Foto: Laura Campanella
Raquel Villar está vivendo uma fase de expansão na carreira. Depois de trabalhos que passaram pela televisão, streaming, cinema e teatro, a atriz assume um dos papéis centrais de “Emergência 53”, nova série médica original do Globoplay, que estreia na quinta-feira, 20 de agosto.
Na produção, Raquel interpreta Vanessa, profissional que atua diretamente em situações de emergência e precisa tomar decisões em questão de segundos. Ao lado de nomes como Heloísa Jorge, Jaffar Bambirra, Valentina Herszage, Ana Hikari, Emilio Dantas e Yara de Novaes, ela mergulha em universo marcado pela tensão, pelo risco e pela necessidade de agir mesmo quando não há tempo para processar o que está acontecendo.
Mas a relação da atriz com Vanessa vai além da construção da personagem. Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Raquel conta que para viver a profissional da emergência, precisou levar a personagem para o corpo e entender como reagir diante do caos, algo que, de certa forma, também faz parte do próprio trabalho de um ator.
Entre a urgência de Vanessa e a urgência da atuação
Vanessa vive em ambiente onde cada segundo pode ser determinante. Para Raquel, porém, existe espécie de conexão inesperada entre a rotina da personagem e o trabalho do ator: a necessidade de estar sempre pronta para reagir ao que acontece em cena.
“Vanessa vem de ambiente completamente diferente do meu. Mas acho que tanto no meu trabalho quanto no dela existem momentos de urgência. A diferença é que a urgência dela é de vida ou morte real; a minha é uma vida ou morte de ficção”, explica.
A atriz compara a preparação de uma cena ao trabalho dos profissionais retratados na série. Assim como Vanessa precisa decidir rapidamente se deve administrar um medicamento, fazer incisão ou chamar um colega, o ator também precisa responder ao que acontece diante dele: “No trabalho do ator, a gente aprende a reagir. O improviso é muito isso: como você reage àquilo que está acontecendo. E essa reação pode ser desde um texto enorme, um gesto ou até um silêncio.”
Para Raquel, estar em cena exige esse estado permanente de atenção. Mesmo com o texto estudado e a preparação feita, existe algo que só pode acontecer naquele instante:“Aquele momento é único, acontece uma vez e é isso. Você pode estar preparada, estudada, assim como ela, mas tem coisas que só acontecem naquele momento. Acho que temos dispositivos parecidos nos nossos trabalhos, mas em ambientes completamente diferentes”.
Colocar o caos no corpo
Interpretar profissionais que trabalham em situações de emergência também exigiu dos atores uma preparação que ultrapassasse o estudo tradicional do roteiro. Raquel conta que o elenco conversava bastante sobre a necessidade de tirar o personagem do papel e levá-lo para o corpo.
“Essa é uma profissão em que eles estão sempre no limite, ou até passando do limite”, afirma. Segundo a atriz, o desafio estava em entender como construir corporalmente alguém que precisa permanecer alerta diante de situações imprevisíveis: “É um corpo sempre muito disposto, muito aberto ao risco, sempre em alert..”
Durante as gravações, Raquel precisou encontrar maneira de representar esse estado constante de tensão sem perder o controle da personagem. Para ela, o trabalho estava justamente em encontrar “algum controle dentro do descontrole”.
“Era como se, dentro de mim, tudo pudesse sair do lugar, mas eu precisasse encontrar uma forma de conduzir aquilo. Porque acho que é assim que se dá também esse trabalho: eles estão tentando segurar algo que está totalmente caótico.”
Vanessa mudou o olhar de Raquel para sua mãe
Se a personagem exigiu que Raquel mergulhasse em realidade distante da sua, Vanessa também acabou aproximando a atriz de uma pessoa muito próxima: sua mãe.
Raquel acredita que um personagem precisa atravessar o ator para que realmente exista. Para ela, interpretar não é apenas reproduzir alguém, mas experimentar, ainda que temporariamente, uma outra vida: “Se ele não te atravessa, ele não chega, fica só no raso”.
Ao viver Vanessa, a atriz teve a oportunidade de experimentar profissão que jamais exerceria fora da ficção. Mas foi a relação com a própria mãe que acabou se tornando uma das experiências mais marcantes do processo.
“Vivi muitas coisas através da Vanessa, fui socorrista através dela. Mas uma das coisas que acho que vou lembrar para sempre foi a Vanessa ter feito com que eu olhasse para a minha mãe de maneira que eu nunca tinha olhado tão profundamente antes.” A mãe de Raquel é instrumentadora cirúrgica, e a personagem abriu para a atriz uma nova perspectiva sobre a profissão dela.
“Através da Vanessa, eu pude enxergá-la dentro da profissão dela. Então, mergulhei em um olhar para a minha mãe que eu nunca tinha tido antes. Fiquei muito admirada e, para mim, isso foi muito emocionante. Vai ficar para sempre.”
O estranho é o que desperta o interesse
Para Raquel, personagens que provocam estranhamento são especialmente atraentes. E Vanessa tinha exatamente esse elemento: um universo completamente desconhecido para a atriz. “Adoro o estranho, gosto do que é estranho.”
A familiaridade não era o que despertava sua curiosidade. Pelo contrário. Quanto mais distante da sua realidade, mais interessante se tornava a personagem: “Adoro costurar, mas gosto de costurar roupa, não a derme, não uma pele, entender todas as suas camadas. Isso é uma loucura, a loucura do mundo dela, da personagem”.
É essa possibilidade de experimentar aquilo que não conhece que continua movimentando a atriz: “Então, aquilo que eu não conheço sempre me interessa.”
Da Alemanha ao Brasil: outras formas de pensar a atuação
A trajetória de Raquel também passa pela Alemanha, onde viveu e trabalhou no teatro. A experiência, segundo ela, trouxe aprendizados que permanecem presentes em sua maneira de enxergar a profissão.
A atriz destaca principalmente a disciplina e a seriedade com que o trabalho artístico é tratado: “A Alemanha é um país rígido, com uma organização, uma disciplina que, em algum lugar, é algo que eu gosto. Foi até um encontro com a cultura.”
Para Raquel, a experiência também ajudou a reforçar uma ideia que considera fundamental: atuar não se resume à imagem ou à fama: “A profissão não é brincadeira, não é só ser bonito, dar uma pinta, ter uma imagem ou ser famoso. É ser um bom ator, respeitar a profissão e o que está no cerne dela, buscar profundidade.”
Entre os aprendizados, a atriz destaca o trabalho de voz, corpo e construção de personagem. Na Alemanha, ela teve contato com atores que criavam diferentes vozes sem que o resultado parecesse artificial: “Tudo é muito pensado e elaborado: o corpo, a voz, o figurino”.
A experiência também reforçou a importância de se colocar em risco artisticamente:“Quanto mais você tem experiências, mais bagagem de vida cênica você pode vir a ter. Então, é muito importante se experimentar de outras formas, se colocar em risco sem ter medo”.
Para ela, esse risco não significa necessariamente enfrentar situações extremas, mas experimentar outras linguagens e formatos dentro da arte:“E uma coisa que também é importante é o fato de eu ser atriz, mas não ter trabalhado somente como atriz. Já tive outras profissões, já trabalhei em outros ramos acho que isso também te dá pé no chão e consciência de que ser atriz também é ser uma trabalhadora.”
Entre heróis, falhas e seres humanos

Foto: Bob Paulino
“Emergência 53” também permite olhar para os profissionais que trabalham no atendimento de emergência para além da imagem heroica. Eles salvam vidas, mas também sentem medo, erram, se cansam e enfrentam situações que nem sempre conseguem controlar.
Para Raquel, porém, uma coisa não elimina a outra. Existe humanidade dentro desse heroísmo: “Acho que prefiro estar nesse lado de quem vai para a ação, de quem vai tentar socorrer quem está pedindo ajuda.”
A atriz reconhece que esses profissionais também são falhos e estão sujeitos ao inesperado, mas considera que o próprio ato de se colocar em risco para salvar outra pessoa carrega uma dimensão heroica.
“Eles são falhos, as coisas acontecem e muitas vezes podem fugir do nosso controle. Mas existe também esse lado de você olhar para eles como heróis, porque estão salvando vidas”.
Viver outras vidas é parte da natureza de Raquel
A vontade de experimentar personagens diferentes, segundo Raquel, não surgiu apenas depois que ela começou a trabalhar profissionalmente. Está presente desde a infância: “Desde criança, antes de entender que essa era a profissão, era algo que eu fazia: ficava improvisando histórias, seres, sem entender que a gente dá o nome de personagens.”
Hoje, essa curiosidade continua sendo um dos principais motores de seu trabalho. Um personagem pode surgir de diferentes lugares: de um livro, de uma notícia, de uma pessoa observada na rua ou de um filme. “Estou sempre querendo fazer algum personagem que desconheço.”
Para a atriz, essa possibilidade de experimentar outras existências é uma das grandes riquezas da profissão: “É poder ficar interpretando, vivendo outras vidas que não só a minha. Eu acho que essa é a grande brincadeira.”
“Eu não tenho que provar nada pra mim”
Em um momento em que sua carreira passa simultaneamente por televisão, streaming, cinema e teatro, Raquel não vê a necessidade de provar algo a si mesma. “Olha, eu acho que eu não tenho que provar nada pra mim, não. Estou feliz sabendo que estouconseguindo viver da minha profissão, aos trancos e barrancos.”
A atriz fala abertamente sobre a instabilidade da carreira e sobre a diferença entre reconhecimento, fama e o próprio exercício da profissão: “Tem essa confusão de fama com a profissão do ator e da atriz, que não são a mesma coisa. Tem também a questão do mercado: o que funciona para o mercado e o que é a profissão de fato não são a mesma coisa”.
Para ela, escolher a atuação foi mais do que uma decisão profissional. Foi também uma necessidade pessoal: Se você escolhe essa profissão, como eu escolhi, é uma escolha dupla, porque acho que ela me escolheu também.”
Raquel conta que percebeu isso quando tentou seguir outro caminho profissional. Mesmo trabalhando em outra área, sentia que alguma coisa estava faltando. “Eu não conseguia ficar totalmente feliz. Tinha um desgosto dentro de mim.”
A conclusão veio com o tempo: atuar não era apenas uma profissão que ela queria exercer, mas algo de que precisava para se sentir completa. “O meu chamado é outro. É poder estar trabalhando sempre. É o que me deixa bem e em paz comigo mesma.”
Uma trajetória que nem a própria Raquel imaginaria
Olhando para a atriz que estava começando a carreira, Raquel acredita que seria difícil convencê-la de tudo o que viria pela frente. Principalmente de que um dia estaria na Alemanha, atuando em alemão e interpretando mais de um personagem em uma peça de teatro. “Ela ia rir e me achar uma palhaça. Ia dar uma grande gargalhada.”
Os grandes personagens, as produções de maior alcance e a possibilidade de conquistar um público amplo já faziam parte dos sonhos daquela Raquel mais jovem. Mas a experiência alemã foi algo completamente inesperado: “Fazer teatro em alemão, isso foi completamente inesperado pra mim e acho que a Raquel de anos atrás não acreditaria onde ela foi parar.”
Hoje, entre diferentes personagens, linguagens e países, a atriz segue na direção que parece ter guiado sua trajetória desde o início: a busca por novas experiências, pelo desconhecido e pela possibilidade de viver outras vidas através da atuação.
Em “Emergência 53”, essa busca ganha um novo capítulo. Vanessa coloca Raquel diante de um universo distante de sua própria realidade, mas que acabou deixando marcas profundas.
Mais do que um novo papel, a personagem parece representar aquilo que a atriz procura desde criança: o desafio de entrar em um mundo que não é o seu e, por algum tempo, experimentar como é viver dentro dele.

Jornalista apaixonada por boas histórias. Entre filmes, séries, livros e espetáculos, está sempre em busca de narrativas que mereçam ser compartilhadas.
