Gustavo Falcão aprendeu com o tempo a perder a pressa

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Foto: Leonardo Bonato

31 anos de carreira não deram a Gustavo Falcão a sensação de que já sabe tudo sobre atuação. Fizeram quase o contrário. Entre televisão, cinema e teatro, além dos trabalhos como diretor, escritor e produtor, o ator aprendeu que a experiência pode ampliar as possibilidades de criação quando diminui a urgência de encontrar respostas.

“O tempo te dá vivência, te dá maturidade, te dá outra forma de olhar pro próprio tempo. Isso te tira a pressa, te permite novos olhares pra um personagem, novas maneiras de se relacionar com ele, novas maneiras se relacionar com a cena”, disse em entrevista ao Pittaplay.

Para Gustavo, o horizonte artístico continua em movimento. É essa percepção que o mantém disponível para descobrir e redescobrir o próprio ofício depois de três décadas: “O legal do ofício de atuar e de criar cada vez mais você vai descobrindo que é sempre tempo de aprender coisas novas, então a gente tá sempre com o olhar num horizonte que se move junto com a gente”.

“A arte não tem função de julgar”

Um desses novos mergulhos aconteceu em Elize: Sombras de Uma Mulher, produção da Netflix na qual interpreta Heitor, melhor amigo de Marcos Matsunaga, vivido por Henrique Kimura. Lorena Comparato interpreta Elize.

Heitor transita por uma região moral complexa, entre sedução, perigo e instinto. Para acessar lugares tão sombrios, Gustavo recorre a algo que acredita ter desenvolvido também com a experiência: a capacidade de separar aquilo que pertence ao personagem da própria identidade.

“Isso é outra coisa que vai se aprimorando com tempo: nossa capacidade de se ‘desidentificar’ com um personagem. Daí se ganha mais liberdade para mergulhos mais profundos em aspectos sombrios sem que se perca o fio que nos conecta com nossa essência primordial”.

Essa separação, porém, não significa tratar a escuridão de um personagem como algo completamente alheio à condição humana. É justamente reconhecer essa complexidade que, para o ator, possibilita a criação: “E também o entendimento de que absolutamente tudo que a gente leva pra cena é do humano, inclusive os aspectos mais sombrios que todo mundo carrega consigo”.

É uma percepção que também atravessa a maneira como Gustavo compreende a função da arte diante de personagens moralmente questionáveis. Humanizá-los, defende, não significa absolver seus comportamentos: “A arte não tem função de julgar, para isso a sociedade criou outros instrumentos. A arte é o que conecta o ser humano consigo mesmo, provoca reflexões – mesmo quando são inquietantes e complexas”.

Para ele, é possível estabelecer essa conexão por meio de personagens que não são necessariamente bons: “E, obviamente, não estamos com isso justificando ou homenageando seu comportamento ou ações. Apenas criando reflexo para que o público possa ver a si também”.

As marcas que cada personagem deixa

Depois de tantos papéis, Gustavo não escolhe apenas um para apontar como responsável por alguma transformação pessoal. Sua percepção é de que cada encontro artístico acrescenta algo, inclusive quando aquilo que surge desse processo é desconfortável: “Todo personagem te ensina alguma coisa, te deixa marcas e te entrega coisas que você vai carregar consigo a partir dali. Mesmo que sejam coisas terríveis”.

Cabe ao artista, segundo ele, não fugir daquilo que encontra nesse processo: “Para um artista é imprescindível essa consciência e a coragem de olhar pra isso, seja lá o que for, e buscar compreensão. Isto é que te vai fazer expandir sua consciência e te tornar um artista melhor”.

“Eu carrego Pernambuco em mim”

Se cada personagem acrescentou algo à trajetória de Gustavo, existe uma origem que já estava presente antes de todos eles. Natural de Recife, o ator começou profissionalmente em 1995, com Os Biombos, de Jean Genet, sob direção de Antonio Cadengue. A cultura pernambucana atravessou sua formação e permanece, para ele, muito além de uma referência geográfica: “Carrego Pernambuco em mim em absolutamente tudo que eu faço. Porque toda a minha formação memorial-afetiva da infância está impregnada de pernambucana”.

Foi também para Pernambuco que Gustavo retornou para viver uma experiência determinante no cinema. Árido Movie, dirigido por Lírio Ferreira, marcou sua estreia em um longa-metragem quando tinha pouco mais de 20 anos e havia acabado de se mudar para o Rio de Janeiro: “Voltar para o Nordeste, mais precisamente para filmar no sertão de Pernambuco, em locações extraordinárias, com um elenco repleto de pessoas que sempre admirei, com um diretor tão intenso como Lírio. Foi tudo muito marcante”.

Mais do que a estreia no formato, o filme fez Gustavo compreender os vínculos criados durante um processo prolongado de realização e como essa convivência entre elenco e equipe também acaba impressa na obra.

Quando fazer cinema parecia uma grande aventura

Revisitar Árido Movie tantos anos depois significa também olhar para outra maneira de produzir cinema. O longa foi rodado em película, característica que, segundo Gustavo, estabelecia outro tempo para as cenas: “O mundo parece ser diferente hoje. A própria maneira de se fazer cinema também. Lembro que o árido nós filmamos em película, isso dá um tempo diferente para as cenas”.

E as lembranças daquele set guardam algo quase artesanal. Gustavo recorda situações vividas ao lado de Mariana Lima e Selton Mello durante as filmagens do road movie de baixo orçamento: “Tudo naquele filme, um road movie de baixo orçamento, parecia parte de uma grande aventura. Lembro da gente (eu, Mariana e Selton) batendo a própria claquete e rodando a câmera, enquanto Valéria ferro, nossa operadora de som direto, viajava na mala do Opala vermelho que eu dirigia, coisas assim”.

Para ele, essa experiência ajudou a imprimir no resultado uma característica particular: “Que fizeram do filme, penso eu, uma obra imensamente poética e irreverente”.

Gustavo Falcão para além da atuação

Hoje, atuar já não é suficiente para definir sozinho sua relação com a arte. Gustavo também dirige, escreve, produz e desenvolve iniciativas culturais e educacionais. Entre elas está o Lunático, espaço criado por ele que atualmente desenvolve aulas de circo, teatro e cinema em 17 instituições do Rio de Janeiro para crianças e adolescentes.

Assumir essas diferentes possibilidades mudou também a maneira como passou a enxergar a si mesmo profissionalmente: “Durante muito tempo não conseguia me imaginar fazendo outra coisa que não atuar, por mais que já escrevesse, por exemplo”.

A incorporação das outras funções trouxe uma percepção mais ampla sobre sua própria identidade artística: “Assumir ‘oficialmente’ essas outras habilidades como dirigir, atuar, produzir e desenvolver projetos culturais e educacionais me fizeram me enxergar de uma forma inteira, mais completa”.

Entre os projetos em desenvolvimento está ainda uma adaptação cinematográfica de um episódio da vida do pintor pernambucano Cícero Dias, realizada em parceria com seu irmão, Léo Falcão, e a REC Produtores, com intenção de realizar grande parte das filmagens no Recife.

A liberdade de “dessacralizar” Ben Hur

Na atuação, outro personagem leva Gustavo para universo bastante diferente. Em Ben Hur, da RecordTV, ele interpreta Élio, governador romano da Judeia ligado aos jogos de poder.

A construção tem permitido ao ator experimentar justamente uma liberdade que talvez os 31 anos de profissão o tenham ajudado a encontrar: “Criar e interpretar Hélio tem sido um misto de desafio e diversão. Ao mesmo tempo em que preciso encontrar uma boa medida da sua perversidade, autoridade e força, me permito uma certa ‘irresponsabilidade graciosa’ na maneira com que lido com o texto e com o espaço da cena”.

Com a abertura proporcionada pela direção encabeçada por Vicente Guerra, Gustavo encontrou espaço para quebrar certa solenidade que poderia acompanhar naturalmente um personagem inserido em um contexto histórico: “Essa espécie de irresponsabilidade de que falei, que brota da própria natureza do personagem, e que foi endossada pela liberdade que a direção me concedeu, me fez ‘dessacralizar’ um pouco a cena”.

A experiência também provocou uma reflexão sobre os limites que o próprio ator pode impor à criação: “Às vezes somos sisudos ou ‘respeitosos’ demais com certos personagens, sobretudo em contextos históricos. Borrar um pouco isso, esgarçar essas delimitações foi bastante enriquecedor pra mim como ator, e sem dúvida muito recompensador”.

Ainda há muito para descobrir

Mesmo depois de três décadas de trajetória, Gustavo evita estabelecer uma realização que ainda precise cumprir para considerar sua carreira completa. Os novos caminhos surgiram de maneira orgânica até aqui e continuam aparecendo.

Agora, por exemplo, ele começa a explorar outra possibilidade: a narração de audiolivros: “Não sei se existe algo que eu sinta que precise fazer. Nem sei se já senti isso. Durante toda minha vida sempre me dediquei plenamente à atuação, e no entanto surgiram tantas novas frentes de trabalho. Mas isso aconteceu naturalmente.”

Mais do que alcançar um destino específico, sua motivação continua ligada ao princípio que atravessou esses 31 anos: “Acho que continuo buscando o que sempre busquei: contar boas histórias, representar bons personagens, tocar o coração do público”.

É por isso que aquele horizonte mencionado por Gustavo no começo da conversa continua se movendo. Depois de atuar, dirigir, escrever, produzir, ensinar e agora descobrir a narração, a experiência não parece ter lhe dado um ponto de chegada.

Deu algo possivelmente mais valioso para um artista: tempo suficiente para perder a pressa e continuar curioso sobre aquilo que ainda não sabe.

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