Ingrid Conte apresenta Iras, a grande antagonista de Ben-Hur: “Ela é profundamente humana”

Ingrid Conte interpreta Iras, uma das personagens centrais de Ben-Hur, próxima superprodução da Record com estreia prevista para setembro. Foto: Fotos Rodrigo Lopes Styling Samantha Szczerb Beleza Ric Menezes Agradecimentos Pathy

Foto: Rodrigo Lopes; Styling: Samantha Szczerb; Beleza: Ric Menezes; Agradecimentos: Pathy e Amil Confecções.

Nem toda vilã nasce para ser odiada e a visão de Ingrid Conte, que dará vida a Iras em Ben-Hur, nova superprodução da Record,inspirada no clássico romance de Lew Wallace, é que existem personagens que existem para desafiar o público a enxergar aquilo que normalmente fica escondido atrás das escolhas mais difíceis. 

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, a atriz contou que seu principal objetivo durante a preparação foi transformar Iras em uma mulher compreensível antes mesmo de torná-la uma antagonista. Para ela, a chave está em abandonar o julgamento e buscar entender aquilo que levou a personagem a agir daquela maneira.

“Acho que isso acontece quando a gente para de perguntar ‘como alguém é capaz de fazer isso?’ e começa a perguntar ‘o que aconteceu com essa pessoa para que essa escolha fizesse sentido para ela?’. Foi aí que deixei de enxergar a Iras como vilã e passei a enxergá-la como ser humano, como todos os outros”. 

A atriz revela que a personagem tem desejos, medos, carências, feridas e uma lógica muito própria: “Como atriz, meu compromisso não é defender as atitudes da personagem, mas compreender profundamente as motivações que a levaram até elas. E isso acaba dizendo muito sobre a vida também. A gente costuma julgar as escolhas das pessoas sem conhecer a história que veio antes delas”.

Essa perspectiva acompanha toda a construção da personagem. Segundo Ingrid, uma antagonista memorável não é aquela que pratica a maldade gratuitamente, mas aquela cujas escolhas fazem sentido dentro da própria trajetória: “Para mim, uma grande antagonista nunca acorda pensando: ‘hoje vou fazer o mal’. Ela acredita profundamente que está defendendo algo importante para ela”.

Para a intérprete, a personagem se torna memorável quando o público, mesmo discordando das escolhas, consegue compreender de onde elas vêm: “Iras vive exatamente nesse lugar. Ela é estratégica, sedutora, intensa, mas também profundamente atravessada pelos próprios conflitos. Isso faz com que ela seja muito mais interessante do que uma personagem construída apenas para ser odiada”.

“A atuação é exercício constante de empatia”

Ingrid Conte explica como construiu as camadas emocionais de Iras e reflete sobre empatia, julgamento e a força das antagonistas.  
Foto: Rodrigo Lopes; Styling: Samantha Szczerb; Beleza: Ric Menezes; Agradecimentos: Pathy
Ingrid Conte explica como construiu as camadas emocionais de Iras e reflete sobre empatia, julgamento e a força das antagonistas.
Foto: Rodrigo Lopes; Styling: Samantha Szczerb; Beleza: Ric Menezes; Agradecimentos: Pathy Agradecimentos: Pathy e Amil Confecções.

Ao longo da conversa, Ingrid amplia essa reflexão para além da novela. Ela acredita que interpretar personagens moralmente ambíguas transforma também a maneira como observa as pessoas fora da ficção: “A atuação é exercício constante de empatia. A cada personagem preciso suspender meus próprios valores para compreender a lógica de alguém completamente diferente de mim. Isso não significa concordar com tudo, mas entender que as pessoas são sempre mais complexas do que parecem. Acho que esse talvez seja um dos maiores presentes da profissão: ela amplia o olhar sobre o ser humano.”

A própria história de Ben-Hur, marcada por temas como fé, vingança e perdão, provocou reflexões pessoais durante o período de gravação. A atriz conta que esses assuntos ultrapassaram o roteiro e passaram a fazer parte de sua própria experiência: “Acho impossível passar tantos meses mergulhada numa história que discute esses temas sem ser atravessada por eles. O perdão, por exemplo, me fez pensar muito sobre o quanto ele tem menos a ver com o outro e mais com a nossa própria liberdade. E a vingança também é tema fascinante, porque muitas vezes nasce de dor legítima. A arte nos convida o tempo inteiro a refletir sobre escolhas humanas, e isso inevitavelmente acaba atravessando quem está contando essa história”.

Outro desafio esteve em revelar as fragilidades de Iras sem torná-las evidentes. Ingrid explica que procurou construir essas camadas nos pequenos gestos, muitas vezes sem recorrer às falas: “Existe esse risco, principalmente num primeiro momento. A primeira impressão da Iras é de mulher extremamente segura de si. Mas sempre procuro deixar pequenas frestas pelas quais o público possa enxergar a mulher por trás dessa imagem. Muitas vezes isso está num silêncio, num olhar, numa respiração, numa hesitação muito sutil. Eu acredito que as maiores fragilidades de uma personagem nem sempre aparecem nas falas, mas naquilo que ela tenta esconder”.

Esse refinamento também fez da personagem um novo desafio artístico. Segundo Ingrid, boa parte da narrativa de Iras acontece no que não está no texto, exigindo atuação baseada em nuances: “Muitas vezes ela sente uma coisa, diz outra e faz uma terceira completamente diferente. Isso exige atuação muito precisa, porque boa parte da história dela acontece no subtexto. O desafio foi justamente construir uma personagem cuja complexidade nem sempre está explícita, mas vai sendo descoberta aos poucos pelo público”.

Ao final da entrevista, Ingrid resume aquilo que espera deixar como principal reflexão quando a novela chegar ao fim. Mais do que discutir quem estava certo ou errado, ela gostaria que a trajetória de Iras despertasse uma pergunta simples e profundamente humana.

“Gostaria que o público saísse se perguntando: ‘Até que ponto eu realmente conheço a história das pessoas que eu julgo?’. Acho que a Iras nos lembra que ninguém nasce reduzido a um rótulo. Antes de qualquer escolha existe uma trajetória, uma dor, um contexto. Isso não significa justificar tudo, mas talvez nos convide a exercitar um pouco mais a empatia. Se a personagem conseguir provocar esse tipo de reflexão, ela já terá cumprido um papel muito bonito além do entretenimento”.

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