POV transforma o primeiro date em um jogo entre quem somos e quem mostramos ser

POV transforma o primeiro date em um jogo entre quem somos e quem mostramos ser foto FEFÉLPRÓD

Foto: FEFÉLPRÓD

Um primeiro encontro talvez já não comece quando duas pessoas ficam frente a frente. Pode começar muito antes, entre uma foto antiga, uma sequência de stories, seguidores em comum, curtidas interpretadas como sinais e alguns minutos dedicados a descobrir quem está do outro lado da tela. Quando o encontro finalmente acontece, é possível que cada um já tenha inventado uma versão do outro e preparado cuidadosamente a própria.

É nesse espaço entre aquilo que somos, aquilo que mostramos e aquilo que alguém acredita ter descoberto sobre nós que Rafael Americo e Marilia Curtolo construíram POV (Point of View). Criada e protagonizada pelos dois, a microssérie vertical acompanha Nicole e Filipe em um primeiro date atravessado pelas expectativas que nasceram antes mesmo de eles se conhecerem pessoalmente. A primeira temporada, intitulada Mais um primeiro date, tem cinco episódios lançados semanalmente no Instagram.

Mas a investigação dos criadores não parte da ideia de que existe alguém enganando e alguém sendo enganado. Para Rafael, interessa justamente a região em que as duas coisas se confundem: projetamos histórias sobre quem desejamos conhecer enquanto também selecionamos aquilo que gostaríamos que essa pessoa conhecesse sobre nós: “A internet não criou o desejo, a insegurança ou a necessidade de ser aceito, mas criou novas formas de manifestar tudo isso e, com elas, passou também a moldar a maneira como a gente se relaciona”.

Quando não estar nas redes também comunica

Nicole e Filipe chegam ao encontro de lugares diferentes. Ela, arquiteta de 28 anos, construiu uma presença digital marcada pela estética, produtividade e organização. Ele, de 31, é muito mais discreto online. Só que a ausência também produz significado.

Na criação de Filipe, Rafael percebeu que não performar ostensivamente nas redes não significa escapar da performance. Em um tempo no qual ter presença digital se tornou quase esperado, até responder que não possui Instagram pode provocar imediatamente alguma impressão.

Essa característica também ajudou o ator a encontrar o comportamento do personagem fora da tela: “Ele tem uma timidez, um jeito inadequado um pouco atrapalhado, algumas camadas que esconde e outras que simplesmente escapam dele”.

É daí que surge contradição que interessa especialmente ao criador: Filipe pode parecer pouco disposto a construir uma persona digital, mas continua administrando a maneira como será percebido quando encontra Nicole: “Talvez ele só tenha trocado o palco da tela pelo palco da vida real”.

Nicole é aquilo que mostra, mas não apenas aquilo

Se Filipe escolhe uma presença mais silenciosa, Nicole sabe como deseja ser vista. Para Marilia, entretanto, isso não faz da personagem uma fraude. A atriz prefere compreendê-la a partir da diferença entre editar e mentir: “Nicole é também tudo aquilo que ela posta. Bem artística, forte, independente, ama o que faz, seu senso estético ocupa grande parte da vida dela, mas não só isso, né? Ela é insegura também, vulnerável, sensível, se apaixona fácil”.

O conflito aparece justamente quando aquilo que pode ser organizado em uma rede social precisa existir diante de outra pessoa. Sem enquadramento escolhido, edição ou possibilidade de controlar completamente a leitura do outro, novas camadas começam a escapar.

Para Marilia, esse limite entre ser e parecer foi uma das regiões mais interessantes da personagem: “A nossa realidade hoje é alimentar muito o ‘parecer’ algo, mas, no tête-à-tête, não tem para onde fugir, é difícil sustentar. Sempre vai ter algo que escapa, e que bom”.

A construção também passa pela pressão colocada sobre mulheres para parecerem fortes, independentes, bonitas, produtivas e emocionalmente bem resolvidas. A diferença entre a preparação de Nicole e Filipe para o encontro é usada pela série para colocar essa questão em cena: enquanto ela atravessa um longo ritual antes de sair, ele resolve sua preparação de maneira muito mais rápida: “Isso parece uma coisa boba, mas é um retrato social muito forte. Quanto tempo a gente gasta na vida para se encaixar num padrão estético?”

Qual versão de nós mesmos é verdadeira?

POV acrescenta outra camada ao encontro ao permitir que o espectador tenha acesso àquilo que passa pela cabeça dos personagens. Assim, existem simultaneamente o pensamento, aquilo que efetivamente é dito e a interpretação de quem está do outro lado.

Rafael admite que escolher qual dessas versões seria a mais verdadeira significa esbarrar em uma questão maior: onde exatamente está aquilo que podemos chamar de nossa versão real?

Se precisasse apontar um lugar em que o espectador consegue chegar mais perto de Filipe, ele escolheria o pensamento, não porque a mente seja necessariamente confiável, mas porque ali aparecem impulsos anteriores à organização necessária para apresentá-los ao mundo: “A nossa cabeça também mente para a gente, exagera, cria certezas que não existem, nos cobra, nos sabota”.

Para Marilia, essa distância entre pensamento e comportamento encontra correspondência nas máscaras que carregamos nas relações cotidianas. O trabalho com Nicole, por isso, não passou por simplesmente ilustrar no rosto aquilo que o público já escuta em sua cabeça, mas pela observação das contradições que aparecem quando pensamento, fala e gesto não estão completamente alinhados.

Quando conhecer demais impede a descoberta

Há ainda uma investigação que antecede muitos encontros contemporâneos. Fotos, publicações antigas, seguidores, amigos em comum, lugares frequentados e gostos declarados oferecem fragmentos que podem diminuir a sensação de estar diante de um completo desconhecido.

Rafael faz uma distinção importante. Existe uma busca relacionada à segurança, especialmente diante de perfis falsos, golpes e outros riscos, que considera legítima. O que POV observa é outra camada: o momento em que reunimos informações suficientes para acreditar que já sabemos quem alguém é: “Quase sem perceber, constrói uma pessoa antes de conhecer a pessoa de fato”.

A questão passa a ser o quanto essa investigação diminui a insegurança e quando começa, ao contrário, a eliminar justamente aquilo que torna um encontro capaz de produzir alguma descoberta. A experiência da própria série levou Marilia a uma conclusão menos diplomática: “As redes deixaram os encontros chatos. SÉRIO! Hahaha, sorry, galera”.

A atriz se incomoda especialmente com uma contradição que reconhece nas relações atuais: encontrar alguém presencialmente e, ainda assim, escolher o ambiente virtual para iniciar a aproximação: “Cadê o flerte PRESENCIAL?”

Nunca tivemos tantas maneiras de falar e ainda perguntamos o que o outro quis dizer

A contradição também aparece nos códigos criados pela própria internet. Emojis, reações e curtidas parecem simplificar a comunicação, mas podem produzir novas possibilidades de interpretação. Ao transformar esses comportamentos cotidianos em dramaturgia, Rafael começou a estranhar justamente aquilo que já parece absolutamente natural.

Um emoji, observa, pode carregar interesse, desejo, intimidade ou ironia dependendo não apenas de quem o envia, mas de quem recebe e do repertório mobilizado para interpretá-lo. A pergunta que surge interessa diretamente à lógica de POV: quanto de uma mensagem realmente veio do outro e quanto foi completado por quem a recebeu?: “Nunca tivemos tantas ferramentas para dizer o que sentimos e, ainda assim, continuamos tentando descobrir o que o outro quis dizer”.

O celular deixa de ser tela e entra na dramaturgia

Se POV fala sobre relações atravessadas pelo digital, Rafael e Marilia não queriam simplesmente colocar essa história dentro de uma moldura vertical depois de pronta. O projeto foi concebido para existir nas redes.

Isso significa disputar a atenção do público no mesmo ambiente em que um movimento do dedo pode interromper um episódio e levar imediatamente ao próximo conteúdo.

Em vez de tentar combater essa lógica, Rafael decidiu incorporá-la à direção e à montagem: “O scroll é um exemplo disso. Se basta deslizar o dedo para abandonar a história, eu quis trazer esse próprio movimento para dentro dela”.

Transições simulam a navegação pela plataforma, mensagens surgem integradas à tela e movimentos de câmera foram ensaiados junto às falas e aos deslocamentos dos atores. A intenção era fazer ritmo, interpretação, fotografia e montagem responderem à mesma proposta: “Então o formato não veio depois da história: ele participa da história”.

A escolha produz ainda uma ironia que os criadores não tentam esconder. A microssérie observa criticamente os códigos que atravessam as relações digitais enquanto depende desses mesmos códigos para alcançar quem está do outro lado.

Para Rafael, essa contradição faz parte do projeto: “POV questiona a maneira como essas plataformas atravessam nossas relações enquanto depende delas para existir”. A narrativa, por isso, não fica restrita aos episódios. Stories, carrosséis, comentários e outros recursos são incorporados ao universo da produção, ampliando o jogo entre ficção e plataforma.

O outro é aquilo que não conseguimos controlar

No centro de todas essas escolhas permanece uma experiência muito anterior ao Instagram: duas pessoas tentando descobrir uma à outra. As redes podem oferecer informações, antecipar gostos e permitir que alguém organize cuidadosamente a própria apresentação. Ainda assim, existe uma fronteira que nenhum perfil consegue eliminar completamente.

Para Marilia, Nicole encontra essa fronteira justamente em Filipe: “A tecnologia fez isso com a gente, mas, no fundo, a gente não controla quase nada. POV mostra que, por mais que você tente, o outro é um universo diferente, com vida própria, com sua visão de mundo, pensamentos e sentimentos”.

Por isso que a criadora está menos interessada em fazer o público simplesmente se identificar com Nicole do que em provocar uma quebra de expectativa. Afinal, se os personagens chegam ao primeiro encontro acreditando conhecer alguma coisa um do outro, o espectador também corre o risco de fazer exatamente o mesmo enquanto assiste.

Nicole observa Filipe. Filipe observa Nicole. O público observa os dois. Cada um monta sua versão a partir dos fragmentos que recebe e no meio de todos eles, permanece aquilo que Rafael passou a enxergar não apenas como suporte da história, mas como parte dela: “O celular está no meio de todas essas relações. Ele também é um personagem dessa história”.

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