Foto: Valmir Ferreira
Hilton Cobra já não acredita que seja possível construir um personagem completamente separado de quem o interpreta. Aos 70 anos e com 48 de carreira, o ator prefere olhar para dentro, reconhecer aquilo que pode oferecer à dramaturgia e permitir que uma nova existência encontre espaço em seu próprio corpo. É também dessa maneira que Chinua, conselheiro do reino de Batanga em A Nobreza do Amor, nasce.
Há, porém, muita coisa habitando esse corpo antes da chegada do personagem. A Cia dos Comuns, o encontro artístico com Lima Barreto, a gestão cultural, décadas de discussão sobre a presença negra na dramaturgia brasileira e a convivência com nomes como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e Sueli Carneiro ajudam a explicar por que Hilton olha para Chinua como parte de um caminho muito maior.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, o ator explica que seu processo começa pela compreensão da função daquele personagem dentro da narrativa para, somente depois, procurar em si os elementos capazes de ajudá-lo a construí-lo: “Entrego o meu corpo para que essa personagem entre e, a partir daí, lapidar, montar os caquinhos e ter um enorme carinho por esse ser que está chegando. O fundamental é ser generoso com a personagem. Ela é maior”.
“Chinua é a memória do reino de Batanga”
Conselheiro de Batanga, Chinua ocupa posição que exige estratégia e capacidade de compreender os movimentos políticos que atravessam o reino. Para encontrar uma referência para essa construção, Hilton desejava partir de uma figura negra que tivesse ocupado no Brasil uma função semelhante à de um chanceler.
Foi em Raimundo Souza Dantas que encontrou a aproximação possível. Escritor e jornalista, ele foi escolhido durante o governo Jânio Quadros para representar o Brasil em Gana. A busca, entretanto, também fez Hilton refletir sobre uma ausência que permanece: “Infelizmente, o Brasil ainda não nos deu essa possibilidade, mas creio que chegaremos lá. Um chanceler ou uma chanceler negra no comando desta pasta”.
Em Batanga, a experiência acumulada pelo conselheiro faz dele mais do que alguém responsável por orientar decisões. Hilton o compreende como parte da própria sustentação histórica daquele reino: “Chinua é um estrategista. É a memória do reino de Batanga. São muitos anos em que esse homem vive nessa posição de conselheiro do reino. Ele é um homem de Xangô, um homem que defende a justiça”.
É também por essa compreensão que o personagem se compromete com o retorno de Alika e com o direito da princesa ao trono. Para cumprir essa missão, explica o ator, suas principais armas estão na inteligência e na astúcia.
As imagens que Hilton esperou décadas para ver

A presença de Chinua em A Nobreza do Amor também se conecta a uma discussão que acompanha Hilton muito antes da novela. Para o ator, colocar personagens negros no centro de uma história atravessada por poder, realeza, relações familiares, amor e política representa uma conquista ligada a décadas de reivindicações do movimento negro brasileiro.
Ele lembra que essa mobilização nunca esteve restrita à presença de atores diante das câmeras. Também envolve quais histórias são contadas e a participação de profissionais negros na direção, roteiro, produção, pesquisa e nas diferentes etapas do audiovisual. É dentro dessa perspectiva que Hilton observa a novela ambientada no país fictício de Batanga: “É de fato uma vitória, ainda que não completa, desse movimento negro que há décadas reclama, briga e exige essa visibilidade. Estas eram as imagens que nós buscávamos”.
A ressalva feita pelo ator é tão importante quanto a celebração. Para que a produção não permaneça como acontecimento isolado, Hilton espera que aquilo que acontece agora na tela encontre continuidade em novos projetos e também atrás das câmeras: “Tenho enorme curiosidade em saber o que a Rede Globo vai fazer com o resultado de A Nobreza do Amor, com o alcance que esta novela está tendo”.
Para ele, os próximos passos precisam passar por novos roteiros capazes de incorporar experiências negras e pela contratação de profissionais que possam contribuir diretamente com pesquisa e desenvolvimento dessas narrativas: “A arte costuma me fazer otimista”.
Aos 70, um mestre que ainda prefere o risco
Chinua chega em um momento simbólico da trajetória de Hilton. Aos 70 anos, o ator recebeu o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes, reconhecimento que o faz olhar para aqueles que participaram de sua própria formação.
Ao recordar nomes como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Muniz Sodré, Luiza Bairros, Nei Lopes, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo e Raimundo Souza Dantas, entre outros, Hilton compreende o título de mestre menos como um ponto de chegada e mais como uma responsabilidade diante do conhecimento recebido.
É por isso que a experiência não eliminou sua vontade de continuar descobrindo: “O acúmulo de conhecimento exige de mim atualizações e inquietações quase diárias que busco desenvolver através do ofício de ator, que nunca me faz satisfeito, pronto. Eu gosto dos riscos. Quero honrar meu eu mestre sem jamais abandonar minhas traquinagens, minhas molequices, meu vigor, minha vida”.
Tudo está encadeado
Quando Hilton procura entender de onde veio Chinua, um dos caminhos leva diretamente à Cia dos Comuns. Criada há 25 anos, a companhia desenvolveu trabalhos que colocavam experiências negras no centro da cena e estendeu sua atuação para além dos espetáculos.
Produções como A Roda do Mundo, Candaces – A reconstrução do fogo, Bakulo – Os bem-lembrados e Silêncio investigaram diferentes dimensões da experiência negra, enquanto iniciativas fora do palco criaram espaços para discutir estética, financiamento, produção e presença de artistas negros nas artes.
Hilton não separa essa história do trabalho que realiza hoje na televisão: “Tudo está encadeado e em movimento. Não faria esse Chinua se não passasse pela Cia dos Comuns”.
A relação entre passado e presente se tornou tão profunda que o ator encontrou até um verbo para definir aquilo que o personagem passou a representar em sua vida: “Foi absolutamente positivo e tudo isso enriqueceu a construção desse grande homem Chinua, que para mim virou verbo: ‘CHINUAR’.”
“Jamais Lima Barreto sairá do meu corpo”
Se a Cia dos Comuns ajuda a explicar Chinua, outra presença permanece inseparável da trajetória recente de Hilton: Lima Barreto. O ator considera Traga-me a Cabeça de Lima Barreto! sua experiência mais marcante em cena. O monólogo não apenas aprofundou sua relação com a obra do escritor como teve impacto direto em sua reaproximação com o audiovisual, abrindo caminho para novos trabalhos na televisão, no cinema e em outras linguagens.
Mais de um século depois, Hilton continua reconhecendo atualidade nas questões levantadas pelo autor sobre o Brasil, especialmente nas discussões envolvendo política, racismo, eugenia e cultura: “Jamais Lima Barreto sairá do meu corpo. E como ele dizia, ‘que seja a insatisfação a nossa lei, sejamos grandes’. Só quem diz isso é alguém de Ogum. E eu sou de Ogum.”
Memória também se constrói ocupando espaços
A trajetória de Hilton também passou pela gestão do Centro Cultural José Bonifácio, no Rio de Janeiro. Entre as lembranças daquele período está a chegada de Conceição Evaristo à equipe em uma segunda-feira chuvosa. Hilton a recebeu com um buquê de rosas vermelhas.
Outra presença decisiva foi Lélia Gonzalez, a quem recorria nas decisões mais importantes tomadas no espaço: “Entre 1993 e 1994 eu não fazia nada de grande relevância no Centro que não tivesse a anuência da Lélia. Foi muito triste a sua partida. Lélia foi e continua sendo uma das nossas maiores referências”.
Quando fala do espaço que posteriormente passou a abrigar o MUHCAB, porém, o tom muda. Hilton manifesta restrições à dimensão física destinada ao museu e aos recursos disponíveis, por considerar que ambos não correspondem à importância histórica da população negra no Rio de Janeiro e no país: “A meu ver, essa dimensão acanhada não faz jus à grandeza e à relevância da trajetória da população negra na cidade, no estado do Rio de Janeiro e no Brasil. Falta o devido respeito e a devida proporção com a nossa história”.
O homem comum por trás de tantas histórias
Ator, diretor, gestor cultural, fundador de companhia e agora reconhecido oficialmente como mestre, Hilton acumulou diferentes funções ao longo de quase cinco décadas. Mas há uma característica que atravessa a entrevista: mesmo quando convidado a falar de si, dificilmente conta sua história sozinho.
Os mestres aparecem. Os parceiros aparecem. As equipes aparecem. Os artistas que dividiram projetos com ele aparecem. Até quando é provocado a retirar simbolicamente os cargos, os prêmios, os personagens e a própria ideia de legado para responder quem é Hilton Cobra quando não precisa representar nada, ele retorna primeiro àqueles que fizeram parte do caminho: “Antes quero renovar meu agradecimento às equipes do Centro Cultural José Bonifácio, da Cia dos Comuns e da Fundação Cultural Palmares. Não seria Hilton Cobra, Cobrinha, se não existissem vocês na minha vida. Muitas saudades de vocês, viu?”
Por isso faz sentido que Chinua tenha encontrado justamente esse ator para ganhar corpo. Um personagem definido como guardião da memória chega a uma trajetória construída pela consciência de que nenhuma história começa apenas em quem a conta. No fim, depois de 70 anos de vida, 48 de carreira e tantas versões de si mesmo, Hilton escolhe uma definição bem mais simples: “Sou um homem comum, qualquer um, enganando entre a dor e o prazer de viver e morrer como um homem comum. Nós criamos a Cia dos Comuns. Não poderia ser diferente”.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
