Foto: Claudia Martini
Alguns personagens desaparecem quando as luzes se apagam, mas isso não acontece com Clodovil Hernandes. Mais de 15 anos depois de sua morte, o estilista, apresentador e ex-deputado federal continua despertando admiração, incômodo e curiosidade. Mais de 40 mil espectadores já passaram por Clô, pra sempre, monólogo que devolve essa figura ao palco pelas mãos de Eduardo Martini, premiado com o Bibi Ferreira de Melhor Ator pelo trabalho.
Escrita por Raphael Gama e dirigida por Viviane Alfano, a montagem retorna ao Teatro das Artes com temporada prorrogada até 29 de setembro, às quartas-feiras, às 20h.
Colocar Clodovil novamente diante do público exige lidar com uma personalidade difícil de acomodar em definições simples. Sua trajetória foi construída entre o brilho da moda e da televisão, as declarações contundentes, as controvérsias e uma vida pessoal atravessada por rejeições, solidão e relações complexas.
Nem absolver, nem condenar Clodovil
Clô, pra sempre percorre diferentes momentos da vida do estilista. A infância e a adolescência marcadas pela solidão dividem espaço com a ascensão profissional, a carreira na televisão, as amizades, os conflitos familiares, o único grande amor e a passagem pela política.
No palco, Clodovil aparece brilhante, irreverente e ácido, mas também atravessado pelas experiências que ajudaram a formar a personalidade que o Brasil conheceria. O espetáculo não procura oferecer um veredito sobre ele: “Fiz um espetáculo contando a vida do Clodovil sem criticar e sem defender”, afirma Eduardo.
A escolha de não conduzir o público para uma absolvição ou condenação impede que a montagem se transforme simplesmente em homenagem. As controvérsias não precisam desaparecer para que outras dimensões de Clodovil possam ser observadas.
Mais do que reproduzir trejeitos ou recuperar frases que permaneceram no imaginário popular, Clô, pra sempre se interessa pela possibilidade de olhar para aquilo que existia por trás da personalidade pública.
E deixa para a plateia uma tarefa que talvez seja impossível cumprir de maneira unânime: decidir o que fazer com todas essas contradições.

Foto: Claudia Martini
O homem que existia antes da personalidade pública
Nascido em Elisiário, no interior de São Paulo, Clodovil atravessou diferentes espaços da cultura brasileira. Tornou-se referência da alta-costura a partir dos anos 1960, construiu uma trajetória marcante na televisão e, mais tarde, chegou à Câmara dos Deputados, onde exerceu mandato entre 2007 e 2009.
Morreu em março de 2009, aos 71 anos, após complicações decorrentes de um acidente vascular cerebral. Sua presença no imaginário brasileiro, no entanto, não terminou com sua morte. É essa distância entre o ícone e o homem que a dramaturgia procura diminuir.
Ao revisitar episódios pessoais e profissionais, a montagem relaciona experiências, rejeições, afetos e dificuldades à formação de uma personalidade que nunca pareceu interessada em ocupar um lugar confortável. A trajetória pública permanece ali, mas passa a dividir espaço com aquilo que o sucesso não necessariamente deixava aparecer.
Nesse movimento, conhecer Clodovil não significa necessariamente gostar dele. Tampouco compreender suas dores significa justificar tudo aquilo que fez ou disse.
Significa aceitar que talvez uma vida não caiba perfeitamente nas categorias de herói e vilão.
Por que Clodovil ainda provoca?
Mais de 40 mil pessoas já assistiram a Eduardo Martini interpretar uma personalidade que morreu há mais de uma década. O número ajuda a dimensionar uma permanência que ultrapassa a simples nostalgia.
Por que Clodovil ainda desperta interesse?
Parte da resposta está na dificuldade de enquadrá-lo. Ele atravessou moda, televisão, comportamento e política sem caber confortavelmente em apenas uma dessas caixas. Também permanece difícil reduzi-lo somente a ícone ou personagem controverso.
Clô, pra sempre encontra seu material dramático nesse desconforto.
Para quem acompanhou Clodovil em vida, o espetáculo permite reencontrar uma personalidade que ocupou intensamente o espaço público brasileiro. Para gerações mais novas, oferece a possibilidade de conhecê-lo para além de vídeos, frases famosas e polêmicas que continuam circulando anos depois.
Eduardo assume, então, uma tarefa que vai além da reprodução de uma figura conhecida. Ao devolver Clodovil ao palco, precisa carregar também suas contradições e permitir que elas permaneçam sem uma resposta definitiva.
Depois de mais de 40 mil espectadores, o maior sinal da permanência de Clô, pra sempre está na impossibilidade de sair do teatro com uma conclusão única sobre seu protagonista.
Eduardo não pede absolvição nem condenação, mas devolve Clodovil ao palco e entrega o julgamento à plateia. Mais de 15 anos depois de sua morte, Clodovil ainda não aprendeu a passar em silêncio.

Jornalista e radialista, com experiência em televisão, rádio, assessoria de imprensa e comunicação digital. Ao longo da carreira, atuou na produção de TV em São Paulo e em diferentes projetos de comunicação no interior paulista. Comunicadora versátil, também acumula experiências com apresentação, podcasts, marketing e produção de conteúdo.
