade escravista para tentar entender a história da Tiodora, mas também do Brasil naquele momento”.

A arte encontra aquilo que os arquivos silenciam

Marcelo D'Salete fala sobre memória e Mukanda Tiodora
Marcelo D’Salete fala sobre memória e Mukanda Tiodora.

Grande parte da documentação sobre pessoas escravizadas chegou aos dias atuais por meio de registros produzidos por instituições repressivas. Esse aspecto, segundo D’Salete, exige que a arte encontre outros caminhos para compreender a experiência humana escondida nesses documentos.

“Esses registros vêm dentro de um contexto de instituições repressivas, muitas vezes cheias de violência implícita ou explícita. Por outro lado, são uma das poucas ferramentas para compreender aquele período”.

É nesse ponto que os quadrinhos assumem um papel decisivo: “Pela poesia e pela arte é possível procurar os vãos, as frestas, para achar outros caminhos possíveis para os leitores de hoje também”.

Essa busca atravessa toda a construção de Mukanda Tiodora. Em vez de transformar a violência da escravidão em espetáculo, o autor procura devolver humanidade às pessoas que viveram esse período.

“A gente aprende por esses documentos que havia uma agência dessas pessoas. Havia uma vontade de constituir família, de estar próximo dos seus, de participar de celebrações, de construir quilombos e mocambos. Tudo isso mostra sua individualidade e sua ação coletiva em busca de uma vida digna”.

O passado continua fazendo perguntas ao presente

Embora ambientado na década de 1860, Mukanda Tiodora dialoga diretamente com questões contemporâneas. Para Marcelo D’Salete, compreender esse passado significa compreender também a formação da sociedade brasileira: “O livro foi uma oportunidade de conhecer mais sobre uma história negra em São Paulo que sempre foi escamoteada por uma narrativa que privilegiou outros processos históricos”.

Ele lembra que, antes das grandes ondas migratórias do fim do século XIX, São Paulo já possuía uma forte presença negra e indígena: “É importante entender que isso existiu em São Paulo e foi a base para tudo o que veio depois. Não existe apenas uma história da imigração. Antes disso já havia uma cidade constituída, com uma participação negra muito forte”.

É justamente essa dimensão que, para ele, explica a importância da circulação internacional de seus livros: “Aprender com essas narrativas e trazer para primeiro plano a vida dessas pessoas é importantíssimo para entender o Brasil, São Paulo e também a experiência afrodiaspórica na América como um todo. Daí a importância desses livros serem publicados em outros países e também de indicações como essa do Harvey”.

O tempo da criação não é o tempo do mercado

Conhecido pelo longo processo de pesquisa e produção de seus livros, Marcelo D’Salete afirma que nunca permitiu que a velocidade do mercado editorial determinasse seu ritmo de trabalho: “O tempo de criação de um livro é complexo. Existe um tempo de pesquisa, de leitura, de releitura, de conhecer autores, de pensar nas possibilidades da história em quadrinhos”.

Professor universitário, ele divide sua rotina entre a sala de aula e a produção artística, conciliando duas atividades que considera igualmente importantes: “Eu tento não pensar muito na questão do mercado. O tempo das editoras é diferente do tempo do artista. Consigo fazer um quadrinho novo a cada três, quatro ou cinco anos. Já tentei fazer em menos tempo, mas vi que é difícil. A gente precisa respeitar nosso método enquanto artista”.

Para ele, revisar páginas, reescrever, cortar e acrescentar elementos faz parte da própria essência da criação: “Poder deixar as páginas descansarem, rever mais uma vez, modificar, acrescentar e cortar é parte essencial do trabalho”.

Os quadrinhos como linguagem de liberdade

Ao falar sobre sua escolha pelos quadrinhos, Marcelo estabelece comparação curiosa com o cinema e a literatura. Enquanto um filme exige grandes equipes e altos orçamentos, os quadrinhos preservam uma autonomia que considera fundamental.

“O quadrinho se aproxima mais da literatura porque pode ser feito por uma, duas ou três pessoas. Isso é algo extremamente bonito em termos de possibilidade de criação e de autonomia artística”

Essa liberdade criativa faz com que ele defina a linguagem de maneira bastante particular: “É uma forma quase punk rock. ‘Do yourself’. Algo quase anárquico em termos de possibilidade de criação e de uma visão pessoal sobre a história e sobre o mundo”.

É por isso que sua obra continue despertando interesse dentro e fora do Brasil. Mais do que recuperar personagens esquecidos pela narrativa oficial, Marcelo D’Salete utiliza os quadrinhos para devolver complexidade à memória coletiva. Em Mukanda Tiodora, o passado deixa de ser apenas objeto de contemplação histórica e passa a funcionar como instrumento para compreender o presente e imaginar um futuro onde essas histórias deixem de ocupar as margens da memória nacional.

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