Lucas Duarte faz do leitor mais um passageiro de Trem para Barrymore

Lucas Duarte fala ao Pittaplay sobre Trem para Barrymore, a construção dos 13 passageiros, o narrador misterioso e o jogo de pistas do thriller.

Foto: Arquivo Pessoal

Entrar em Trem para Barrymore significa aceitar uma regra antes mesmo de descobrir exatamente para onde a viagem levará. Existe alguém contando a história, mas sua identidade permanece escondida. Ele será o Passageiro Número 1. Quem abre o livro recebe outra função: Passageiro Número 2. A partir daí, Lucas Duarte estabelece uma relação em que autor, narrador e leitor avançam por uma história construída sobre desconfiança.

A ideia parte de uma situação conhecida pelo escritor e assumidamente querida por ele: personagens confinados no mesmo ambiente com um assassino. Lucas, porém, queria encontrar dentro desse clichê espaço para investigar aquilo que acontece com essas pessoas conforme o medo, o isolamento e a necessidade de sobrevivência começam a pressioná-las.

“Profundidade, acho que esse é um fator surpresa que está presente na história em vários sentidos. Queremos ver como essas pessoas são por dentro, até onde elas podem chegar quando começam a enlouquecer dentro daquele trem devido às circunstâncias”, conta em entrevista ao Pittaplay.

A própria geografia da história ajuda a construir essa sensação. O trem está parado no meio do nada, enquanto um abismo permanece ao lado dos personagens. A imobilidade física convive com a impressão de que todos continuam descendo, seja pelo que começam a revelar sobre si, seja pelo mistério que existe no fundo daquela enorme fossa: “Parti dessa angústia pelo desconhecido para criar a trama, e acho que funcionou”, afirma o autor.

13 passageiros precisam ser mais do que possíveis vítimas

O desafio cresce com a quantidade de personagens. São 13 desconhecidos embarcando juntos e, dentro de uma narrativa de terror, o número de passageiros progressivamente se transforma em uma contagem de corpos. Para Lucas, fazer com que o público se importasse individualmente com aquelas pessoas era fundamental para que as mortes carregassem alguma consequência.

Cada passageiro recebeu uma história e características capazes de diferenciá-lo. O trabalho ganhou força durante a edição, quando o autor percebeu a necessidade de organizar melhor o conjunto e, como define, “desembaralhar o emaranhado de ‘vítimas’ e torná-las pessoas”.

A escolha pela terceira pessoa também nasceu dessa estrutura. Os capítulos conseguem se aproximar de diferentes passageiros, permitindo que suspeitos e possíveis vítimas ocupem temporariamente o centro da narrativa: “Como cada personagem tem sua pontinha de protagonismo em algum momento, é importante saber que absolutamente ninguém está a salvo”, explica.

Nem mesmo Lucas decidiu imediatamente quem chegaria vivo às últimas páginas. Durante a escrita, experimentou diferentes possibilidades e permitiu que a identidade do sobrevivente surgisse conforme a própria história avançava. A incerteza que pretendia provocar no público, em determinado momento, também passou a acompanhá-lo.

O leitor também precisa decidir em quem confiar

A relação mais particular de Trem para Barrymore acontece entre o narrador e quem lê. O Passageiro Número 1 se dirige diretamente ao Passageiro Número 2 e propõe uma espécie de pacto: nenhum deles precisa revelar quem realmente é.

Lucas utiliza esse acordo para sustentar a desconfiança sem transformar o mistério em armadilha sem regras. Narrador e leitor entram juntos no jogo de gato e rato e, inicialmente, podem acreditar que ocupam o mesmo lado daquela história: “Você não conta sobre você, ele não conta dele”, resume o escritor.

A identidade escondida, evidentemente, mantém uma ameaça sobre essa relação. O Passageiro Número 1 pode saber mais do que demonstra e existe até a possibilidade de que a confiança depositada nele cobre um preço. Para Lucas, aceitar esse risco faz parte da experiência: dentro daquele trem, faltam alternativas melhores em quem confiar.

O assassino também está escrevendo uma história

O jogo narrativo ganha outra dimensão com o Contador de Histórias, nome dado ao responsável pelas mortes. O vilão deixa bilhetes ameaçadores escritos como capítulos, que avançam paralelamente ao próprio livro.

A metalinguagem passa a fazer parte da investigação e para descobrir quem está por trás dos crimes, o leitor precisa compreender a história que o assassino está construindo e procurar nos passageiros os comportamentos que podem revelar aquilo que tentam esconder.

Lucas estabeleceu uma regra para que as revelações pudessem surpreender sem romper o jogo proposto: os deslizes dos personagens precisam nascer de seus segredos: “Você entende a história que está sendo contada pelo vilão, então você entende a mente do vilão e, por último, vai perceber quem no trem está fingindo ser alguém que não é”, explica.

Assim, solucionar o mistério depende também de observar pessoas. Mentiras, escolhas e comportamentos tornam-se pistas, e o leitor ocupa uma posição ativa enquanto tenta separar aquilo que os passageiros mostram daquilo que procuram esconder.

Uma borboleta pode mudar quem chega vivo ao final

Lucas Duarte fala ao Pittaplay sobre Trem para Barrymore, a construção dos 13 passageiros, o narrador misterioso e o jogo de pistas do thriller.
Lucas Duarte fala ao Pittaplay sobre Trem para Barrymore, a construção dos 13 passageiros, o narrador misterioso e o jogo de pistas do thriller.

O efeito borboleta atravessa Trem para Barrymore desde o encontro improvável daqueles 13 desconhecidos. Pequenas decisões podem desencadear consequências muito maiores, enquanto a própria imagem da borboleta aparece materialmente na narrativa: uma das personagens guarda borboletas mortas entre seus pertences, e elas retornam em momentos específicos como sinal de que alguma coisa ruim se aproxima.

A ideia também interferiu no processo de Lucas como escritor. Conforme imaginava diferentes caminhos para os personagens, começaram a surgir perguntas sobre o que aconteceria caso determinada escolha fosse alterada.

O envolvimento chegou ao ponto de modificar possibilidades para o desfecho. Lucas conta que discutiu as últimas páginas com seus editores enquanto ainda enfrentava dúvidas sobre decisões importantes: “Comecei a imaginar finais alternativos para cada figura que habitou dentro do Trem para Barrymore”, relembra.

Fugir também pode levar alguém diretamente ao perigo

Os passageiros compram suas passagens tentando deixar uma metrópole em crise. A promessa de deslocamento, entretanto, é interrompida quando o trem quebra e todos permanecem paralisados.

É a partir dessa imobilidade que a fuga ganha outro significado para Lucas. O movimento deixa de depender dos trilhos e passa para os próprios personagens. Esquecimento, abandono, liberdade e a dificuldade de escapar daquilo que os acompanha passam a dividir espaço com os assassinatos e o mistério.

Algumas das imagens preferidas do autor acontecem quando personagens se sentam sobre o trem diante do abismo e se perguntam onde termina aquela queda. A pergunta parece se referir à paisagem, mas também carrega suas angústias: “Os leitores de Trem para Barrymore vão descobrir que o destino e a partida são meros coadjuvantes, e que tudo o que temos está no caminho”, afirma.

Lucas também precisou se perder para encontrar o final

Construir um thriller exige administrar informações que os personagens e o público ainda desconhecem. Lucas tinha planejamento, mas preferiu não transformar esse planejamento em uma estrutura imutável.

A identidade do assassino, a relevância dos passageiros e até quem conseguiria escapar foram sendo definidas durante a escrita. O autor chegou a apagar capítulos inteiros quando pequenas mudanças alteraram o caminho que imaginava seguir: “Com certeza eu me perdi algumas vezes, e não tenho medo de admitir isso”, conta.

Existe uma ironia nesse processo. Enquanto tenta esconder informações de quem lê, Lucas admite ter vontade de revelar rapidamente aquilo que inventou para descobrir como o público reagirá. Escrever o mistério também significou tentar olhar para o próprio quebra-cabeça como alguém que desconhecesse sua solução, embora o autor reconheça a impossibilidade de se afastar completamente daquilo que já sabe.

No fim dessa viagem, entretanto, descobrir o assassino resolve apenas uma parte de Trem para Barrymore. Lucas espera que, depois do sangue, das charadas e das revelações, permaneçam perguntas sobre pessoas tentando encontrar um caminho em um mundo que constantemente parece ameaçá-las.

O abismo que acompanha os passageiros durante a história assume então seu sentido mais amplo. Ele pode estar ao lado dos trilhos, dentro de cada personagem ou diante de quem lê.

Lucas Duarte transforma o leitor em Passageiro Número 2 porque quer colocá-lo dentro dessa incerteza. O destino importa menos do que aquilo que será descoberto no percurso. Em Trem para Barrymore, embarcar significa aceitar que ninguém sabe exatamente quem chegará ao fim e que, antes da última estação, até quem lê pode descobrir que confiou na pessoa errada.

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