Foto: Trívia Produções.
Em época em que quase tudo acontece em velocidade acelerada, Corpos em Expurgo segue na direção oposta. O espetáculo, dividido em três quadros independentes que se conectam pela relação dos personagens com o tempo, estreia propondo ao público uma experiência de contemplação, escuta e reflexão. Mais do que acompanhar uma narrativa linear, a plateia é convidada a reconhecer suas próprias memórias e inquietações dentro da encenação.
Dramaturgo e diretor da montagem, Klever Schneider explica que essa foi justamente a intenção desde o início do processo: “Acredito que o teatro é um dos últimos refúgios para isso. Essa relação ator-palco-plateia permite uma relação próxima, algo que acreditamos ter na vida online. Ainda há tempo para isso, a gente precisa respirar, observar e rever a forma como estamos lidando com o nosso tempo, com o nosso momento presente.”
Uma peça que continuou sendo escrita durante os ensaios
Ao assumir simultaneamente a dramaturgia e a direção, Klever afirma que precisou revisitar constantemente o próprio texto. Ao contrário de proteger a versão original, preferiu deixar que o espetáculo se transformasse ao longo dos ensaios: “O mais vibrante desse processo foi justamente isso. Cortei, revi e acrescentei outras coisas”, conta.
Entre as mudanças, um violino previsto na dramaturgia deu lugar a um teclado executado por um integrante do elenco. O espetáculo também incorporou depoimentos gravados respondendo à pergunta “O que o tempo tem tirado de você?”, além de levar esse mesmo questionamento ao público desde a chegada ao teatro.
“Não tenho problema em rever e modificar. O que importa é a força do elenco para fazer esse encontro com a plateia acontecer.”
Três histórias para falar de um mesmo tempo

Embora apresente três quadros distintos, Corpos em Expurgo não busca contar uma única história. Para Klever, a própria estrutura fragmentada dialoga com a maneira como vivemos atualmente: “Não me interessava contar uma história linear porque nossa relação com o tempo atua de forma diferente. Há toda uma fragmentação no cotidiano. Na forma como nos informamos, nas inúmeras abas abertas em nossos computadores, nas notificações e nas tarefas interrompidas.”
Segundo o diretor, essa escolha amplia as possibilidades de leitura da obra: “A estrutura cria diferentes portas de entrada para que o público possa completar com sua imaginação, seu repertório e experiência.”
Um teatro que prefere perguntas
A palavra “expurgo” costuma remeter à ideia de eliminar algo. No espetáculo, porém, ela assume outro significado: “O teatro não tem a obrigação de oferecer respostas, mas criar espaços onde as perguntas sobrevivam.”
Klever acredita que a sociedade atual busca resolver rapidamente até mesmo aquilo que deveria ser vivido com mais tempo: “Expurgar não é apenas eliminar o sofrimento. É torná-lo visível, reconhecer que está conosco e refletir sobre o que fazemos com ele.”
Essa relação entre palco e plateia começa antes mesmo da primeira cena: “Desde a cena aberta, quando a plateia chega, vamos nos relacionando. Não tem quarta parede. Tem o encontro.”
Sentir antes de compreender
Ao longo da entrevista, Klever deixa claro que não espera uma interpretação única do espetáculo: “Nunca tive a expectativa de que todas as pessoas compreendessem a peça da mesma forma.”
Para ele, a experiência teatral acontece justamente quando cada espectador completa as lacunas da encenação com sua própria trajetória: “O público é inteligente para preencher lacunas. A emoção pode até chegar antes da compreensão.”
Essa ideia também aparece quando fala sobre a relação entre teatro e velocidade: “Prefiro pensar que o teatro oferece uma alternativa. Não quero disputar com a velocidade das telas. O teatro propõe presença, silêncio, escuta e convivência. É a arte do encontro e da presença.”
O espetáculo continua depois que termina
A pergunta central da montagem: “O que o tempo tem tirado de você?”, também permaneceu acompanhando o próprio autor: “A resposta vai mudando. Durante o processo pensei em perdas materiais, em outros momentos nas relações ou na capacidade de estar presente. Quero entender o que o tempo pode me dar ao invés de retirar. É uma outra ótica.”
Essa permanência resume a missão que Klever espera alcançar com Corpos em Expurgo: “Eu espero que ela continue existindo depois dos aplausos.”
Ele explica que a companhia pesquisa aquilo que chama de “peças de conforto-confronto”, obras que acolhem o espectador ao mesmo tempo em que o convidam a rever sua própria relação com o mundo.
“Se alguém sair de Corpos em Expurgo olhando para o próprio tempo de outra maneira, ou simplesmente respirar antes de voltar à rotina, acredito que a peça cumpriu seu papel. Cada pessoa terá o seu tempo. O teatro continua acontecendo muito depois que o espetáculo termina.”
