Foto: Sérgio Santoian
Antes de existir Bruno, Matheus ou um palco para contar essa história, existiu uma experiência real. Um relacionamento que começou em um aplicativo, deveria ser apenas um encontro casual, transformou-se em namoro, permaneceu escondido e terminou de maneira dolorosa. Foi tentando compreender o que havia vivido que Hermes Carpes começou a encontrar aquilo que, mais tarde, se transformaria em Meu Garoto.
Escrita e dirigida por Hermes, que também interpreta Bruno, a peça acompanha o relacionamento entre um homem mais velho e Matheus, jovem que transforma sua rotina. A diferença de idade está diante do público, mas funciona apenas como uma das camadas de relação atravessada por desejo, expectativas, mentiras, inseguranças, projeções e acordos quebrados.
Em entrevista ao Pittaplay, Hermes revela que a dramaturgia nasceu quando sua própria posição dentro das relações mudou.
Da experiência pessoal para o palco
Durante boa parte da vida, Hermes havia se relacionado com homens mais velhos. Quando passou a ocupar o outro lugar dessa diferença geracional, começou também a se questionar de outra maneira.
“Meu Garoto surgiu após um término muito bruto que aconteceu comigo. Sempre fui o cara que me relacionava com pessoas mais velhas que eu, uns 10… 20 anos. Mas quando a chave virou e me tornei o cara mais velho numa relação com alguém mais novo, eu mesmo comecei a me cobrar mais. Como a maioria dos relacionamentos hoje, este também começou num aplicativo de namoro. E o que era pra ser apenas uma transa virou um namoro escondido de todos por falta de coragem e insegurança vindo da outra pessoa. Mesmo assim eu aceitei e me entreguei como se fosse a minha última oportunidade de ser feliz”.
Depois do término, a tentativa de encontrar respostas saiu da experiência individual e chegou às redes sociais. Hermes começou a perguntar a outras pessoas sobre relacionamentos atravessados por diferenças de idade e descobriu histórias muito diferentes entre si, mas também encontrou experiências semelhantes à sua.
“Quando houve o término, por questões que eu não conseguia entender na época, fiz pesquisa nas redes sociais perguntando sobre relações com diferenças de idades e recebi muitas histórias incríveis, tanto de sucesso, mas também muitas histórias que pareciam um paraíso no início, mas que no final foi devastador assim como acabou o meu. Então entendi que o erro não tinha sido só meu e me ajudou a me auto perdoar”.
Foi dessa investigação que Bruno começou a nascer: “Comecei a colocar tudo no papel e isto foi terapêutico. Consegui transformar minha dor na dor do Bruno e de todas as pessoas que me confiaram suas intimidades. O resultado é um espetáculo que foge dos clichês românticos, mas ao mesmo tempo mergulha em todos os clichês possíveis, pois quem nunca sofreu por amor”.
O dramaturgo diz ainda que quis fazer um espetáculo que mostrasse para as pessoas que por mais difícil que tenha sido a perda, sempre vale a pena enxugar as lágrimas, levantar a cabeça e recomeçar a vida de uma forma muito melhor e “que sempre existe esperança e que amar sempre vale a pena. Sempre vale recomeçar se preciso. E é maravilhoso ouvir do público no final do espetáculo: ‘Você contou minha história!’”
A diferença de idade não é o principal conflito
Bruno e Matheus pertencem a gerações diferentes, mas Hermes não construiu a dramaturgia interessado em transformar essa distância no grande problema da relação. Para ele, existem questões mais complexas em jogo: “Em momento algum a diferença de idade deles é o conflito principal. Isso pode tornar a relação mais engraçada e de descoberta para ambos os lados. O problema principal deles são as mentiras e os acordos quebrados. O espetáculo questiona até que ponto o amor deles vai ser forte o suficiente para aguentar todas as inseguranças, medos e cobranças que são impostas pela sociedade, pela família e principalmente por nós mesmos a fim de sermos aceitos por todos”.
A discussão leva a peça também para um terreno delicado das relações: a distância entre amar alguém e amar aquilo que construímos mentalmente sobre essa pessoa. Hermes reconhece que desejo e sentimento estão profundamente misturados na relação dos personagens: “Como o Matheus fala: um ‘eu te amo’ até pode ser falso, mas uma ereção é sempre verdadeira. Ou não (desde que inventaram os medicamentos pra isso). É nítido que na relação deles tem muito amor e principalmente muito tesão envolvido que durante todo o tempo que ficou escondido entre quatro paredes. Mas com certeza a relação que o Bruno projetou em relação ao Matheus fugia totalmente do que o Matheus esperava”.
Para o dramaturgo, existe ainda dificuldade essencial: compreender exatamente aquilo que o outro espera de nós: “Como saber o que as pessoas esperam de nós? Mesmo com muito diálogo, nem sempre a gente consegue se entender. Mas acredito ainda que o diálogo é o melhor caminho. Grandes clássicos da dramaturgia surgiram a partir da falta de compreensão sobre o outro. Se o Paco tivesse emprestado o sapato pro Tonho, não teríamos o maravilhoso Dois Perdidos Numa Noite Suja. Se Julieta tivesse convencido o pai do amor que ela sentia, ela e o Romeu não teriam morrido”.
E Hermes leva o raciocínio para dentro da própria peça: “Será que se o Matheus tivesse sido honesto desde o primeiro dia com o Bruno, nós teríamos o espetáculo Meu Garoto? Será que se todas as pessoas tivessem a resposta certa sobre relacionamentos o espetáculo seria o grande sucesso que está sendo? Hoje em dia as pessoas estão mais interessadas em espetáculos onde elas conseguem se enxergar na história. Mas com certeza o Matheus que o Bruno criou na sua cabeça é bem melhor que o real”.
Quem manipula quem?
Uma relação com grande diferença de idade também pode levar o espectador a tentar estabelecer imediatamente quem possui mais poder, quem está vulnerável e quem manipula. Meu Garoto, porém, não oferece uma divisão tão confortável.
“O que acontece entre quatro paredes, causa dúvidas e certezas em todo mundo. Mas no caso deles, ambos têm muito poder sobre o outro. E ao mesmo tempo ambos se submetem a muita coisa por este relacionamento. Se me perguntar quem tem mais poder sobre o outro, Bruno ou Matheus, eu não saberia responder”.
A ausência de uma resposta definitiva faz parte da proposta: “E tenho certeza que esta dúvida será material de muita conversa entre o público depois da peça. A grande pergunta é quem manipula quem?”
Essa complexidade também impede Hermes de tratar Bruno como vítima absoluta da relação apenas porque conhece profundamente aquilo que motivou suas atitudes: “Com certeza não defendo o Bruno. Ele faz muita merda. Meu Deus, eu penso: Cara, para de fazer isso. Você vai afastar este garoto. Mas assim como eu não ouvi meus amigos na época, o Bruno também não me ouve. (risos)”.
Para ele, interpretar o personagem significa permitir que suas imperfeições permaneçam visíveis: “O mais gostoso de interpretar o Bruno é fazer ele com todas suas imperfeições. Não julgo, pois ele ama do jeito dele. E também não julgo o Matheus, as decisões que ele tomou, talvez fossem certas pra ele na época. Talvez se a história fosse hoje, ela seria bem diferente”.
Depois de 40 anos de carreira, Bruno ainda desafia Hermes
Escrever e dirigir Meu Garoto já colocaria Hermes muito próximo dessa história. Interpretar Bruno acrescenta outra camada ao processo. Mesmo depois de quatro décadas de carreira e mais de 80 espetáculos, ele considera esse seu personagem mais complexo: “Bruno é o personagem mais rico e complexo que já fiz em toda minha vida. E olha que já faço isso há 40 anos e tenho mais de 80 espetáculos no currículo”.
A própria dinâmica do elenco contribui para que Bruno permaneça vivo em cena. Camilo Guadalupe e Murilo Moraes se alternam no papel de Matheus, e Hermes deu liberdade para que cada ator construísse sua própria versão do personagem.
“Durante todo o processo de ensaio houve muito diálogo com meus parceiros de cena. E dei muita liberdade para o Camilo Guadalupe e para o Murilo Moraes de cada um criar o seu próprio Matheus. Este é um dos grandes acertos do espetáculo. O elenco. Eu precisava de um ator excelente, pois o personagem do Matheus é muito complexo. Mas pela descrição do personagem, ele precisava ser jovem. Então a procura foi árdua por mais de um ano fazendo testes”.
O problema foi resolvido de maneira inesperada: Hermes encontrou não um, mas dois atores: “E dei muita sorte de encontrar dois jovens e talentosos atores como eles. Eles são tão bons que não consegui escolher somente um. Então a cada noite temos um Matheus diferente. Mesmo sendo o mesmo texto e mesma marcação, cada dia tenho um Matheus com personalidade diferente e isso traz para o Bruno um frescor e uma resposta diferente”.
É a confiança nos parceiros que permite que, no palco, Hermes deixe momentaneamente de ser o homem responsável pelo texto e pela direção: “Então eu só preciso me preocupar na verdade em que cada um vai causar em mim. Me sinto tão seguro com eles, que posso desligar o modo diretor e autor e me jogar nos sentimentos que o ator precisa passar. E eu não poupo o Bruno de nada, nem protejo ele, apenas deixo ele ser real. Ele não está certo o tempo todo. Muito pelo contrário. O Bruno tem muitos defeitos e qualidades… assim como eu, você e todos que me mandaram suas histórias. E eu só preciso me deliciar com tudo o que ele faz”.
Quando a mentira atravessa aquilo que foi verdadeiro
A presença das mentiras coloca outra pergunta diante dos personagens: quando descobrimos que uma relação foi construída também sobre ilusões, aquilo que sentimos deixa de ter sido verdadeiro?
Hermes não acredita que a resposta seja simples: “Às vezes nos ensaios, um dos meninos para e me fala: ‘Como você era otário! Como você acreditou nisso??’. Eu só respondo: ‘Se eu soubesse a resposta na época, não estaríamos fazendo este espetáculo agora.’ Quem vê de fora tem uma visão muito melhor do que quem está vivendo tudo dentro do relacionamento”.
Apesar de tudo aquilo que viveu e posteriormente transformou em dramaturgia, ele ainda acredita na possibilidade de reconstrução: “Acredito que mesmo com mentiras, se o amor é real, ainda dá pra salvar. Mas aí só vai dar certo se os dois realmente quiserem. Uma coisa que levo pra vida é não deixar tudo o que aconteceu comigo ou com o Bruno atrapalhar meu relacionamento atual. Eu entendi que cada pessoa é uma pessoa. E que o que passamos vire um ensinamento e não um trauma. Mas acredito que os medos do Matheus eram maiores que o amor e isso é muito prejudicial para qualquer relação”.
Da perfeição das redes sociais para a verdade do palco
Existe ainda uma contradição interessante na origem de Meu Garoto. Uma história que começou em um aplicativo e foi desenvolvida também a partir de relatos recebidos pelas redes sociais termina materializada em uma experiência essencialmente presencial: o teatro.
É no palco que Hermes procura retirar as camadas de aparência que frequentemente acompanham as relações mediadas pelas telas: “A forma real e crua que mostramos tudo. Desde o início decidimos nos preocupar apenas com a verdade dos personagens. A gente não se preocupa em atuar e sim contar uma história que está dentro da casa de muitas pessoas”.
E estabelece um contraste direto com a imagem que construímos digitalmente: “Na internet todos querem ser bonitos, ricos e bem dotados. No teatro não estamos preocupados se a nossa barriga está grande, se nossa bunda não se encaixa na cueca da moda e muito menos se nossas poses não são instagramáveis. Só queremos contar a história de duas pessoas que se amam muito, têm muito tesão entre eles, mas a pressão e as regras que a sociedade e a família impõem, talvez eles não consigam cumprir.”
Uma história entre dois homens que não fala apenas com homens gays
Embora Bruno e Matheus sejam dois homens, Hermes também rejeita a ideia de restringir Meu Garoto a uma experiência exclusivamente LGBTQIA+: “Nunca a história deles foi limitada exclusivamente a uma relação LGBTQIA+. É relação de amor entre duas pessoas que se jogam numa relação como se não houvesse amanhã. Muitos casais héteros, inclusive casais evangélicos, têm se identificado muito com a história. Como é mostrado em depoimentos do público no Instagram da peça. Muitas mulheres me dizem que eu estou contando as histórias delas”.
Essa identificação também permite que a montagem toque em uma diferença social de julgamento que ultrapassa os personagens: “Pois na nossa sociedade machista, um homem mais velho namorar uma garota mais jovem é extremamente aceitável, mas uma mulher mais velha com um homem jovem, com certeza para a maioria ele está com ela por interesse financeiro. Meu Garoto poderia se chamar Minha Garota, Meu Velho, Minha Velha, etc. e continuaria sendo uma história de amor sobre duas pessoas”.
Transformar aquilo que aconteceu em aprendizado, não trauma
Depois das mentiras, projeções, diferenças, desejos e frustrações que atravessam Bruno e Matheus, Hermes não deseja que o público deixe o teatro desacreditado das relações, mas o contrário: “Meu maior desejo com este espetáculo é mostrar para as pessoas, assim como expliquei lá em cima, é que sempre vale a pena acreditar no amor. O amor sempre vale a pena”.
Essa talvez seja também a maior distância entre o homem que começou a escrever Meu Garoto depois de um término devastador e aquele que hoje sobe ao palco para contar essa história: “Se eu, ou o Bruno, ou a Maria, ou a Jupira não tivéssemos passado por todas as relações que tivemos, boas ou ruins, talvez não saberíamos reconhecer quando estamos de frente de uma relação saudável”.
Hermes conseguiu recomeçar. E é justamente desse lugar que transforma uma experiência inicialmente dolorosa em teatro: “Eu soube recomeçar e hoje estou casado e extremamente feliz. E só cheguei onde estou hoje, porque aprendi com tudo que passei na vida e decidi não fechar meu coração”.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
