Muito além do suspense: Renan Monteiro apresenta o homem por trás de Gaspar em Antártida

Renan Monteiro revela os bastidores da preparação para viver Gaspar em Antártida, fala sobre representatividade, pesquisa científica e sua filosofia como ator. Foto: Fábio Rocha/Globo

Foto: Fábio Rocha/Globo

Quando o público assistir a Antártida, novo longa dos Estúdios Globo com estreia prevista para este ano, encontrará um suspense ambientado em um dos lugares mais inóspitos do planeta. Mas, para Renan Monteiro, existe um elemento da história que vai além do mistério e da investigação policial: a oportunidade de apresentar um cientista brasileiro e negro como protagonista de uma narrativa marcada por inteligência, humanidade e superação.

Criado por Claudia Jouvin e dirigido por Bruno Safadi, Antártida reúne nomes como Andrea Beltrão, Lázaro Ramos, Antônio Calloni, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa e Mariana Sena. Na trama, Renan interpreta Gaspar, pesquisador responsável pelos estudos de fenômenos climáticos na estação brasileira instalada no continente gelado.

Para construir o personagem, o ator mergulhou em preparação que aproximou elenco e equipe da realidade vivida pelos profissionais que trabalham na Antártida: “O processo de pesquisa foi intenso. Tivemos alguns encontros com um cientista que trabalhou por muitos anos nessa estação brasileira na Antártida. Fomos descobrindo esse processo juntos, equipe, elenco e direção. Assistimos alguns filmes e tivemos uma preparação árdua, porém gostosa”, conta.

Mais do que compreender os aspectos técnicos da profissão, Renan buscou entender quem era o homem por trás do cientista. Para ele, Gaspar representa uma figura ainda pouco vista no audiovisual brasileiro: “Vamos poder assistir e conhecer um cientista negro e brasileiro. Um cara inteligente, humano e carismático. Uma pessoa de origem simples que, através da educação, rompeu barreiras. Uma inspiração para jovens brasileiros que sonham ser cientistas”.

A fala evidencia uma dimensão que ultrapassa a narrativa policial do longa. Em cenário cinematográfico onde cientistas costumam aparecer associados a estereótipos já conhecidos, Gaspar surge como personagem construído a partir da competência profissional, da sensibilidade e da trajetória pessoal, ampliando as possibilidades de representação dentro do cinema nacional.

A Antártida também conta a história

Em Antártida, o isolamento da base brasileira não funciona apenas como pano de fundo para o suspense. Segundo Renan, o próprio continente se torna parte ativa da narrativa: “O espaço da narrativa é, sem dúvida, um personagem e muito relevante para a história. O continente gelado é imprevisível. Estar isolado no frio e diante de um suspense não é fácil. Um excelente exercício de ator”.

A declaração dialoga diretamente com a proposta do filme, que utiliza a produção virtual para recriar o ambiente extremo da Antártida dentro do maior estúdio permanente de produção virtual da América Latina. O resultado promete transformar o espaço em um elemento dramático permanente, intensificando a sensação de isolamento, tensão e perigo vivida pelos personagens.

Um ator movido pelo ofício

Com trabalhos simultâneos na televisão, no streaming e agora no cinema, Renan afirma que a mudança de linguagem não altera aquilo que considera essencial em seu processo de criação: “Meu preparo parte sempre de dentro para fora. Parte da minha alma, da minha mente e do meu corpo. E assim é entregue ao espectador, tudo com muita verdade”.

Depois de mais de três décadas dedicadas à atuação, o artista vê essa diversidade de projetos como consequência de uma trajetória construída com dedicação: “Poder transitar no cinema, no streaming e na TV aberta é um presente para quem se dedica há anos à arte”.

Esse pensamento também explica a maneira como encara cada novo personagem. Para Renan, não existe uma fórmula para apagar completamente um papel antes do próximo trabalho: “Os personagens são figuras escritas num papel baseadas nas emoções humanas. Sempre deixarão marcas e aprendizados. Mas, assim como deixo ele vir, também deixo ele ir. É sempre um processo de chegada e partida”.

Em Antártida,cercado pelo frio extremo, pelo isolamento e pelo suspense, Gaspar promete revelar não apenas um cientista em busca de respostas, mas um homem cuja inteligência e humanidade podem se tornar uma das grandes forças do longa.

Do cangaço ao continente gelado: personagens que desafiam o ator

Em A Nobreza do Amor, a preocupação foi construir um líder que fosse além da figura tradicional do cangaceiro. Foto: Arquivo Pessoal.
Em A Nobreza do Amor, a preocupação do ator foi construir um líder que fosse além da figura tradicional do cangaceiro. Foto: Arquivo Pessoal.

Embora Gaspar represente um novo desafio em sua trajetória, Renan enxerga um ponto em comum entre ele e outros personagens recentes, como Belarmino, de A Nobreza do Amor, e Raoni, de Arcanjo Renegado. Para o ator, são figuras que o obrigam a mergulhar profundamente na condição humana: “Gosto de personagens desafiadores, fortes e intensos. Pois assim é a vida, desafiadora, intensa e forte. A arte não pode ser diferente porque sem ela a vida só não basta”

Essa busca por personagens complexos acompanha sua carreira há décadas. Em Arcanjo Renegado, por exemplo, Raoni o levou a refletir sobre os dilemas de um policial inserido em um contexto de violência: “Tudo nele é inquietante, ser um policial não deve ser fácil. Então me emprestei ali para ele e assim pude vivenciar seus amores, seus medos, suas angústias e suas escolhas. Um personagem bastante profundo”.

Já em A Nobreza do Amor, a preocupação foi construir um líder que fosse além da figura tradicional do cangaceiro: “Meu desafio é sempre humanizar os personagens. Todo ser humano é complexo por natureza. O capitão Belarmino é capitão e líder e não precisa de reafirmação. Basta ser e estar presente”.

Para o ator, Belarmino nunca poderia existir isoladamente. Sua liderança nasce justamente da relação construída com o restante do grupo de cangaceiros: “Minha preocupação em cena era viver em comunhão com os outros atores do cangaço. Que os personagens fossem como uma família. Criei um Belarmino coletivo, real e divertido”.

Renan também disse acreditar que os personagens escolhem o ator: “Quando o diretor escala esse ator é porque nesse ator mora o personagem. Então fiz do meu corpo, alma e voz morada do Belarmino”

Depois de mais de trinta anos dedicados à arte, Renan continua buscando personagens que o desafiem. Para ele, o ofício sempre começa do mesmo lugar: da humanidade de quem interpreta. Em Antártida, essa filosofia encontra um novo território, um continente marcado pelo isolamento, pelo suspense e pela ciência.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *