Beá Pacheco fala sobre dualidade humana, vulnerabilidade e os desafios de viver Katharine

Violência, desejo, poder, vulnerabilidade e esperança se encontram em cena em "Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde". Foto: Camila Mendes

Interpretar uma personagem marcada pela violência, pelo desejo de sobreviver e por profundas contradições humanas não é uma tarefa simples. Em “Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde”, espetáculo em cartaz no Teatro Itália, em São Paulo, Beá Pacheco assume o desafio ao viver protagonista que foge das definições fáceis e coloca o público diante de questões incômodas sobre moralidade, poder e identidade.

Inspirada no clássico “O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson, a montagem desloca o foco da criatura para os conflitos humanos que existem por trás dela. E é nessa complexidade que Beá encontrou o que mais a atraiu em Katharine.

“Ela não é uma mocinha. Não é heroína convencional. É personagem extremamente humana. Tem lado doce, sonhador, apaixonado pela vida e pelas pessoas, mas também é manipuladora quando precisa sobreviver. Ela faz tudo o que acredita ser necessário para alcançar seus objetivos. Foi essa complexidade que me apaixonou.”

Katharine e a força das personagens contraditórias

Inspirado em "O Médico e o Monstro", o espetáculo "Katharine" desloca o olhar para os conflitos humanos, as relações abusivas e as máscaras que usamos para sobreviver. Foto: Camila Mendes
Inspirado em “O Médico e o Monstro”, o espetáculo “Katharine” desloca o olhar para os conflitos humanos, as relações abusivas e as máscaras que usamos para sobreviver. Foto: Camila Mendes

Na trama, Katharine é uma jovem que carrega marcas profundas de violência física e emocional. Para construir a personagem, a atriz buscou um processo que misturou memórias pessoais, imaginação e estímulos sensoriais.

“Eu não vivi as mesmas situações que ela vive, então precisei encontrar outras portas de acesso para essas emoções. Usei a personalização, buscando situações da minha vida que me conectassem a dores semelhantes. Também construí toda a trajetória dela desde a infância, imaginando quem ela era antes da história começar.”

O processo de construção: memória, imaginação e verdade emocional

"Ela não é uma mocinha. Não é uma heroína convencional. É uma personagem extremamente humana."

Foi assim que Beá Pacheco definiu Katharine durante entrevista ao Pittaplay. Uma conversa sobre arte, humanidade, escolhas e os limites entre luz e sombra. Foto: Camila Mendes
“Ela não é uma mocinha. Não é uma heroína convencional. É uma personagem extremamente humana.” Foi assim que Beá Pacheco definiu Katharine durante entrevista ao Pittaplay. Uma conversa sobre arte, humanidade, escolhas e os limites entre luz e sombra. Foto: Camila Mendes

Além desse trabalho emocional, Beá criou elementos concretos para acessar rapidamente o universo da personagem: “Ela tem perfume específico, playlist específica e voz própria. Eu também utilizava um pano com sangue falso que representava um momento importante da trajetória dela. São ferramentas que me ajudam a entrar nesse estado emocional e conseguir construir a personagem com máxima verdade.”

Para Beá, porém, a construção não se limitou aos objetos ou aos estímulos sensoriais. A atriz também procurou compreender como Katharine ocupa o mundo. Como anda, respira, reage ao medo e se relaciona com as pessoas ao redor: “Eu precisava entender quem ela era antes da peça começar. Quais eram seus sonhos, suas frustrações, o que ela carregava de infância, o que escondia e o que mostrava para os outros. Quanto mais eu conhecia a Katharine, mais as reações dela deixavam de parecer escolhas de uma personagem e passavam a fazer sentido como escolhas de uma pessoa.” 

O desafio de sentir sem se perder na personagem

O que acontece quando uma personagem obriga uma atriz a encarar as contradições da própria condição humana?

Beá Pacheco respondeu essa e outras questões em entrevista exclusiva ao Pittaplay sobre o espetáculo Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. Foto: DaviMartins
O que acontece quando uma personagem obriga uma atriz a encarar as contradições da própria condição humana? Beá Pacheco respondeu essa e outras questões em entrevista exclusiva ao Pittaplay sobre o espetáculo Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. Foto: DaviMartins

A atriz admite que, no início do processo, teve receio de se contaminar pelas dores da personagem. As cenas de abuso e violência exigiram nível de entrega emocional que ela ainda não havia experimentado em trabalhos anteriores.

“Eu tinha medo de sentir demais. Conversei com meu psicólogo sobre isso e ele me disse algo que nunca esqueci: a personagem é uma roupa que você veste e depois tira. Hoje, entendo que preciso me permitir sentir durante a cena. Não existe verdade sem entrega. A diferença é que depois eu consigo voltar para mim.”

Essa busca por humanidade também se tornou uma das principais reflexões provocadas pelo espetáculo. Para Beá, Katharine funciona como resposta às personagens femininas simplificadas que muitas vezes dominam as narrativas.

“Ela não é vítima passiva, mas também não é heroína perfeita. Ela sofre, erra, manipula, ama, teme e resiste. Isso a torna muito mais próxima das pessoas reais.”

A dualidade humana como espelho da sociedade

Beá Pacheco vive Katharine, protagonista de uma história marcada por contradições, vulnerabilidade e resistência.

Ao Pittaplay, a atriz falou sobre o processo de construção da personagem, os desafios emocionais do espetáculo e as reflexões sobre dualidade humana presentes na montagem. Credito: Davi Martins
Beá Pacheco vive Katharine, protagonista de uma história marcada por contradições, vulnerabilidade e resistência.
Ao Pittaplay, a atriz falou sobre o processo de construção da personagem, os desafios emocionais do espetáculo e as reflexões sobre dualidade humana presentes na montagem. Foto: Davi Martins

Ao longo da entrevista, a atriz retorna diversas vezes à ideia da dualidade humana, conceito que atravessa tanto a peça quanto sua própria forma de enxergar o mundo: “Observo muito as pessoas. No metrô, nas ruas, nas histórias dos meus amigos, na minha própria vida. E percebo que ninguém é uma coisa só. Pessoas boas cometem erros. Pessoas que erram também podem ter bondade. Uma atitude não define uma vida inteira.”

Segundo ela, é esse aspecto que torna a montagem tão atual: “A peça fala muito sobre as máscaras que usamos. Sobre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que escondemos. Muitas vezes fazemos coisas para construir uma imagem, não necessariamente porque aquilo corresponde ao que sentimos.”

Por que o teatro ainda precisa provocar desconforto

Essa reflexão também aparece quando a atriz fala sobre o papel do teatro: “Acredito que o teatro precisa atravessar as pessoas. Não significa que toda peça precise ensinar alguma coisa, mas acredito que a arte deve provocar algum tipo de transformação. Nem que seja uma conversa no caminho para casa.”

A estreia e a parceria com Conrado Paladini

Mais do que falar sobre monstros, "Katharine" convida o público a refletir sobre os lados claros e escuros que convivem dentro de cada pessoa.

Uma experiência intensa, provocadora e emocionalmente impactante. Foto: Camila Mendes
Mais do que falar sobre monstros, “Katharine” convida o público a refletir sobre os lados claros e escuros que convivem dentro de cada pessoa. Uma experiência intensa, provocadora e emocionalmente impactante. Foto: Camila Mendes

A experiência da estreia também deixou marcas profundas. Após meses de preparação, Beá descreve a sensação de entrar em cena como algo quase físico: “Quando subi ao palco, senti como se ele estivesse respirando comigo. Foi uma sensação muito forte. Eu olhava para o cenário e parecia que tudo estava vivo. É um momento que vou guardar para sempre.”

Para que essa entrega fosse possível, a atriz destaca a importância da parceria construída com Conrado Paladini, que divide a cena com ela durante praticamente todo o espetáculo: “Foi um processo de muita confiança. Nós passamos dias trabalhando juntos, improvisando, criando intimidade e construindo essa relação. Uma peça tão intensa exige que exista apoio e segurança entre os atores.”

Essa parceria se tornou ainda mais importante porque Katharine e Dr. Jekyll compartilham algumas das cenas mais intensas da montagem. Segundo Beá, não seria possível abordar temas como abuso, vulnerabilidade e relações de poder sem que existisse relação sólida de confiança entre os intérpretes. “Existe entrega muito grande dos dois lados. Quando você está lidando com emoções tão profundas, precisa saber que a pessoa que está em cena com você está comprometida em contar a história junto. Essa segurança nos permitiu experimentar, improvisar e encontrar nuances que talvez não surgissem de outra forma.” 

A mensagem que Katharine deixa para o público

Ao final da conversa, Beá resume a principal mensagem que espera deixar no público: “A peça fala sobre os lados claros e escuros que existem dentro de cada ser humano e sobre como nossas escolhas definem quem nos tornamos. Mas, através da Katharine, ela também fala de esperança. Mesmo diante da dor, ela continua acreditando na vida e nas pessoas. Acho que a grande reflexão é que não podemos fugir de quem somos, mas podemos escolher o que fazer com isso. E, nesse caso especificamente, precisamos ir embora enquanto é tempo de uma relação abusiva antes que isso nos custe a própria vida.”

Mais do que uma releitura de um clássico da literatura, “Katharine: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” surge como convite para que o público encare aquilo que normalmente prefere esconder. E Beá Pacheco faz dessa travessia um exercício de coragem, vulnerabilidade e humanidade.

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