Victor Sparapane e a coragem de continuar se transformando

Victor Sparapane e a coragem de continuar se transformando

Foto: Marcelo Auge

Depois de 18 anos de carreira, Victor Sparapane poderia olhar para trás e medir sua trajetória pelos personagens que interpretou, pelas produções das quais participou ou pelos espaços que passou a ocupar. Mas, quando convidado a imaginar o que o jovem ator do começo da carreira pensaria ao encontrá-lo hoje, sua resposta segue por outro caminho: “Acho que ele olharia para mim e diria: ‘ainda bem que você não virou uma marionete’.”

A frase ajuda a compreender não apenas o artista que conversa com o Pittaplay, mas a maneira como ele escolheu pensar o próprio ofício. Em entrevista que atravessa teatro, cinema, novela, streaming e dramaturgia vertical, Victor fala menos sobre chegar a algum lugar e muito mais sobre como permanecer presente enquanto o caminho acontece: “Estamos em constante transformação. A questão é se estamos presentes o suficiente para perceber isso”, afirma.

Para ele, a pergunta mais importante não é “quem sou eu?”, como se fosse possível encontrar uma resposta definitiva: “Talvez seja: quem eu percebo que estou sendo enquanto a vida acontece? Porque eu também sou isso. Não sou apenas uma coisa ou outra”.

É a partir dessa ideia que Victor transita entre linguagens e personagens. Mais do que adaptar um registro de atuação, procura reconhecer que as circunstâncias também o modificam: “Quando passo de uma linguagem para outra, de um personagem para outro, a questão é estar suficientemente presente para perceber que agora o rio é outro e eu também sou”.

Quando criar não pode virar apenas executar

Uma carreira movimentada também impõe um risco: transformar criação em produtividade. Decorar, gravar, entregar e partir para o trabalho seguinte.

Victor encontra forma de resistir a isso no próprio repertório construído ao longo da vida: “Para mim, a vida é arte. São partes da mesma coisa, às quais demos nomenclaturas distintas. Tudo aquilo que vivo, observo, estudo, todas as pessoas que encontro, as experiências que atravesso, tudo isso vai constituindo matéria-prima”.

É quando surge uma expressão que atravessa sua maneira de pensar a atuação: a arte do encontro: “Se estou realmente presente diante de outra pessoa, alguma coisa acontece ali que eu não poderia produzir sozinho. Existe uma reação, uma combustão”.

O perigo aparece justamente quando essa troca deixa de existir: “O risco começa quando você deixa de encontrar e passa apenas a executar”.

O set como um tatame

Dezoito anos de profissão também significam repertório técnico. E quanto maior a experiência, maior a possibilidade de determinadas ferramentas se transformarem em fórmulas.

Victor, porém, faz distinção entre ferramentas e fundamentos: “Gosto de pensar no set, no palco, nesse espaço de exposição em que o ator se coloca, como um tatame”.

A comparação vem da reverência feita pelo lutador antes de entrar naquele espaço. Ele sabe que colocará ali corpo, sangue e alma. Correrá riscos e estará exposto. Victor reconhece algo semelhante no trabalho do ator: “Quando entro num set ou num palco, existe reverência interna. Aquele espaço é quase um santuário para mim, porque ali estou oferecendo um lugar de sensibilidade muito grande para ser ignorado como apenas mais um projeto, apenas mais uma cena”.

O tempo, nesse caso, pode ser perigoso. Aquilo que um dia foi extraordinário corre o risco de se transformar simplesmente em rotina: “Quando você percebe que alguém perdeu esse brilho, é triste. Eu busco não perdê-lo”.

É também daí que nasce aquilo que chama de “liderança de presença”: a capacidade de um ator modificar a atmosfera antes mesmo de pronunciar a primeira palavra. A técnica continua fundamental. Ela cria musculatura, disciplina e memória. Mas não pode aprisionar: “Existe um momento em que você precisa conhecer tão bem a técnica que possa se libertar dela”.

Para Victor, utilizar sempre uma ferramenta porque ela já produziu determinado efeito significa correr o risco de começar a reproduzir resultados: “Minhas ferramentas, sozinhas, não me interessam. O que me interessa é o que elas me permitem encontrar”.

E sintetiza: “Talvez exista um paradoxo bonito nisso: eu reverencio o tatame porque sei o que estou disposto a deixar ali. Depois da reverência, começa o jogo”.

Victor Sparapane reflete sobre os 18 anos de carreira e defende uma atuação guiada pela presença, pelo risco, pelo encontro e pela liberdade de continuar se transformando. Foto: Marcelo Auge.
Victor Sparapane reflete sobre os 18 anos de carreira e defende uma atuação guiada pela presença, pelo risco, pelo encontro e pela liberdade de continuar se transformando.
Foto: Marcelo Auge.

Personagens como cicatrizes

Esse jogo exige também aceitar que um personagem deixa alguma coisa em quem o interpreta: “Aprendo com todos eles, são escola”. Victor os compara a tatuagens e cicatrizes. Cada um passa a integrar sua história e, justamente por isso, existe responsabilidade na escolha de onde mergulhar: “O que me move está muito ligado à expansão da consciência. Aquilo que pensamos, fazemos, falamos, as pessoas com quem nos relacionamos, tudo cria ressonâncias”.

A pergunta, então, deixa de ser simplesmente o que determinado papel pode ensiná-lo: “Quão fundo eu estou disposto a ir?”

A imagem escolhida é a toca do coelho de Alice no País das Maravilhas. Existe a possibilidade de permanecer na superfície. Ou entrar: “E quanto mais fundo você vai, mais possibilidades encontra”.

Ricardo Reis e o direito de não chegar pronto

É nesse momento da carreira que Victor se aproxima de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa que interpreta no teatro. O ator já estudava Pessoa havia anos, mas tamanho conhecimento também poderia se transformar em uma armadura.

Quando perguntado como encontrar humanidade em alguém que, de certa forma, nasceu da imaginação de outro homem, Victor devolve outra pergunta: “Primeiro eu perguntaria: quem disse que ele nunca existiu?”

É daí que começa o território do “e se?”: “E se isso? E se aquilo? E se ele pensasse dessa maneira? E se aquilo que parece uma contradição fosse justamente uma pista?”

Para ele, encontrar humanidade em Ricardo Reis exige, antes de qualquer teoria, observar seres humanos: “Se eu não for capaz de observar as pessoas, de estar sensível aos encontros, de perceber o ser humano na vida, não vou conseguir fazer isso em cena. Isso é matéria-prima. É quase a coluna vertebral do trabalho”.

Quanto vale o tempo em que você não produz?

É ao falar de Ricardo Reis que Victor chega a uma das reflexões mais interessantes da conversa: o ócio como parte da criação artística: “Gosto de pensar na arte do ator ligada à arte do ócio”.

A partir da origem da palavra “negócio”, ele questiona não apenas quanto vale seu tempo negociado, mas quanto vale justamente aquele que não está à venda: “Porque foi sempre ali que nasceram as grandes perguntas. Nunca no meio da execução”.

Victor não romantiza essa disponibilidade. Reconhece que não é possível simplesmente dizer que qualquer pessoa deve parar para contemplar: “Levei anos negociando tempo demais para conseguir proteger um pouco dele hoje. O ócio não é ponto de partida, mas uma coisa que se conquista e é por ser caro que eu não vendo”.

É nesse espaço que os “e se?” necessários à criação conseguem aparecer. O estudo, portanto, precisa ser profundo. Mas Victor defende também a capacidade de abandoná-lo quando a cena pedir outro caminho: “Estudar. Estudar muito. E depois ser capaz de abdicar”.

Procurar apenas o resultado correto, para ele, elimina justamente as possibilidades consideradas “incorretas” que poderiam conduzir a algo inesperado: “Às vezes o artista fica preso ao desejo de agradar. Uma coisa é querer ser amado. Outra é ser carente. Quando você age a partir da carência, começa a abandonar quem é para buscar aprovação”.

Por isso, prefere estudar profundamente e depois aceitar o risco: “O conhecimento precisa ampliar minha liberdade”.

“Quem não está correndo risco não está jogando”

Victor ainda está descobrindo Ricardo Reis. Não procura esconder-se atrás do personagem, mas encontrá-lo a partir do encontro consigo próprio, com direção, elenco, texto e todos os elementos envolvidos na criação: “Acho mais interessante o caminho do que a chegada”.

E faz outra provocação: “Estamos vivendo momento em que todo mundo quer ter as melhores respostas e seria mais interessante se começarmos a buscar quais são as melhores perguntas”.

Isso significa também conviver com a dúvida: “Ela começa a se transformar em insegurança quando você perde a confiança, começa a se reprimir e passa a procurar aprovação”.

Não saber, nesse caso, não é deficiência. É possibilidade: “É preciso confiar nos instintos, no fluxo, nas conexões que são propostas dentro do jogo da cena”. E Victor resume sua relação com esse processo: “Quem não está correndo risco não está jogando”.

Aline Dias e Victor Sparapane protagonizaram ‘Icônica’, de Faxineira a Fashionista, novela vertical do Globoplay. Foto: Ricardo Bufolin
Aline Dias e Victor Sparapane protagonizaram ‘Icônica’, de Faxineira a Fashionista, novela vertical do Globoplay.
Foto: Ricardo Bufolin

O ator diante da velocidade dos verticais

Essa busca também precisa sobreviver quando o formato exige velocidade. Victor esteve cedo no desenvolvimento da dramaturgia vertical brasileira e agora retorna a um formato em que poucos minutos podem precisar estabelecer personagem, desejo, conflito, relação e gancho.

Há, porém, algo que ele faz questão de preservar: “Ator não é robô. Não somos uma câmera que alguém liga, grava e desliga. Somos seres humanos nos colocando num lugar de exposição tremenda, num lugar de muita sensibilidade, seja no teatro, no vertical, no cinema ou onde for”.

Por isso, quando pensa no que precisou reaprender, prefere outro verbo: relembrar, e cita os valores, o caráter e a humanidade: “Se conseguirmos ser bons seres humanos, existe uma boa chance de também conseguirmos ser bons atores”.

Sua relação com a profissão, hoje, passa ainda por um propósito que define como espiritual: “Porque, afinal, o que é um ator? É fama? É sucesso? Hoje acredito que existe um propósito espiritual por trás desse ofício. É isso que me move. Há muito tempo desisti de tentar ser esse outro tipo de ator. E agradeço por isso”.

Quando dois minutos também precisam ter entrelinhas

A velocidade do microdrama não elimina a construção psicológica. Victor começa procurando compreender duas coisas sobre o personagem: “Preciso entender quando ele cala e quando ele fala”.

É a partir disso que encontra as entrelinhas: “É nas entrelinhas que começo a entender como aquele personagem é preenchido”.

Quando há tempo e uma direção interessada nessa investigação, existe espaço para discutir e experimentar. Quando o processo é mais rápido, entra em cena justamente a musculatura acumulada ao longo da carreira: “Você utiliza aquilo que tem para fazer acontecer”.

A duração pode mudar. A construção, não: “A velocidade pode mudar. A necessidade de circunstância não”. E, diante da percepção de que produções tão curtas exigiriam uma atuação mais simples, Victor responde com uma frase: “O simples é a última etapa da sofisticação”.

O reencontro com Agatha Moreira em Quem Ama Cuida

Outro encontro recente aconteceu em Quem Ama Cuida. Victor voltou a contracenar com Agatha Moreira mais de uma década depois de Malhação. Mas, novamente, sua resposta escapa da dimensão profissional mais óbvia: “Para mim, nem começa no ‘ação’. Começa no encontro”.

O tempo passou, ambos viveram outras experiências e tornaram-se outros artistas, mas permaneceu uma conexão construída durante o período em que trabalharam juntos: “Para alguém aquela participação pode ter sido pequena, mas para mim, é quase um troféu”.

Victor enxerga batalha invisível na decisão de permanecer ator e artista. Compara a trajetória a um capital de risco: uma aposta em algo que frequentemente parece impossível ou como prefere dizer hoje, improvável: “Dentro da improbabilidade, ainda existe probabilidade. É justamente ali que eu gosto de estar”.

Por isso, alguns reencontros assumem para ele uma dimensão quase espiritual: “Somos outras pessoas, outros rios, mesmo carregando os mesmos nomes”. Há, entretanto, algo que atravessa essas transformações: “Existe um fio atravessando tudo isso. Para mim, esse fio é o amor”.

O protagonismo e aquilo que fica depois do ator

Em Icônica, Victor chega ao protagonismo dentro do ecossistema Globo depois de uma trajetória extensa. Mas ocupar mais espaço, para ele, significa também ampliar a responsabilidade: “Cada degrau, cada vitrine que você alcança aumenta a ressonância daquilo que faz”.

Ele compara o artista a um instrumento de sopro: o som produzido continua reverberando mesmo depois que a pessoa já deixou fisicamente aquele espaço: “O rastro que o artista deixa é muito importante”.

É nesse momento que Victor volta a uma palavra recorrente em seu pensamento: frequência: “Com que frequência você encontra as pessoas que ama? Com que frequência se olha no espelho? Com que frequência deita a cabeça no travesseiro? Com que frequência faz aquilo que realmente considera desafiador?”

Não se trata apenas da quantidade, mas da qualidade dessa frequência: “Quanto maior o espaço que você ocupa, maior também é a responsabilidade sobre aquilo que vai fazer ressoar a partir dele”.

O Victor de agora

Depois de 18 anos, a pergunta poderia ser qual personagem Victor Sparapane ainda deseja interpretar. Mas outra parece interessá-lo mais: “Quem eu estou sendo agora diante das coisas que faço? E como isso vai ressoar nas possibilidades do amanhã?”

Existe preocupação com o futuro, mas não a ponto de sacrificar o presente: “Não quero deixar de viver o Victor de agora ansiando pelo Victor do futuro. Porque é justamente aquilo que faço agora que vai plantá-lo”.

Também não quer continuar “correndo atrás da cenoura”, metáfora para uma busca que nunca termina porque o objetivo se desloca junto com quem corre. Até mesmo sua compreensão sobre sustento passa por essa revisão: “Quem disse, aliás, que sustento é dinheiro? Sustento é comer, dormir, ter um teto, poder cuidar de quem depende de você. Dinheiro é só o meio que a nossa sociedade escolheu para isso”.

“Prefiro fazer a coisa por propósito e deixar o sustento vir como consequência, não como alvo”. É quando voltamos ao jovem Victor e àquilo que ele talvez pensasse ao observar silenciosamente o ator de 2026: “Ainda bem que você não virou uma marionete”.

Victor tem orgulho daquele garoto. Dos acertos, mas também dos erros, riscos, covardias, coragens e derrotas que não necessariamente aparecem quando uma trajetória profissional é transformada em currículo.

E também pensa no homem que será daqui a dez anos: “Quero que ele seja espécie de Super Victor em relação ao Victor de hoje. [risos] Mas sem deixar de viver o Victor do agora, porque é isso que vai plantar aquele homem”.

A atuação, acredita, exige ainda disposição para acessar perguntas que nem sempre conseguimos formular para outras pessoas ou para nós mesmos: “É nesse universo de profundidade que o ator tende a mergulhar. E acho que onde quase ninguém queira ir exista muita riqueza”.

Depois de tantos anos procurando, porém, Victor começa a substituir a própria ideia de busca: “Buscar é estar sempre um passo fora do presente, atrás de alguma coisa que não está aqui. Eu passei anos assim”.

Agora, outra palavra parece traduzir melhor o momento: contemplação: “E contemplar não é parar, mas estar desperto”. Também não significa permanecer imóvel diante do mundo: “Não é a câmera lenta enquanto tudo pega fogo. É perceber o fogo antes dos outros”.

E essa é a diferença que mais surpreende aquele jovem ator. Não os personagens ou os protagonistas. Não as linguagens atravessadas ou os lugares conquistados durante 18 anos: “Então acho que o que mais surpreenderia aquele garoto não seriam os lugares aos quais cheguei”.

Victor termina: “Seria me ver ali, desperto. Sendo”.

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